As pontes e as versões do todo

Pontes.

Tenho me debruçado muito sobre as pontes, seu simbolismo de união e também sobre as diferentes formas de visão que levam às mais variadas versões da vida. 

Esses dias estávamos falando sobre o passado de uma determinada pessoa muito próxima. Notei com um interesse espantado, que muitos fatos, que eu sabia terem acontecido de x forma, tinham virado y, z ou w para pessoas também muito próximas. Foi como quando eu vivia na capital federal em um tempo que a imprensa era menos livre. Acompanhava fatos por narrativas de pessoas que os viviam de fato. Para minha inteira surpresa, os jornais da época os noticiavam de forma diferente. Ou nem isso. Eram solenemente esquecidos e alijados da história, sobrando para quem os soubesse, contar de forma oral. Foi meu primeiro contato direto com a História como é contada e suas versões.

Com a vida da gente não é muito diferente. Fazemos isso muitas vezes de forma inconsciente quando relembramos fatos de nossa vida. Ou quando os narramos para outros. Cada vez um detalhe se perde, ou se acrescenta. As memórias vão se fundindo, tantas vezes parece ter acontecido com outra pessoa. Outras temos revelações sobre o que sentíamos, ou deveríamos ter sentido. Como se cada pedacinho de lembrança fosse uma peça de lego que pudesse ser remontada em novos objetos, uns mais elaborados, outros infinitamente mais simples.
"Para viver, temos de nos narrar; somos um produto da nossa imaginação. Nossa memória é, na verdade, um invento, uma história que reescrevemos a cada dia (o que lembro hoje da minha infância não é o que eu lembrava há vinte anos); o que significa que nossa identidade também é fictícia, já que se baseia na memória. "A ridícula ideia de nunca mais te ver" de Rosa Montero
É da mesma Rosa Montero o delicioso livro, A louca da casa, onde ela fala sobre o processo criativo ao mesmo tempo em que narra uma história sua em três versões no decorrer da obra. Eu mesma já me vi fazendo isso com as minhas. E em todas as vezes estava sendo absolutamente sincera porque se os fatos aconteceram algures, eu mudei. Nessa eu de hoje, cabem novas visões sobre a eu de outrora. Nenhuma definitiva. Todas possíveis.

E as pontes? O que tem em comum com as visões da vida? As pontes unem pedaços de caminhos. Por vezes os encurtam. Por outras os tornam mais longos, em nossa busca por mais segurança de atravessar rios bravios. As pontes ligam nossas verdades com as alheias. Pelas pontes podemos chegar a um consenso. Se não um acordo comum, pelo menos um alívio do encontro em algum lugar do caminho. O que não é pouco.

Rotas diversas, eivadas pelo abismo de rios podem, por momentos, se tocar, se trocar, se emaranhar para depois seguir cada um mais rico de novas vivências porque é da diversidade que nasce o crescimento. E a intolerância nunca erigiu monumentos que encantem e revelem a totalidade da capacidade de amar e sentir.

Ando a procura de pontes. Vocês não?

  

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