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Atalhos

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Seguia pela estrada com um rumo que era mais guiado pela bússola interna do que pelos mapas ou modernos gps. Nestes últimos confiava pouco. Já a tinham metido em algumas enrascadas. Modernidades, sorria consigo mesma como se fosse saudosista. Longe disso. Era das que adoravam tecnologias e as experimentava desde cedo. Mas nunca em total profundidade. Eram como na sua vida, experimentações e não abismos. Sabia que, se focasse em algo, até poderia dominar com maestria. Mas como aquela velha decisão infantil, pensava, para quê? Para que seguia pela estrada com rumo guiado pela bússola interna? Porque sua essência pedia um algo que ela ainda não decifrava com profundidade. E clareza. Apenas seguia. De quando em vez tomava um fôlego. Um gole d'água. Um refresco. Uma alegria aqui. Uma lágrima acolá. Um cansaço frequente. E a eterna melancolia que sempre era sua companheira de vida. Tinha saudades. Saudava um tempo passado. Saudava ausências e temores. Saudava possibilidades e realidades ...

Os Velhos - romance sobre as metamorfoses da vida

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  Acompanhar as histórias de dois irmãos, Pedro e Maria, já na casa dos 80 anos, com suas vivências, dores e descobertas foi o meu programa desse fim de semana. Uma viagem proporcionada pelos protagonistas do primeiro romance de Adeli Sell, amigo e companheiro na construção de livros e de propostas para um envelhecimento com propósito, desenvolvidas no Coletivo Metamorfose da Vida e no Movimento Sociedade sem Idadismo. Tive o privilégio de ler os passos iniciais dessa ideia. Ao ler a obra concluída pude perceber como o Adeli conseguiu mostrar os debates e vivências que temos aprendido com pessoas, relatos sobre a solidão do envelhecer, agravadas pelas ausências muitas vezes dos (e de) filhos. A preocupação sobre quem vai cuidar de quem envelhece. Também como o sopro da convivência intergeracional pode ser saudável para todas as idades. Tudo isso ao mesmo tempo em que se viaja por cidades e espaços reais através da visão dos personagens. Uma prosa leve e precisa que flui com natura...

Sonhos e realidades

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Sonhei esta noite que tinha excedido o tempo de tela e tinha que deixar o celular de escanteio por um número x de horas. Que eram muitos. No sonho não explicava quem tinha instituido as regras e nem o porque eu devia obedecer. Coisas de sonho. Mas senti que foi bem bom. Fiz um monte coisas e me senti muito feliz. E mais leve.  E quando acordei, e lógico que a primeira coisa que fiz foi estender a mão e trazer o aparelho de volta à vida, gesto tão corriqueiro como bocejar, senti uma estranheza. Como assim? Porque não continuava sem me conectar?  Vivi tanto anos apenas levantando, me lavando, tomando café, escutando rádio para saber as notícias e lendo o jornal. Aquele impresso que trazia notícias de ontem e era mais que bem. Hoje nem o digital já leio porque as notícias já são velhas. Tudo envelhece muito rápido. Menos quem tem uma poupança mais abonada que permita driblar o tempo. Mas só na aparência. Porque é quase impossível seguir a velocidade do mundo. Mesmo para as pessoa...

Entre o cuidado e o excesso

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Eu costumava dizer brincando que devia existir um manual para fazer mães obedecerem às filhas. E vejo que é um sentimento bem comum aos filhos e filhas que cuidam de seus pais. Ou que se preocupam com eles quando ficam mais velhos.  Fico imaginando aqui um diálogo imaginário entre mãe e filha. O cenário: mãe já com mais de oitenta anos, fazendo birra porque não quer tomar os seus remédios. A filha com cinquenta, atarefada entre o trabalho, o marido e os filhos tentando que ela siga as orientações médicas.   A mãe fazendo uma careta quando a filha estende os comprimidos: Não vou tomar isso agora. Diz a mãe com ar de fim de papo. -Vai, mãe. -Depois. Ela olhando a filha com aquele olhar matreiro de sempre. -Depois quando, mãe? A mãe cruza os braços. E a filha reconhece o gesto na mesma hora. Afinal, tinha passado boa parte da adolescência fazendo exatamente isso. -Estou pensando no teu bem, diz a filha já com aquela voz condescendende. A mãe sorri de lado. E dispara: -E...

Pequenas concessões

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Uma história nem tão ficcional porque bem comum de acontecer... Marina olhou seu reflexo cansado no espelho e tentou entender em que momento havia chegado ali. A mulher que a encarava parecia uma versão desbotada daquela profissional admirada de poucos anos antes. Os cabelos já não recebiam o mesmo cuidado. As roupas eram escolhidas mais pela praticidade do que pelo prazer. A autoestima parecia ter se recolhido para algum canto da casa, junto das coisas que deixamos para depois. Mas nem sempre fora assim. Durante décadas tinha construído uma carreira sólida, um casamento feliz com o primeiro namorado e uma família que lhe dava orgulho. Os três filhos já seguiam seus próprios caminhos. Os netos começavam a ocupar o lugar das antigas preocupações maternas. Então a vida mudou de direção. O marido adoeceu. A doença foi rápida, mas o sofrimento parecia que nunca ia acabar. Foram meses de hospitais, consultas e noites mal dormidas que consumiram uma energia que Marina jamais recuperou comple...

Vivendo sem necessariamente amadurecer

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Quando vejo a tela em branco, cheia de possibilidades, penso que talvez as palavras já tenham se secado dentro de mim. Como se a necessidade de cuspir para fora o tanto de emoção que me amontoava por dentro, tivesse sido saciada por uma indiferença de costume. Me acostumei a compreender. Não a compreensão do raciocinio, mas a da lerdeza. A luta entre a chama que gritava rubra de indignação, se transformando em uma malemolente preguiça de unir dois mais dois, sabendo que se der quatro trudo bem. Se der cinco também.  Seria isso sinônimo da tal maturidade? A aceitação cinzenta e melancolica da harmonia que exige um preço de falta de rebeldia nas ações e pensamentos?  Não creio.  Amadurecer tem menos a ver com esmaecer do que se imagina. Frutos maduros são mais saborosos, não menos. Obras maduras são mais completas e menos descartáveis. O maduro é visceral no sentido de vivencia e resultados. Não se amadurece sem custos. Ás vezes é a ingenuidade que dá lugar ao olhar mais ar...

Essa tal de acessibilidade digital

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O mundo mudou tanto de décadas para cá. Lembro do tempo dos amansa-burros e das enciclopédias que traziam respostas em que a ligeireza ainda não tinha nos tomado de assalto. Os mais velhos guardavam um mundo de experiências e sabedorias que os mais jovens tinham vontade de um dia experenciar também. A vida corria mais solta e com tempos mais definidos.  Hoje tudo parece mais embaralhado e muitas pessoas olham os jovens com sabedorias que elas já não alcançam. Não talvez com a mesma rapidez.  Fala-se hoje em acessibilidade para vários tipos de deficiências. Mas e a tal de acessibilidade digital? Como tratar de fazer as telas falarem linguagens que todos entendam em tempos em que não dominar estas tecnologias nos tornam analfabetos? Ou dependentes de um amparo que nem sempre temos por perto?  Convivo com a internet desde o final dos anos 90 quando fazia o mestrado e a rede era quase que só usada nos centros de pesquisa. A informática, o uso de computadores, a comunicação di...