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Mostrando postagens de Outubro, 2020

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Das areias do tempo que marcam a poesia

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  Cabeça esmagada,  tanta areia jogada minutos correm minutos galopam tipo velocidade supersônica Tempo é bicho ingrato não perdoa nem santos nem pecadores nem a gente Cabeça esmigalhada feito bagaço de fruta chupada cuspida no asfalto quente daqueles que frita ovo queima sola do pé afasta poesias Cabeça vazia complexa mistura de repentes Docemente cantadas nos instantes fugidios Senhora descoberta sem mantos sem encantos Poetas socorrei-me tragam a musicalidade das rimas simples angustiantes  das herméticas labirínticas construções do emaranhado de vida lambida Amantes vinde! Me amparem em sua paixão ousadias e desejos ardentes sílabas rimadas de vontade de sincronia Navegantes, abram seus mares areias e tempestades Balanço de cavalos marinhos Ímpeto de tubarões profundezas de mistérios da alma Atlântica do poeta português Deusas e Deuses Toquem-me com seus dons Façam-me divina e mortal acendam a centelha que mistura afronta e medo Tornem-me imortal  em ousada desobediência Sai de mim

Tributo aos que me criaram

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Trago em mim o dna de minha gente Os reconheço quando olho no espelho nos pensamentos fugidios nas quimeras que lançaram  Em cada um deles um traço um reponte uma magia o pequeno elo de muitos olhares amores tardios/precoces/inconfessos das terras tedescas aos mares de açorianos das indias deitadas com vontade ou sem dos fados lusitanos o céu ainda é azul para mim que respiro deles a vida que se foi mas no entanto perdura Meus dedos lembram os dedos de meu pai meu sorriso, o seu  agora que nos tornamos velhos e sábios eu sempre mais sisuda que ele eles sempre mais crianças que eu Em cada pedaço de pele uma mistura de raças e anseios paridos em forma de vida em cada pesquisa sobre os que me criaram pais, avós, bisavós e teratataravós um encontro comigo mesma

Brasa dormida

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  Tomo cálices de vinho Ouço músicas portuguesas o sotaque acarinha minha alma lusa Sonho contigo te chamo acabas não vindo viro fado dessas lusitanas coisas tão doces rudes tão alma brasileira ariana/doce/molenga acabo o vinho sinto calafrios ardejantes calafrios   como brasa dormida que acorda num repente Vira labareda Nunca mais voltes ao lugar onde ardeste de paixão diz a voz com sotaque bonito Nada mais será igual não vai acender o lume já apagado Regras da sensatez diz a música Bobagem  sussurro para mim chama acesa vira fogo eterno é como danação que volta porque não virou cinza ainda é brilhante Não existem regras sensatas na paixão Só mais uma vez...

Sete caminhos inconstantes

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Sete histórias inconclusas Nuvens borradas no ar Miragens de quereres esperando para findar Guardo a garrafa Fecho as contas Faço as malas Choro Respiro Sete margens passageiras Abismos tórridos Cachoeiras  Muros Murros Gritos Sete navios singrantes Sete mares sangrantes Sete contas que não fecham Furacão amanhecido aragem mansidão Sopra ventos Sopro cantos Sussurro Pego Ataco Percorro Sete caminhos inconstantes vontades percorridas saudades gemidas Partos  Parto Sete possibilidades Sorrio Engulo Afago Cheiro Escuto Sete sentidos eriçados pele a pele Se saio/se fico retorno pura vertente Mulher tem disso É sábia inconsequente   Conta contos Perde contas Corta

Esmeralda, a filha esquecida

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Aquela mulher pequena e forte que conheci como Vó Virgínia , a tia que criou minha vó Estelita desde que nasceu, escondia pedaços de informações que nunca ouvi falar. A história tem disso. Tanto a que se lê em livros, como a das pessoas anônimas, como nós. A versão que sempre ouvi é que ela era irmã mais nova da bisavó que tinha morrido no parto. Criou a menina nascida tão pequena em seu regaço. Tinha se casado e separado porque o marido bebia. Se mais sabiam, nunca ninguém falou. Era como se a autoridade que ela sempre nos inspirou, fizesse com que a versão de sua vida fosse a que ela queria contar.  Não fosse por uma sobrinha bisneta, metida a pesquisadora, que adora fuçar na história, juntar caquinhos e retalhos, tentando assim formar um quebra cabeças que mostre um pouco mais quem foram as mulheres que me antecederam, talvez a memória que tivesse ficado seria a que narrei antes. Refleti muito se devia reescrever as histórias que tinha contado antes. Cheguei a conclusão que a narrat

CRÔNICA DE UM AMOR AUSENTE

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POA/ 31 de maio de 2020. Tarde chuvosa e sonolenta. Se do meu corpo teima sair saudade Que há de fazer o coração ? A carne treme, sente, chama Não há espaços para dúvidas nem incertezas O lugar é. Existe em sua plenitude/toma conta Imenso se agiganta e se alicerça Em tudo é pleno. Ausência sentida como um soco Vida arrancada do peito. Morte é a ausência de. Mesmo que vivo Alcance é impossível.  Será? Escolha é factível,  Independe da vontade. Existência emerge soberana Tempo talvez seja sábio. Que importa? Importa o agora, o chamado mudo. Importa a falta/ o ar que se torna denso Importa sim a sozinhez de quem se sentia com. Treme/ sente/ quente. Amor que se faz ausente. Amor que se faz carente. Amor que tanto se sente. POA, 01 de junho de 2020  Manhã fria, após uma prova de online de Tópicos especiais de Filosofia da Educação. Pouco importa a razão. Pouco importa a solidão. Pouco importa os motivos da separação. A energia se impõe. Emerge soberan

A boneca que veio do céu

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  Meados de 1963. Morávamos no interior do Rio Grande do Sul, bem pertinho da capital, Porto Alegre. Meus pais eram jovens e dinâmicos. Nossa casa era linda, no alto de um morro, com um grande jardim e janelas altas como que para que ninguém olhasse para dentro dela. Só tinha um problema: não era nossa.  A vida da minha família, embora muito feliz, não era vivida sem economias. Meus pais eram órfãos quando se conheceram. Costumavam brincar que tinham juntado suas pobrezas em uma grande miséria. Brincadeira, é claro. Meu pai tinha um bom emprego. Mas também muitas pessoas para ajudar. A mãe viúva, sempre tinha um sobrinho ou mais morando conosco, colégios pagos e a sua velha convicção de que pagar aluguel era jogar dinheiro fora. Solução: construir uma casa sua. Solução que demandava esforço. Teve um período em que todas as despesas se juntaram, parecia não haver muita saída. Hora de decisões loucas, tipo: pior que está não vai ficar. Lá se foram os dois passar o aniversário de casament