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Rescaldos de um ano pandemônico


Este foi sem dúvida um dos anos mais longos -e mais curtos- da minha vida. E olhem que não vivi pouco.

Levava uma vida sossegada, como diria a Rita Lee, quando um desgraciado de um vírus de nome esquisito transformou o meu mundo (e o de todos vocês) em um grande pandemônio. Recolho os rescaldos agora.  

 

No período que se segue a uma tragédia ou acontecimento marcantegeralmente quando ainda se sentem os seus efeitos ou .consequências. "rescaldo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/rescaldo [consultado em 21-12-2020].

O início de janeiro me pegava preocupada com obsessões e me perguntava "como nos protegemos da barbárie? Do cotidiano que não faz mais sentido? Dos medos e temores que nos abatem e para os quais nossa alma, exaurida, não tem mais a tal de força de vontade de reagir..."

Em fevereiro um conto traduzia exercícios com as palavras em brincando com o corretor automático onde a personagem refletia que "se fazia sentido, nem importava. O que escrevia era mais um pedido de socorro que um texto bom sobre a decisão de passar por isso. Se fosse um avatar de game galáctico, seria a hora de passar de fase." 

Mal sabia que a próxima fase, em março, seria de um mundo completamente diverso onde a pergunta básica, urgente e necessária é saber qual a sua prioridade. "Solidariedade não é teoria. Prevenção vai além das necessidades e crenças pessoais. Bravura é se cuidar e cuidar dos outros. Expor pessoas ao perigo é apenas insensatez e egoísmo. Nesses tempos de perigo, quem você quer salvar? 

Abril, o mês que perdi, não por acaso o mês de meu aniversário, me fez refletir que, " por incrível que pareça, em pleno século XXI, depois de tantas descobertas, do mundo estar conectado digitalmente, de se ter ido à Lua, começo a me sentir vivendo em plena Idade Média. Com algum conforto, é claro. Mas com os mesmos desafios de tentar compreender o mundo sem fanatismos e com alguma racionalidade.
Só espero que uma outra Renascença nos aguarde. E breve! 

Maio me encontra perplexa, detrás da minha janela vejo a insignificância da vida em diários da pandemia quando leio que alguém morreu soltando pipa"Morremos todos um pouco de cada vez que nossos voos batem de frente com fios. Esquisita essa vida. Lutamos pelo quê mesmo?"

Em junho os dias eram iguais. A raiva impotente vira poesia e "Um gato que olha o nada, Um angolano baleado por engano, "Vai sangrar até morrer", Sobrevive por sorte, No mundo onde a cor da pele define Morte/vida dos que deviam proteger"

Surtada em julho com "mais de 100 dias presa em casa. Três saídas esporádicas e tensas. Quem não surtou no meio da pandemia não a viveu com intensidade."

Entre mantras e e angústias enfrento o temido agosto, o eterno mês do desgosto. "No momento sigo oscilando entre conviver com a finitude e a descoberta do portal da luz. Não é fácil, podem saber. Talvez a iluminação venha da aceitação dos caminhos do cotidiano. Talvez venha da libertação das amarras. Sigo."


Quando setembro chegou, minha parte mais lógica lutava para continuar seguindo, equilibrista que sou entre a iluminação desvairada e a ponderação insana. Refletia sobre as Coisas da Coisa. "Nesses tempos pandêmicos de pós verdades e sem verdades, onde versões valem mais que fatos, e a coerência tomou chá de sumiço, tento ainda estabelecer padrões mais ou menos lógicos para os acontecimentos. Mas falho."

Outubro? A inconstância me encontra em seus caminhos 

Sete histórias inconclusas
Nuvens borradas no ar
Miragens de quereres
esperando para findar

Guardo a garrafa
Fecho as contas
Faço as malas
Choro
Respiro

Novembro resgata um diário, uma maneira de tentar entender as passagens de dias tão confusos onde portas se fecham e janelas se abrem.  "Perguntas tantas que me faço olhando as janelas já que as portas ainda me são fonte de perigo. Mais que externas, são dentro de mim que correm vírus de desesperança no nosso futuro como sociedade viável. 
Mas...a ponta de esperança sempre grita que as reais mudanças são maiores que o ciclo de nossas histórias pessoais. Resta-me o bom humor, a ironia, o escrever cada vez mais raro porque tão sem sentido parece. Resta-me sobreviver criando belezas que é meu ofício de escolha. Minha pontinha de luz nesse mundo que teima em amanhecer dias azuis e ensolarados, mesmo após negras tempestades de violências e ódios. 
Oremos. E vamos à luta. " 

No ano das lives e dos encontros virtuais, termino dezembro louvando uma delas e constatando que "ficar odara não me capturou na época em que foi cantada pela primeira vez. Mas ficar odara em 2020, me faz vontade de ser novamente 2000 e ter todo um século pela frente como bem sugeriu Caetano. Não é um hino de louvor apaixonado. Vou continuar gostando ou não de Caetano. Mas vou em frente, quero continuar vivendo. Por que não?"

Não foi um ano de pouca produção. Talvez até tenha sido um ano bom. Estou viva, há uma alinhamento de planetas e quem sabe não veremos a aparição do segundo sol trazendo um novo recomeço. É o que nos leva em frente, não?

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