Ancestralidades

Corpo La Loba


Uma a uma foi rasgando as folhas do caderno. Todas em branco. Um branco imaculado como a sua alma estava de ideias que abarrotassem de vida e energia vital. Deixara que se esvaziasse devagar como quem sangra em gotas. As mesmas gotas que tentava em vão sorver do cálice onde o vinho repousara momentos antes.

Os dias também se iam como as folhas, as gotas, as notas da música que se lamentava nas insones madrugadas onde a vida teimava em pedir sentindo. A voz da Bethania gritava momentos que já tinham ido, tão sentidos, uma vida que fazia então sentido. Tinha saliva trocada, tinha esperança essa palavra tão gasta mas tão necessária. Ela não mais.

Tentava se gritar que alguma coisa tinha escolhido naquele turbilhão tão opaco onde seus passos a tinham colocado. Sabia cada escolha, necessária ou negada. Sabia cada voragem perdida e cada misera covardia. Um miado pungente lhe lembrava que a vida lhe pedia atenção. Puta que pariu, tudo o que não queria no momento era justamente dar mais atenção aos outros. Era nela que queria focar. Era dela a falta. Eram dela os gritos trancados e sufocados. Era nela que a água tinha que ser dada em forma de atenção. Talvez antes dela, tantas mulheres que tinham passado e a tinham sementeado, tivessem passado pelos momentos de gritos trancados, sina de mulher em todas as eras.

 * tenho conversado com meus ancestrais
preciso que eles caminhem comigo
tornar-me muitos
sentir seus braços sobre meus ombros
a proteger-me, respaldar-me
tenho sentido medo do que eles possam me interpelar

eles sussurram em meu ouvido:
“você ainda se lembra de quem é
debaixo destes eufemismos?”

Lembrava de quem era? Debaixo de todos os anos e décadas perdidas e vividas, ainda lhe sobrava um pouco da menina de olhos grandes e alma assustada que teimava em olhar a Lua com ânsia de resposta? Quem sabe dentro dela ainda repousava a jovem questionadora que julgava ter as certezas de vida e respostas? Talvez por isso se apegasse ao estudo das mulheres que lhe tinham precedido. Talvez saber um pouco delas lhe desse a certeza de um encadeamento de angústias e sutilezas que lhe trouxesse, se não alegrias, um pouco de paz.

constrangida ante o brilho negro de suas existências
constato que esqueci quem sou, de onde vim
logo, não sei para onde ir, o que fazer comigo
vago pelas ruas, com as retinas cansadas
o corpo não está morto, mas tudo o que o faz ser quem é
está
ou quase tudo

Nem tudo incerteza, é certo. A maturidade tem dessas loucuras de se estar no meio da merda e se manter serena. Talvez porque a gente saiba que merdas vem e vão. E a gente permanece. Nem tudo deve ser trocado. Quase nada deve ser alardeado como se a nossa alma fosse exposição pública. Teve que rir. Antes das redes sociais, ela já expunha seu eu de forma escandalosa. Seus grandes olhos, sua face limpa de subterfúgios, sua verdade assustadora jogada na cara de quem quer que fosse, tudo isso era luz em sua vida. Ela pura harmonia, era desde sempre uma casa desarrumada tentando manter as aparências.
  
então sinto eles soprarem o meu nome
não o que me colocaram, mas aquele
secreto e impronunciável
dentro de mim, algo responde
preciso descobrir o caminho de volta para casa

A casa de onde nunca partiu sempre esteve dentro dela. Mesmo quando sua boca emudeceu de espanto e seu corpo se cansou das derrotas dos sonhos esmigalhados, sua alma peregrina permanecia isenta de males. Era no seu corpo que a vida se fazia sempre inteira. E independente dela.
 
casa-corpo, corpo-território
procuro vestígios das suas existências
encontro vestígios das suas existências em mim

encontro pertencimento.

A lua peregrina iluminava sua vida. O copo vazio ficava na lembrança. As páginas rasgadas no chão. O corpo, este sim, permanecia insurgente lembrando que vinha de uma linhagem de mulheres sobreviventes. Nem sempre felizes. Nem sempre harmônicas. Mas todas elos de uma corrente que se fortalece a cada sorriso interno. Nem só de lágrimas vivem as mulheres. Em cada uma a rebeldia irreverente de vida e orgasmos que explodem em apoteóticas paragens.

* ANCESTRALIZAR-SE IOLLY AIERS @dissolvendoempoesia (La Loba Magazine #9 Volume I) Obrigada pela inspiração

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