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Mostrando postagens de março, 2022

A moça da limpeza de Lindevania Martins

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  Entrei no edifício onde faço pilates meio apressada, meio ofegante com o dia que se fazia quente no início do outono. Ouvi uma senhora entrando um pouco atrás e obviamente segurei a porta do elevador. A moça da portaria, imediatamente levantou de sua cadeira e veio segura-la, como sempre faz quando eu chego. Não raras vezes abre a porta para que eu entre, naquela gentileza de prédios comerciais. Agradeço e a senhora que entrava veio se juntar e subimos. Ela para em andar baixo, me olha através da máscara e me diz em voz ressentida e sibilante: " Ela abriu a porta para ti. Para mim  nunca o faz. Deve ser porque sou pobre. E tu deve ser rica. " E saiu, me deixando muito pensativa. Nada nela indicava uma pessoa em andrajos. Nada em mim indicava uma pessoa finamente arrumada. Mas havia uma diferença social que nela se traduzia por um tratamento desigual, menos respeitoso, menos educado, quase como se fosse transparente. Ou menos. Um zero a esquerda que não merece uma deferência

Chuvas suaves já chegaram

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Chove miúdo.  Da janela vejo os escombros  onde antes havia um prédio. Incendiado, foi implodido. Apenas uma parede ficou de pé. Sobreviveu aos impactos dos explosivos e aos três sucessivos temporais que castigaram a cidade naquele mesmo dia. Me lembrou o conto de Ray Bradbury, em Crônicas Marcianas. Após um ataque nuclear, restaram em uma casa, sombras dos seus habitantes e bichos de estimação, robôs que faziam e desfaziam tarefas para pessoas que já não existiam. E uma única parede.  Chove mais grosso. Me lembra minha mãe que se debate entre a vontade de viver e o cansaço de um corpo de mais de nove décadas. Cada dia é um desafio. E uma conquista. A chuva me lembra um de seus livros favoritos. Confesso que vivi de Pablo Neruda. Ele contava da infância vivida em Temuco. Uma cidade de mineradores no Chile. Chovia 365 dias do ano por lá. Acho que era tudo isso. Pelo menos me pareceu. Uma cidade cinza, molhada, triste. Onde a única salvação era escrever poesias. Ou morrer.  Talvez a poes

Follaria contigo enquanto as bombas caíssem

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Gosto da língua espanhola.  Também já gostei de quem falava espanhol.   Talvez venha daí uma certa afinidade pelo sotaque. Gosto particularmente do falar madrilenho. Também do catalão. Lembro do som ritmado onde até as palavras de baixo calão são ditas de maneira quase terna. Enfogueirada. Mas divertida. Nem sempre o espanhol foi local só de paixão. Quando o ovo da serpente pariu sua gosma de poder, o solo espanhol se tingiu de sangue, Talvez por isso mesmo, os ardores se tornassem tão mais prementes. Um pouco como agora.  Nunca antes se sentiu o bafo de uma destruição nuclear como agora. Na década de 60, talvez. Mas lá não existiam redes sociais e poucas pessoas surtaram até que se resolvesse como deu. Hoje a angústia é compartilhada em tempo real.  Uma amiga pergunta o que faríamos antes do mundo (como o conhecemos) acabar. Se acabar. Se é que já não acabou. Vi uma frase que resume o que gostaria de fazer. É do instagram de Ernest Costafreda : Follar é uma palavra bonita do espanhol.