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Mostrando postagens de Fevereiro, 2020

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O carnaval que quase acabou com o meu nascimento

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O som metálico da aliança jogada longe soou como um trovão no piso da Praça Saldanha Marinho. Era fevereiro de 1944 e o carnaval ia começar naquela sexta feira, dia 18. Helena tinha esperado com ansiedade a vinda do seu noivo, Paulo.  Haviam se conhecido cinco anos antes. Um cruzar de olhares e parecia que tudo tinha feito sentido. Mesmo os longos momentos de separação. 
Ele continuou a morar na sua Cachoeira do Sul, fez concurso para o Banco do Brasil. Ela tinha ido para Passo do Sobrado, Porto Alegre, navegado para a capital que ainda era no Rio de Janeiro. Sobreviveram à cartas censuradas, tanto para a família como para o governo que havia, enfim, aderido aos aliados na luta contra o eixo. Eram os tempos conflituosos da Segunda Grande Guerra. Na Europa, a luta corria sangrenta. Poucos sabiam das perseguições às minorias daquele governo alemão que usava a eugenia como política de promoção da melhoria da raça germânica.
Aqui no Brasil os descendentes daqueles alemães, que cruzaram o…

Em outros carnavais quando a vida era mais solta

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Diálogo entre Antônia e sua cuidadora, em um quarto de uma clínica de repouso. Antônia tem 95 anos e sua cuidadora, Dora, vinte.

- Seus remédio, Antônia. A pílula rosa é para a pressão, a branca para o colesterol, a amarela para a ansiedade, a rosa para afinar o sangue, a comprida para a memória.

- memória? Brincas comigo. Fora! Memória é bom para gente jovem como tu, que tem futuro pela frente, que precisa lembrar de quase tudo o que fez. Para repetir ou se arrepender. Quando se está velha como eu,  melhor nem lembrar que dia é hoje e quanto tempo falta para morrer. 

-deixa de bobagem! Falando nisso, sabes que dia é hoje? 20 de fevereiro de 2050. Domingo. É carnaval, Antônia! Vai dizer que tu não gostava de comemorar a folia? Ouvi dizer que eram grandes festas populares no século passado. Minha mãe disse que se lembra ainda de bailes infantis onde ia fantasiada de uma coisa chamada de mulher maravilha. Devia ser algum avatar da época. Ela falou daquele parque que foi destruído na grande…

Virginia Cunha, a decidida

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Vergina, como consta dos registros, nasceu em 16 de setembro de 1876, então nesta foto dos anos 40 ela tinha por volta de 68 anos. Não mudou muito para quando a conheci. Minhas primeiras recordações da Vó Virginia remontam aos anos 60, quando meus pais iam passar férias na casa da Vó Estelita, no interior do estado. 
A vó Virginia era baixinha, mas muito cheia de personalidade. Lembro que gostava de rezar e sua mesinha de cabeceira tinha muitos santos católicos. Não lembro de nenhum em especial, considerava bonitas aquelas pequenas estátuas coloridas que representavam histórias. 
Ela e a vó costumavam rezar o rosário todas as noites. Pelo menos nas noites em que eu estava por lá. Achava lindo aquele entoar a reza em voz alta, a mesma uma após a outra, as mãos seguravam as bolinhas do terço e iam passando de uma para outra com rapidez. Eu me juntava à ladainha achando aquele ritual algo fascinante. 
A cozinha era grande e ali se faziam as orações. Nas paredes, um quadro de coração de …

Brincando com o corretor automático

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Havendo uma vida chegando na casa da cunhada que não vai ser realmente uma boa companhia de sua vida.
Começou a brincar com o teclado de preenchimento automático para ver se a frase formada faria mais sentido que a inércia que tomava conta de seus neurônios. 
Quanto mais lia, mais nada parecia fazer sentido. Eram teorias que brincavam com seu espírito mais importante que não tem que ser bem interessante. Lá ia ela de novo, talvez palavras alheias fizessem algum sentido naquela coisa que o cérebro da gente teima em fazer quando não vê coesão em algo. Pareidolia ou algo semelhante que leva a tentar achar significado em algo aleatório.
Era um fim de semana tão bom. Fazia tempos que não sentia tanta leveza de ser. Não saberia dizer se foi o dia lindo e a impossibilidade de usufrui-lo, se foi a leitura do livro que deveria ser um potenciador de tesão, presente com intensas intenções do namorado da vez. Sabia que uma nuvem densa tinha se abatido sobre ela. Talvez até o vinho no almoço. Mas uma…

Virgínia, que sonhava viajar

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Enquanto arrumava as malas para ir à casa da cunhada em uma cidade perto, Virgínia lembrou dos trilhos do trem.  Poucos anos antes, ela e o recém namorado passeavam de mãos dadas pelas linhas férreas da cidade. Embora uma pequena metrópole para os padrões da época, em pleno estopim da Segunda Guerra Mundial, a estação da cidade não era muito movimentada. Os trens partiam em horários certos. Por isso os trilhos eram escolhidos pelos jovens enamorados para as primeiras escapadas a sós. Os trilhos e o cinema.  O único cinema da cidade tinha filmes emocionantes. Quando ela  conseguia um dinheiro extra, sobrando da ajuda em casa, gostava de sentar nas poltronas não muito confortáveis e sonhar com uma vida diferente. Viajar para outros locais: conhecer não apenas as capitais, mas os lugares históricos. Viajar já a fascinava desde jovem. Órfã muito cedo, nunca teve uma vida abastada. Sua mãe e tia vó costuravam para fora. Não conseguiu estudar muito e logo teve que arrumar um emprego para a…