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Mostrando postagens de Fevereiro, 2022

Paz é o tempo entre duas guerras

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  Costumava ter um pesadelo recorrente. Tinha que fugir de um perigo iminente e tinha pouco tempo para decidir o que levar. Quando vejo multidões de refugiados, tendo que fugir de ataques de guerra, sempre lembro disso. O que optaram por levar? O que deixaram para trás. São mais que pertences. São vidas que se construíram, repentinamente jogadas para fora de suas casas, suas seguranças, sujeitas a sabe-se lá que atrocidades. Quem se responsabiliza por famílias destruídas, por sonhos que são abortados? Que poderes de guerra movidos por interesses geopolíticos justificam que se massacre populações que nada tem a ver com as jogadas do xadrez político mundial? A guerra é um massacre entre gente que não se conhece, para proveito de pessoas que se conhecem, mas não se massacram. Paul Valéry Não entro na historinha vendida em todos os conflitos de que há mocinhos e bandidos. A História é muito mais complexa, e suja, de que há interesses escusos e outros generosos. Há sempre interesses. E este

Mães paralelas e a distância entre nós

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Duas obras marcaram meu fim de semana calorento de fevereiro. Terminei o livro "A distância entre nós" da escritora Thrity Umrigar e vi o filme do Almodovar "Mães Paralelas". Gostei dos dois. Não os classificaria de obras primas, mas me tocaram de diferentes formas. Mas eles se tocam um aspecto bastante gritante. As mulheres.  Mulheres que vivem como dá, independente de sua situação social, onde as circunstâncias culturais as tornam iguais em muitos pontos, embora gritantemente diferente em todos os outros. E homens fracos e/ou ausentes por também circunstâncias culturais que os tornam figuras horrendamente coadjuvantes. Alguns por motivos externos, de lutas sociais. Outros por aceitarem seguir papeis que os tornam assim, violentos e abjetos. Duas mulheres nascidas em uma Índia com um sistema de castas que separa os destinos desde o berço. Não muito diferente de nossa realidade em que a origem social define papéis desde muito cedo, se sucedendo por gerações onde pou

Ancestralidades

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Uma a uma foi rasgando as folhas do caderno. Todas em branco. Um branco imaculado como a sua alma estava de ideias que abarrotassem de vida e energia vital. Deixara que se esvaziasse devagar como quem sangra em gotas. As mesmas gotas que tentava em vão sorver do cálice onde o vinho repousara momentos antes. Os dias também se iam como as folhas, as gotas, as notas da música que se lamentava nas insones madrugadas onde a vida teimava em pedir sentindo. A voz da Bethania gritava momentos que já tinham ido, tão sentidos, uma vida que fazia então sentido. Tinha saliva trocada, tinha esperança essa palavra tão gasta mas tão necessária. Ela não mais. Tentava se gritar que alguma coisa tinha escolhido naquele turbilhão tão opaco onde seus passos a tinham colocado. Sabia cada escolha, necessária ou negada. Sabia cada voragem perdida e cada misera covardia. Um miado pungente lhe lembrava que a vida lhe pedia atenção. Puta que pariu, tudo o que não queria no momento era justamente dar mais atençã

Acaso sou mais ou menos confiável que minha avó?

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    “ Já não se pode confiar nas pessoas, hoje, como se confiava antes. “ Seus grandes olhos negros se fixaram na frase que estampava a manchete de uma revista semanal. Não se aprofundou na reportagem, era algo sobre as mudanças de gerações, um tal de fio de bigode que não carecia de documentos para fixar um compromisso. Não se importava com isso. O mundo era o que era e devia ser vivido com sofreguidão, misto de desespero e sobrevivência. Por desespero leia-se o tentar ser um pouco feliz no rodopio de cada dia. A sobrevivência é auto explicativa. Correu para pegar o carro do aplicativo, enquanto seus saltos faziam um barulho irritante nos paralelepípedos do centro histórico da capital. Alguém não devia gostar de saltos finos em tempos passados. Talvez nem existissem. Talvez mulheres não corressem como agora, naqueles tempos em que as pessoas eram mais confiáveis. Seriam? Não pode deixar de pensar que pessoas são humanas, portanto cheias de significâncias. E insignificâncias. Seri