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Mostrando postagens com o rótulo contos

Moradas de todos nós II

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  A varanda de Betania Seu refúgio, a varanda ensolarada e cheia de plantas de Betania tornavam seu mundo mais ameno na capital. Recém-chegada do interior, trabalhava em um grande hospital como enfermeira. Suas noites em claro se traduziam em grandes olheiras e hematomas de batidas. Às vezes ao caminhar, algumas ao dirigir. Precisava do trabalho noturno para garantir a educação do pequeno Rafael, seu filho de dez anos, que morava com seus pais. Viúva aos 20 anos, teve que abandonar planos e sonhos e optar por uma profissão que lhe desse sustento. Foi vendedora, diarista e motorista enquanto fazia faculdade de enfermagem. Formada, conseguira o emprego naquele grande hospital da capital. Apartamento alugado, o único luxo era uma área de sacada que encheu de verdes e flores. Era um pedaço da natureza tão amada que trazia para o cinza da cidade. Era ali que sonhava, enquanto aguava suas plantas e ouvia suas canções. Ali os pássaros vinham cantar em profusão nas manhãs de suas chegada...

Moradas de todos nós

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  A casa de Maria Acordou amarguras e olhou com desdém para sua cama desarrumada. Não iria alisá-la, não iria organizar nada. No máximo um lençol jogado ao lado e seguiria a vida. Seus sapatos reunidos em um encontro maluco, se olhavam, par de um com o par de outro. Os livros se empilhavam poeirentos como as mágoas que guardava na alma. Todo dia, em algum momento, pensava distraída que precisava arrumar um pouco porque perdia coisas. Aquela blusa que gostava e a tornava mais radiante. Aquela bolsa que tanto lhe trazia felicidade ao lembrar do momento em que a ganhou. Os escritos, os poemas, as anotações feitas em papéis jogados ao vento, repousavam em algum canto deserto e escondido. Maria olhou sua casa com conforto e tristeza. Era uma cópia dela mesma. Jogada para depois. Um dia, quem sabe. Hoje a correria do fazer e sobreviver chamava mais alto. Pegou a máscara do faz de conta e desceu com a cara de dia bom que sabia tão bem desenhar em seu rosto. A mesa do Joaquim Há dias...

Em outros carnavais quando a vida era mais solta

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Diálogo entre Antônia e sua cuidadora, em um quarto de uma clínica de repouso. Antônia tem 95 anos e sua cuidadora, Dora, vinte. - Seus remédio, Antônia. A pílula rosa é para a pressão, a branca para o colesterol, a amarela para a ansiedade, a rosa para afinar o sangue, a comprida para a memória. - Memória? Brincas comigo. Fora! Memória é bom para gente jovem como tu, que tem futuro pela frente, que precisa lembrar de quase tudo o que fez. Para repetir ou se arrepender. Quando se está velha como eu,  melhor nem lembrar que dia é hoje e quanto tempo falta para morrer.  -Deixa de bobagem! Falando nisso, sabes que dia é hoje? 20 de fevereiro de 2050. Domingo. Na tua época era carnaval, Antônia! Vai dizer que tu não gostava de comemorar a folia? Ouvi dizer que eram grandes festas populares no século passado. Minha mãe disse que se lembra ainda de bailes infantis onde ia fantasiada de uma coisa chamada de mulher maravilha. Devia ser algum avatar da época. Ela falou daque...

Reversos sentimentos

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As redes sociais tecem caminhos de encontros e descobertas tão ricos! Através de uma delas travei conhecimento com uma mulher admirável que reside tão longe da minha Porto Alegre. Pedi uma cópia de sua dissertação de mestrado. Ela gentilmente me enviou e começamos a trocar impressões. Eu me encantando com as paisagens que ela postava, ela curtindo com tanta generosidade as que eu compartilhava. Me compartilhou seus escritos, muitos frutos de desafios literários em sua região. Descobri uma escritora fascinante, com uma musicalidade criativa e bonita que me fazia enxergar sua terra e sua gente. Ela lançou aqueles contos em um livro e me convidou para escrever o posfácio, também uma experiência inédita para mim. Reversos Sentimentos é o livro de estreia de Romanilta Rocha , escritora e professora piauiense. Editado pela Life Editora com orelha de Francisco Miguel de Moura e prefácio de Jailson Klein.  Foi muito gratificante participar um pouco da história deste livro, ver a sua gesta...

A moça da limpeza de Lindevania Martins

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  Entrei no edifício onde faço pilates meio apressada, meio ofegante com o dia que se fazia quente no início do outono. Ouvi uma senhora entrando um pouco atrás e obviamente segurei a porta do elevador. A moça da portaria, imediatamente levantou de sua cadeira e veio segura-la, como sempre faz quando eu chego. Não raras vezes abre a porta para que eu entre, naquela gentileza de prédios comerciais. Agradeço e a senhora que entrava veio se juntar e subimos. Ela para em andar baixo, me olha através da máscara e me diz em voz ressentida e sibilante: " Ela abriu a porta para ti. Para mim  nunca o faz. Deve ser porque sou pobre. E tu deve ser rica. " E saiu, me deixando muito pensativa. Nada nela indicava uma pessoa em andrajos. Nada em mim indicava uma pessoa finamente arrumada. Mas havia uma diferença social que nela se traduzia por um tratamento desigual, menos respeitoso, menos educado, quase como se fosse transparente. Ou menos. Um zero a esquerda que não merece uma deferência...

Como era gostoso o meu francês

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Como era gostoso o meu francês, pensou enquanto examinava a taça para perceber a limpidez do vinho branco. Gostava mais dos tintos encorpados, é verdade. Mas aquela noite merecia uma exceção.  Tudo tinha começado há exatos dez meses. Marcara bem aquele dia que seria tão determinante em sua vida. Diziam que momentos marcantes são assim. A gente lembra em detalhes. Tocava Nando Reis na rádio, chovia miúdo e era um dia cheio de noticias sobre a politica. Foi quando veio o telefonema da detetive Andreia. Vira o telefone no poste do supermercado e num impulso ligara, umas semanas antes. Falar da traição, sinais, dúvidas, expor a personalidade do companheiro que trazia tanto amor, mas pecava em algumas faltas, eram pensamentos constantes em seus momentos com as amigas. Nem quis ver as fotos que a detetive jurava serem dele. Falou do carro entrando no motel, encheu de estatísticas de homens como ele traindo e eis que tomou a decisão: ele nunca mais! As amigas apoiaram com deci...

CRÔNICA DE UM AMOR AUSENTE

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POA/ 31 de maio de 2020. Tarde chuvosa e sonolenta. Se do meu corpo teima sair saudade Que há de fazer o coração ? A carne treme, sente, chama Não há espaços para dúvidas nem incertezas O lugar é. Existe em sua plenitude/toma conta Imenso se agiganta e se alicerça Em tudo é pleno. Ausência sentida como um soco Vida arrancada do peito. Morte é a ausência de. Mesmo que vivo Alcance é impossível.  Será? Escolha é factível,  Independe da vontade. Existência emerge soberana Tempo talvez seja sábio. Que importa? Importa o agora, o chamado mudo. Importa a falta/ o ar que se torna denso Importa sim a sozinhez de quem se sentia com. Treme/ sente/ quente. Amor que se faz ausente. Amor que se faz carente. Amor que tanto se sente. POA, 01 de junho de 2020  Manhã fria, após uma prova de online de Tópicos especiais de Filosofia da Educação. Pouco importa a razão. Pouco importa a solidão. Pouco importa os motivos da separação. A energia se impõe. ...

Amando na nuvem

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Girou o cálice de vinho nas mãos, pensando que, puta merda, acabou sozinha justo quando irrompeu a maior pandemia do século, quiçá do milênio. Trinta anos de casamento, outros tantos de namoro. Filhos criados, netos nos fins de semana e inventaram de mudar de rumos. Os dois.  Não era ruim. Mas também não era mais maravilhoso. Enfim, estava feito. Era fácil disseram as amigas já separadas. Sair na balada, olhar para os lados na academia. Tinha uma que tinha achado o namorado em uma corrida no parque.  Mas sem poder sair de casa. As redes sociais ainda em comum com o falecido. Restava então apelar para os tais aplicativos. Outra amiga, a mais jovem e descolada, sussurrou que funcionava sim.  Pronto. Instalado no smartphone que era tão esperto que até para achar um benzinho servia. Benzinho...era assim que se falava nos anos 70, tão luz negra, tão Bee Gees, tão musica lenta ou discoteca. Agora era ficante, segundo a filha, que falara piscando o olh...

O dia que a igreja pegou fogo

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Enquanto olhava as labaredas que destruíam a matriz onde há uma semana se casara, Rafael lembrou de dois fatos. Uma que o cônego era uma figura esquisita. Embora bastante atuante na cidade em questões beneméritas, algo em seus olhos miúdos, vistos através de óculos de grandes lentes, brilhava com uma cupidez que não ficava bem em sacerdotes. Parecia muito mais interessado nas questões monetárias que nas de salvar almas. Poderia ser apenas uma impressão, Rafael não saberia dizer. Mas confiava em seus instintos.  Era um dia escaldante de verão na pequena cidade do interior gaúcho. Mal começava a cair a noite, todos se preparavam para mais um casamento na antiga Matriz. Bem verdade que alguns cupins se notavam aqui e ali, mas seus corredores ainda guardavam a velha imponência de antigos tempos. As velas ornamentavam o altar que era ricamente adornado com objetos de puro ouro. A riqueza das peças contrastava com a premente necessidade de reforma do madeirame e do prédio....

Brincando com o corretor automático

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Havendo uma vida chegando na casa da cunhada que não vai ser realmente uma boa companhia de sua vida. Começou a brincar com o teclado de preenchimento automático para ver se a frase formada faria mais sentido que a inércia que tomava conta de seus neurônios.  Quanto mais lia, mais nada parecia fazer sentido. Eram teorias que brincavam com seu espírito mais importante que não tem que ser bem interessante. Lá ia ela de novo, talvez palavras alheias fizessem algum sentido naquela coisa que o cérebro da gente teima em fazer quando não vê coesão em algo. Pareidolia ou algo semelhante que leva a tentar achar significado em algo aleatório. Era um fim de semana tão bom. Fazia tempos que não sentia tanta leveza de ser. Não saberia dizer se foi o dia lindo e a impossibilidade de usufrui-lo, se foi a leitura do livro que deveria ser um potenciador de tesão, presente com intensas intenções do namorado da vez. Sabia que uma nuvem densa tinha se abatido sobre ela. Talvez até o vinho ...

O baú de Mnemosine e a caixa de Lete

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Engoliu a água com sabor. Sentiu cada gole descendo por sua garganta enquanto o mantra tibetano se fazia ouvir na sala. Haveria de reverter essa nuvem que se formava sobre ela. Sua cabeça, sua memória, sua capacidade de articular raciocínios.  _ Minezinha! - escutou a voz de sua irmã gêmea gritando da sala ao lado. Tinham nascido há exatos 60 anos e nunca mais se desgrudaram. Por obvio que passaram momentos deliciosos com outras pessoas, mas viver de verdade, era uma com a outra. - Fala Letinha! - a voz melodiosa continuava com o timbre de adolescente. Já sabia que sua irmã lhe ia narrar algo maravilhoso que acabara de ouvir/ler/conceber. Dona de uma memória prodigiosa, quase fotográfica, era uma ironia do destino. Seu pai, professor de história, amante da mitologia grega, conhecedor de cada história e cada pedaço da Hélade tinha o nome prosaico de Sebastião. Talvez pela inconformidade com o seu, batizou as pequenas de Mnemosine e Lethe. Cada uma com sua sina, não pensou mu...