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Mostrando postagens de Junho, 2020

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As fogueiras da infância

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Lá fora crepitava o fogo na noite gelada de junho. Dentro de casa a animação também era calorosa. A ampla mesa da cozinha se tornava pequena frente à animação das gurias. Primas e adolescentes se esmeravam em sortilégios, os mais criativos, na ânsia de saber mais sobre seus futuros e amores. 
Era década de sessenta. E lá, como aqui, as noites de festas juninas eram motivo para se falar dos amores e prováveis namorados. Ficantes era palavra absolutamente proibida e desconhecida. Pelo menos na frente dos pais e tios que a tudo assistiam sem muita atenção. Falavam de política e dos novos rumos do país com aquele presidente da vassoura. O que ia acabar enfim com a corrupção. As mães e tias se ocupavam dos doces e comedorias. E do quentão que cheirava forte na sua mistura de álcool e canela. Era frio. Mas nem se ligava.  Lá fora os guris, dos mais novos de olhares arregalados aos mais velhos, já de olhares moles para as meninas da casa, todos se ocupavam das festas de São João.
O páteo da casa …

Reflexões sobre a finitude

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Esta vida é uma viagem pena eu estar só de passagem. Paulo Leminski
Não lembro quando tive consciência da morte. Tive o privilégio de só perder pessoas muito próximas quando já estava entrando na adolescência. Meus pais não. Órfãos muito cedo, os dois passaram pelas experiências de privações emocionais e materiais bastante marcantes com muito pouca idade. Aquela idade em que tudo deve parecer magia e encantamento eternos.
Perdi uma gata quando criança. Os bichinhos, dizem, também vem para a nossa vida para nos ensinar lições de transitoriedade. Se vão mais rápido que nós. Lembro do trauma lá em casa com a morte da Bolinha. Morreu em um parto, lembro vagamente de falarem que o veterinário não conseguiu salvar. Todos ficaram tristes. Mas não nos impediu de ter novos gatos e conviver com eles em forma de lúdica entrega amorosa.
Pouco depois, talvez até tenha sido antes, o tempo é uma teia enredada nas memórias do passado, morreu um vizinho. Avô de meu melhor amigo. Nossas casas eram separadas …

Alquimia do afeto

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Nos tempos sectários de agora fica difícil se falar em afetos.  O amor é algo meio incondicional, se exige reciprocidade, deixa de ser amor, vira obrigação. Aceitação.  Não necessariamente engajamento unilateral, mas aceitar o outro em toda a sua complexidade de ideias e convicções.  E apesar de, ainda assim, amar.  Mesmo que não amalgamando totalmente, mesmo que não junto, mesmo que não para sempre. Mas amar. Aceitar primeiramente sem tentar moldar. Sem encaixar a força o que não se molda. Amor começa livre, admiração pela personalidade, um olhar, um raio, um instigamento de luzes. Uma sincronia de momentos. Meteoro. Furacão. Liberdade. Desvir de pré conceitos. Viver de momentos. União. Como as mãos que amassam o barro para formar a cerâmica. Construção. Alquimia de quereres. Querer fazer o amor bonito. Querer construir resiliências de convivências. Moldar peças de intricada teia. Delicada. Tênue. Fogosa teia de possibilidades. Eternas possibilidades. Alquimicamente transformantes. Tu nunca meu. Eu nunca tua. Mas…

Varrendo o que não se gosta

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Limpar desgasta.Resvala verdades roçadas
Pode que arrase sem questão esgote possibilidades Leve à exaustão Esvaziar problemas Espalhando iluminação Empurrando a solidão Impulsionando a dispersão Fazer versos de rima obvia Dissipa os medos Apaga as evidências Desvanece as aparências Tangencia as verdades Despeja as incertezas Expulsa o contraditório Açoita a decência
Vasculhando sinônimos de varrer para ver se entendo a lógica do varrer as circunstâncias indesejadas como quem joga a sujeira para baixo do tapete na vã esperança que ninguém saiba e nunca encontre. 
Cadáveres de antes e de agora varridos como incômodos na versão mais conveniente de uma história de horrores.

Afetos divergentes

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Eram tempos esquisitos  Ruas viraram perigo  Abraços condenados Beijos afastados Amores exilados Cada qual em sua bolha Naquele mundo  conectando  Digitalmente  Sem contatos reais Uns nem se importavam Diziam que era mentira Um grande complô de manipulação  Outros que não havia solidariedade  Enquanto debatiam nas suas redes, Georges, Migueis e Dorildes morriam Não de pandemia  Mas de ódio, omissão e covardia Esses vírus que quase nunca ganham manchete Até que alguém filma Até que alguem grite basta Até que venha um novo esquecimento  Até lá convivemos  com os nossos afetos  Cada dia mais divergentes  Amor sem a admiração Carinho sem consonância Olhares sem harmonia Caminho sem  volta? 



os dias eram iguais

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O raio de sol na parede O gato na cama O fio dental que teima em prender o dente O medo O barulho da rua que acorda  A vida vivida/vívida  O amor que não se dá  O homem negro morto por nada O homem branco que mata e daí? As almas ditas humanas calando com medo As bocas que gritam por pressão social Os pés que marcham por que não aguentam mais A menina que grita que seu pai mudou o mundo Mudou? As discórdias na parede Os ódios na cama  A indiferença que teima em prender gente O medo O barulho que incomoda  A vida vívida/mal vivida Os 70 tiros que matam famílias  As mulheres sendo mortas As almas dissonantes As bocas gritando verdades/mentiras  Os pés machucados dos que apenas andam Os filhos sem pais nem mães  Um mundo que não muda
Um gato que olha o nada Um angolano  baleado por engano "Vai sangrar até morrer" Sobrevive por sorte  No mundo onde a cor da pele define Morte/vida dos que deviam proteger
A cama vazia A nova noticia  O novo esquecimento  O sol na parede A morte A vida O vírus  O ódio
Carpe diem 


Problema de quem tira férias e tem carro

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O Leitão era gerente do BB nos anos 50 em uma cidade do interior gaúcho chamada Lajeado. Também era meu pai.

Um contador de histórias e um fazedor de ações. A foto acima é dele e seus funcionários em uma enchente na cidade. Contava que recebiam clientes que vinham de barco para dizer que não iam poder pagar. Normalmente os mais pobres que necessitavam de empréstimo. Era daqueles gerentes que conheciam as pessoas pelo olhar.

Uma das suas histórias que gosto de lembrar como lição de vida é a que contava de um começo de férias. Carro recém comprado, ele bufando para colocar no pequeno Austin as bagagens da família, já meio estressado com o tempo e o espaço.

Na sua frente passa o velho jardineiro de nome alemão que nunca consegui decorar. Soava como Seu Mithelsted ou algo do gênero. Carregava uma carroça com seus apetrechos de jardim e restos das folhagens que retirava das casas onde passava. Tinha uma penca de filhos, uma dúzia sem mentir. Se esforçava para conseguir sobreviver com sua …