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Mostrando postagens de Maio, 2019

Frutas maduras dão sucos

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Como revelar a ele sua recente fantasia? Riu sozinha no banheiro ao imaginar as risadas dos dois à revelação de que o ela queria era ficar horas debaixo de um chuveiro, recebendo a água nas costas, deixando que rolasse quente e selvagem, massageando cada pedaço de suas costelas. Sem hora para acabar. Ela e ele naqueles chuveiros conjuntos que, se com outros tinha vergonha, com ele era completamente natural ficar nua. Até de corpo. De alma tinha sempre ficado. Desde o primeiro olhar, décadas atras. Foram tantos momentos de paixão que o tempo foi ficando um detalhe. Continuavam com a mágica de continuar parecendo a primeira vez. Tinham passado por tantas coisas. Alegrias desbragadas. Orgasmos grandiosos. Risadas homéricas. O humor os unia desde sempre.
Riam deles, da vida, deixavam de transar se a piada compensasse. Sempre valia a pena. Até porque as risadas viraram olho no olho e o corpo respondia com prazer. Já maduros continuavam sentindo aquela fome. Hoje mais gourmet. Menos quantidade.…

As pontes e as versões do todo

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Pontes.

Tenho me debruçado muito sobre as pontes, seu simbolismo de união e também sobre as diferentes formas de visão que levam às mais variadas versões da vida. 

Esses dias estávamos falando sobre o passado de uma determinada pessoa muito próxima. Notei com um interesse espantado, que muitos fatos, que eu sabia terem acontecido de x forma, tinham virado y, z ou w para pessoas também muito próximas. Foi como quando eu vivia na capital federal em um tempo que a imprensa era menos livre. Acompanhava fatos por narrativas de pessoas que os viviam de fato. Para minha inteira surpresa, os jornais da época os noticiavam de forma diferente. Ou nem isso. Eram solenemente esquecidos e alijados da história, sobrando para quem os soubesse, contar de forma oral. Foi meu primeiro contato direto com a História como é contada e suas versões.

Com a vida da gente não é muito diferente. Fazemos isso muitas vezes de forma inconsciente quando relembramos fatos de nossa vida. Ou quando os narramos para outro…

Florbela Espanca e a reflexão sobre as versões

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Não me recordo quando Florbela Espanca entrou em minha vida. Tenho fases de ler poesia. São aquelas em que a minha sensibilidade anda mais a flor da pele, ou nas em que a prosa já não consegue me responder ou abrir os questionamentos necessários. 

Um almoço literário me trouxe de volta a vida e a obra de Florbela. Passei os últimos dois dias imersa em pesquisas, vendo séries, documentários, lendo seus contos e poesias. Tentando entender um pouco mais dessa mulher tão diferente das demais do início do século XX em Portugal.

Me surpreendendo com a sua precocidade ao escrever tão bem ainda garotinha. Com a sua procura por substâncias que a vida comum talvez nunca tenha conseguido lhe dar.


Uma alma atormentada. Isso me passa sempre ao ler brevemente sua biografia. Da menina criada por duas mães. Uma biológica, que teve filhos com um homem casado, ainda hoje um tabu. Outra, madrinha, a esposa do pai, que foi talvez impulsionadora de voragens literárias.

Da jovem que escrevia poesias e casou ce…

Pele de alma, um reencontro com o eu

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No meio da tarde, olhando o por de sol cada dia mais belo, que via dia após dia, de sua janela, teve a lúcida certeza: tinha enlouquecido.
A tênue linha de resiliência que a mantinha presa à realidade tinha-se rompido. Tantas vezes essa corda que imaginava como um elástico tinha ido e vindo que julgou que era eterna. Não era.
Tudo aquilo que não se cuida acaba por definhar. Se é coisa, vai se roendo, se acabando, vira ruína. Se é gente, vai se apagando como luz em fim de espetáculo, e quando se vê não dá mais para brilhar o palco.
A saída é tatear pelo escuro, ver se acha alguma área conhecida onde pousar o pé com segurança. Se bem me lembro, Clarissa Pinkola Éstes fala de um processo onde a mulher necessita de uma volta ao lar, de uma reaproximação de seu eu mais profundo. É na história da Pele de foca, pele de alma onde ela narra como se perde o contato com o seu tesouro interno, aquilo que nos torna nós e como a saúde sagrada nos grita que precisamos reencontra-lo para não morrer.
Em g…

Falando em Princesas

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Falei esses dias que não me via como uma criança fantasiada de princesa Disney emponderada. E acabei me lembrando que, apesar disso, o mito da alteza era sim bem forte em minha infância. 

Começou, talvez, com minha irmã e prima me vestindo como sua boneca viva quando eu tinha uns três anos. Com um imenso cone de cartolina de onde saía um imenso véu cor de rosa, feito do mosquiteiro do meu berço, eu me sentia como em um conto de fadas real.

Ao invés das histórias de hoje, meus dias e ouvidos, eram abastecidos pelas histórias de Andersen. A Princesa e a Ervilha um de meus prediletos. A princesa que chega a noite em um imenso castelo, encontra a Rainha Mãe que quer se certificar de que o rebento encontrará uma verdadeira Princesa de sangue azul, e esconde a maldita da ervilha embaixo de vinte colchões de pena. Até hoje eu fico a procura dos grãos, mesmo quando tudo parece acontecer às mil maravilhas. Encontro pouso seguro em um castelo de sonhos? Tem que ter alguma pegadinha! Já sei! O grã…

Dúvidas e certezas ao redor de uma pizza fria

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Gosto de pizza fria.
Isso mesmo. Não pensem mal, adoro quando ela está quentinha com o queijo molinho, derramando da boca, naquela entrega insolente e desbragada que a gente puxa, puxa, e ele vai se alongando, parecendo nunca terminar.
Mas também gosto de pegar, sorrateira, na porta da geladeira, aquela fatia já gelada. Mais que a fome gourmet, essa é o apetite dos transgressores. Aqueles que não respeitam as regras. Que não estão nem aí para os ditames da gastronomia. Ou do bom senso. Ou da etiqueta.
Não, não sou das que assaltam a geladeira na madrugada. Não tenho o pecado da gula no mais estrito sentido. O que me apetece é a desobediência.
Se posso trazer alguma desculpa para este comportamento tão longe da elegância, é que é um hábito familiar. Meu pai roubava pedaços da salada antes de servir. Meu irmão também. As mulheres da família, acho que não.
Nunca curti o roteiro feminino traçado do berço. Nunca gostei dos quartos e roupas rosas. Não aprendi a ser sedutora nem a fazer comidas mara…

Sótão das lembranças

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Dos sonhos recorrentes tenho um bem bonito que, devidamente analisado, rende boas interpretações. Um sótão das lembranças.

O roteiro é mais o menos o mesmo: estou em uma casa e ela tem um sótão onde guardei livros, memórias, caixas, tudo o mais que faça a mente divagar. A escada é reta e, o mais interessante é que, nos sonhos, eu não vou muito até lá. Saber que ele existe, por si só, me dá uma tranquilidade imensa. Como se pudesse ter meu próprio quarto secreto do tesouro.

Já passeei muito por ele e a cena é sempre igual. As casas mudam, mas as prateleiras repletas de livros com todas as informações e memórias que posso imaginar existir, sempre estão lá. Perenes. Conhecidas. Aconchegantes.

Normalmente eu não chego a ler nada porque o sonho é daqueles que quando vou chegar perto do desejado, acordo. Este também é um comportamento recorrente.

A noite passada ele se repetiu. O cenário era um apartamento de cobertura, na verdade um triplex. Nada suntuoso e nem com implicações ideológicas…