A moça da limpeza de Lindevania Martins

 Entrei no edifício onde faço pilates meio apressada, meio ofegante com o dia que se fazia quente no início do outono. Ouvi uma senhora entrando um pouco atrás e obviamente segurei a porta do elevador. A moça da portaria, imediatamente levantou de sua cadeira e veio segura-la, como sempre faz quando eu chego. Não raras vezes abre a porta para que eu entre, naquela gentileza de prédios comerciais. Agradeço e a senhora que entrava veio se juntar e subimos. Ela para em andar baixo, me olha através da máscara e me diz em voz ressentida e sibilante: "Ela abriu a porta para ti. Para mim  nunca o faz. Deve ser porque sou pobre. E tu deve ser rica." E saiu, me deixando muito pensativa. Nada nela indicava uma pessoa em andrajos. Nada em mim indicava uma pessoa finamente arrumada. Mas havia uma diferença social que nela se traduzia por um tratamento desigual, menos respeitoso, menos educado, quase como se fosse transparente. Ou menos. Um zero a esquerda que não merece uma deferência por parte de um outro trabalhador.

Porque lembrei disso? Porque acabo de ler a Moça da Limpeza, último e premiado livro de Lindevania Martins, escritora maranhense, amiga de oficinas e almoços, mulher que admiro e cujos livros são sempre uma facada certeira nesse mundo tão cruel e desigual em que vivemos. Sempre dito de maneira tão certeira, quase doce, como se os tiros e dores se vestissem de ritmo e cores para que não os deixemos de ver. Lindevania não nos deixa ser indiferentes. Não nos deixa ficar sentados na cômoda cadeira enquanto os dramas passam sem que deles nos demos conta

Livro de Lindevania Martins

Instruções para a Jovem Arqueóloga

ouvidos e olhos atentos
escavar além do chão
explorar o subterrâneo e o sótão
o fosso da memória é profundo
os ossos ainda se decompõem
na fria escuridão dos armários
enquanto as gavetas da história oficial
acumulam arquivos corrompidos
o mal que sai da boca do homem
não se equipara àquele que sai
das trombetas do estado
na disputa sobre qual voz
será a mais aguda
para contar nossa história
só quem não olhar para trás
se tornará
estátua de sal

(fonte)

Busco uma poesia de Lindevania para falar dessa voz aguda que grita de seus contos, em um refinamento literário cada dia mais apurado. Seus escritos falam de uma realidade dura, dramas que existem mesmo que não os queiramos ver. Em suas histórias não existem verdades definidas ou pregações. Ela mostra. E mostrando escancara em nós, seus leitores, os sentimentos que nos mexem por dentro. 

Em A moça da Limpeza, Lindevania brinca com essa dura realidade em que o certo e errado convivem com as paixões e misérias, usando de recursos literários que subvertem o realismo. Paradoxalmente essa realidade inventada nos parece até mais crível que a que vivemos, essa sim dura e absurdamente cruel. Tão inimaginável em termos de humanidade que parece sim pertencer às irrealidades da literatura.

Infelizmente não. 

As moças da limpeza não transcendem seu papel e as pessoas ignoradas continuam assim, mesmo que gritem suas inconformidades, mesmo as pequenas, nessa sociedade tão desumana onde vivemos.

A moça da limpeza: Um livro necessário dessa escritora cada dia mais brilhante. 

        

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