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Mostrando postagens de Maio, 2018

Uma semana, uma vida

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Segunda feira de manhã Um corpo que voa no ar. 
Não fora estar na janela, assim meio a toa, não saberia o que de fato acontecera. Foi tudo muito rápido, mais que o seu olho conseguira acompanhar. Quando se deu por conta, o barulho do baque mostrou o garoto caído ao lado da quadra de esportes. Ele se levantou e deu uns passos antes que o horror se fizesse completo. Caiu de novo. Agora não fez barulho. Logo seria apenas estatística de suicidios de jovens na capital. 
Nunca conseguiu entender jovens que optam por acabar com a vida. Os velhos até podia entender. Solidão, decrepitude, doenças, falta de esperança. Tudo o oposto de quem nasce para a vida. Mas vá lá se saber o que passa na cabeça das pessoas. 
Ela também era jovem. Quase da mesma idade do garoto que voou da vida. Talvez ele fosse um dos olhava com mais interesse. Talvez fosse ser seu amigo. Seu namorado. 

E se fosse sua alma gêmea? 
Não, a vida não ia lhe pregar esta peça. Ainda muita coisa estava reservado de bom para ela. Seus v…

Sigam-me!

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quando foi que esqueci de dizer que nada mais importava? Talvez quando teu chamado silenciou. Nem nas redes sociais tu me seguia.
Tudo bem que não poderia ser chamada de digital influencer, mas tinha alguns números bons nas redes. Nada super expressivo, mas um público fiel me curtia. Lia minhas postagens, compartilhava minhas bobagens. Menos tu.
Tu que mais me importava. Tu que era como o sol que me brilhava por dentro. Tu que me fazia ver sentido nas coisas sem.
quando te vi pela vez primeira devia ter desconfiado. Aquele sorriso maroto. O ar de menino sério. A voz bonita. Tudo foi entrando sorrateiro, feito borbulha de espumante que quebra na areia. Feito espuma do mar que arrebenta com a rolha. Feito ar que molda os sentidos. Feito pedacinho de gente que foi, morreu e se espalhou e quando encontra outras partes faltantes e completantes, se enche de uma certeza das coisas sempre vividas. 
Uma confiança que não se explica. Uma ausência que se parte. Uma complementaridade que assusta.
E co…

Quando me tornei mãe de minha mãe

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O processo natural da vida é que a gente se sinta acolhida e protegida no colo da mãe. 

Este colo pode assumir variadas formas à medida que nos tornamos mais maduros. Mas nos parece sempre uma relação de alguém que busca e alguém que dá. A filha que busca respostas e amparo. A mãe que dá amor e proteção.

Ledo engano. Há os momentos em que os pais se tornam frágeis e os papéis se invertem. 


No começo parece que vai ser temporário. Eu até brincava com meus pais. Dizia que estava em desvio de função e logo íamos voltar ao normal. Eu até acreditava no que dizia. Ou fazia força para acreditar. 

Mas os anos passaram e a fragilidade aumentou.

Aprendi a ser eu quem decidia e amparava. Os Natais, os aniversários e datas especiais já não tinham a surpresa dos presentes deles. As letras nos cartões foram ficando tremidas até que esqueceram os dias especiais. Eu que virei Papai Noel. 

Passei a comandar a casa dela. Cuidar de seus remédios, ralhar quando teimava em esconde-los na mão para não tomar. Vir…

Transgressora

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Era hora de partir.

Como sabia? Não sabia. Na verdade o partir era mais deveria que querer.

A cabeça sabia. O coração não. 

Dos dias que corriam mansos sabia falar. Da intensidade que margeava seu redemoinho, não.
Era dessas. Calma na aparência. Turbilhão no interior.
Das suas margens sabia seu limite. Das suas enchentes não tinha vazão.
Suas entranhas gemiam surdos lamentos. Das gosmas que nasciam de seus desejos pariam cores e sons. Eram vida.
A vida que teimosamente diziam pertencer ao comedimento. 
Ultraje. Mentiras. 
Urgia nela, dela a necessidade de transbordar. Seria tudo aquilo que não fora ensinada. Adestrada. Amestrada.
Seria autêntica e transgressora. 
Seria foro de liberdade. E que se lixassem os vizinhos. Os maldicentes. Os carentes. Os ausentes.
Ela toda seria presente.
Diria sim aos anseios. Diria sim aos desvaneios.
Seria chuva e represa. Seria os nãos e os sins. Seria as escolhas que nunca fizera. 
Seria.
Vestiu seus sapatos vermelhos. Eram sua marca. Seu ponto de des…

Segundas precisam de histórias de Pai

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Ótimo! Acordar já é um privilégio. Acordar em uma cama tua, sob um teto teu, com possibilidade de comer e interagir com gente querida te faz uma pessoa que pertence à uma minoria bem específica da humanidade. 
Sei lá se existe uma pesquisa que comprove isso, mas deve. Tudo é passível de pesquisas hoje em dia. Até o cansaço das segundas feiras.
Afinal, quem não?

Segunda feira é aquele dia em que tudo começa: trabalho, dietas, rota para os objetivos. Tudo adiado para a segunda que tem esse poder mágico de despertar o lado mais laborioso das pessoas. Isso para quem descansa nos fins de semana. Outra camada privilegiada.

Como boa profissional liberal nunca tenho essa definição exata entre os dias da semana. Toda hora é hora de trabalho. Arquitetos entenderão.

Mas ainda consegui reservar as manhã de sábado para meu reabastecimento. Isto antes de virar mãe e pai de meus pais.

Eu, que não tive meus filhos, acabei tendo essa experiência mais tarde de cuidar de alguém. Com uma pequena diferença que …