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Maritacas namoram na minha janela

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  Mais uma vez segunda feira e acordo com nuvens negras e muito barulho da natureza trovejando. Em meio ao prenuncio de tempestades, também ouço o som estridente de um bando de aves que voam em bando nesta época do ano. Especialmente quando chove, elas saem de antena em antena, de galho em galho, alegremente bradando a força de sua natureza. Sempre as chamei de caturritas porque são verdes. Mas, como tudo na vida, também a natureza não é feita de generalizações e sim de especificidades. Não sou expert em aves, apenas adoro vê-las e fotografa-las. Pelas minhas andanças no google, as mais parecidas com o bando que me acorda faceiro são as chamadas maritacas. Nunca tinha ouvido falar nesse nome. Mas pelo que li são aves gregárias e que gritam muito ao voar. As vejo de minha janela. Anos após ano. Voam faceiras, fazem malabarismos. E namoram. Existe algo mais renovador que namorar? Não falo apenas de transar, embora seja muito bom. Falo do floreio, da conquista, do olhar brilhando porque h

É preciso que alguém se importe

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  Enquanto tu caminhas pelas ruas. Te pergunto: E a entranha? De ti mesma, de um poder que te foi dado Alguma coisa mais clara se fez? Ou porque tudo se perdeu É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma, Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga, Tua aventura de ser, tão esquecida? Por que não tentas esse poço de dentro O incomensurável, um passeio veemente pela vida? hilda hilst   Importa que estejamos atentos                                         -todos Lobos famintos rodeiam a matilha Ovelhas desgarradas correm sem meta Pastores, cajados e luas guiam sem bastião                                                     -Ventanias Importa que pensemos em todos em ninguém em nada em tudo Todos na roda da divina indiferença                                      -acordando Importa que mandemos vir Forças, heroínas e poesia Hordas de anjos lúcidos e loucos Nossos corpos em júbilos  rodopiando verdades Importa que pensemos no custo Mais que ouro,              -vidas Mortes em vão Caídas e l

Relógio das quimeras

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  "Lembra-te do anônimo da Terra Que meditando a sós com seus botões Gravou no relógio das quimeras: “É mais tarde do que supões” Cantares de perda e predileção (1983) - Hilda Hilst Leio bastante.  Não o suficiente, é verdade.  Mas mais que antes.  O antes do tempo não focado. O antes da mente embotada O antes do medo permanente Se faço um breve passeio no ontem Vejo folhas caídas, amassadas, largadas Vejo folhas jogadas e perdidas Se revisito o hoje e -se o faço, é porque sou eterna viajante mesmo no instante que escrevo Percebo folhas arrumadas Inquietas, é verdade Naquelas arrumações esquisitas Bagunçadas até Mas mesmo assim mais arranjadas Me observo sentada, meus dedos mais ágeis uma breve luz chega de lado Um relógio imaginário com ponteiros enfeitados teima em girar adoidado Ora devagar Ora apressado Nesse rodopio de taques e tiques eu bailarina Júbilo, memórias e mais Hildas Poetam-me na vã tentativa de afogar receios de fomentar coragens de apressar destinos É tarde, grit

Diário de uma (quase) surtada

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Querido diário, digo blog Sim, sou dessas, ainda escrevo em blog. Exatamente como fazia lá no início do século. E antes disso em cadernos, folhas soltas ou qualquer meio que registrasse sentimentos, angústias ou descobertas. Alegrias as vivo no mundo real. Dificilmente escrevo sobre elas. Tipo as novelas: ninguém se presta a ver gente feliz. Queremos ver drama, lágrimas, conflitos. Quando tudo se resolve, vem um enorme FIM e passamos para outra sofrência. Pois bem, um ano e alguns meses de semi isolamento social só acirraram minhas fobias de gente. O mundo lá fora parece cada dia menos convidativo. Não fosse pelo sol, acho que ficaria eternamente na minha biblioteca de babel, lendo livros, vendo séries e documentários. E atualmente ouvindo podcasts. Sério, me rendi. Vídeos sejam no youtube ou vimeo, ou pior ainda no tiktok não me atraem muito. Mas os podcasts são bem mais práticos porque posso fazer outras coisas ao mesmo tempo. Sou multitarefas. Fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo

Sobreviventes no deserto

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"Apenas tribos unidas por um sentimento de grupo conseguem sobreviver no deserto." Ibn Khaldun  Cinzentamente o domingo se espalha preguiçoso, antevendo tempos ainda mais gélidos que os que passamos. Sim, vivemos em um deserto. Embora urbanos e repletos de prédios, cheios de pessoas, inundados de universos, curiosamente estamos cada vez mais sós. Nossas fortalezas, pequenas ou grandes, abrigam nossos pares, mas não o etos público. Li esses dias uma reflexão sobre empatia e no como é necessário pensar além fronteiras individuals e familiares. Estranhei isso não ser pensamento comum, ensinamento que aprendi desde pequena. Meu lugar no mundo e, consequentemente, minha responsabilidade sobre o outro. Ainda mais curioso que ande na contra maré da conscientização corrente. Preciso ser mais egoísta, mais individualista, mais pensante em mim e menos no outro. Os outros para quem priorizo meu foco de sentimento de existência no mundo.  Vários testes já me deram semelhança com Madre Te

Eu e meus breus

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Nasci perplexidade Cresci curiosidade, busca de sentido dos meus breus conheço o abismo dos picos a luz me guia sobrevivo generosa Bethaniamente sentimento aflorante/ perseguinte/ emergente Nasci em um abril de um ano da década de cinquenta. Em um quarto de hospital de uma cidade do interior do meu estado. A parteira, meio doula, me amparou junto à minha mãe e meu pai, em um ambiente meio breu, com música. Assim emergi ao mundo. Os breus vieram junto de herança. Carências ancestrais que trago coladas nas células e memórias de gente que não conheci. Fruto de mulheres que sofreram e amaram, perfumes de vidas que se fizeram entre dores e amores. Clichês e sonhos. Breus. Cresci entre medos internos e impulsos de saídas. Luz e escuro. Sol e lua me contornam desde sempre. Meus grandes olhos pretos curiosos, observantes. Meus brinquedos, os teatros de enredos criados na minha cabeça. Meus silêncios, o enigma de quem me via e não me reconhecia. Nem eu o fazia. Amadureci entre sorrisos e lágrim

O vinho e o nada

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O vinho girava lentamente na taça deixando lágrimas que se pareciam as que ela mesma vertia. Já tinha cheirado e não sentia aromas de café ou frutas vermelhas. Nem mesmo amadeirados. Mas o gosto da bochechada ia e vinha como marés de lua cheia. Enchia sua boca de gostos, pareciam todas as misturas de bebidas boas que já tomara na vida.  Mentira. Parecia mesmo com aquele gosto de primeiro beijo daquele namorado que nem lembra direito o rosto porque efêmero. Mas que beijava divinamente. Enchia sua boca com línguas e emoções desconhecidas. Embora já adivinhadas. Vivia tempos esquisitos. Lá fora os sons quase normais de uma vida que se descobria em tudo diferente. Cá dentro um aperto novo e tão conhecido. Vivia, se rasgava e se redescobria. Já esquecera de contar o quanto tentara escrever. Sentava e nada. Sentia uma inspiração, fazia um início de texto. Sentava e nada.  O nada era um sentimento desconhecido. O escrever sempre fora a sua fuga, seu destino, sua lata de lixo e baú de descober