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Quatro rima com teatro

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quatro gatos encantados travestidos de loucuras correm telhados/poleiros miram lonjuras quatro mirantes abertos cheirando a flor de mel trazem visões discordantes girando feito carrossel quatro planetas inertes guardam promessas de vida planícies sempre desertas à espera de gente sofrida quatro vacas pastando ruminando ideias dissonantes propagam teorias esdruxulas seguem sempre ruminantes quatro livros intocados guardados solitários intocados sem olhares parecendo sacrários   quatro rimas engraçadas sumidas no pó da vida virando lembranças eta vida estagnada Mistérios da matemática Surgem brincalhonas na mente gemendo espaços somando semente multiplicando espaços quatro ferrolhos encantados reluzentes a carmim saudades do tempo eterno portas de querubim rimas soltas/delicadas cheirando a alecrim quatro pássaros voejantes partindo céleres suas sinas buscantes Portam penas coloridas qual cavaleiros andantes quatro ânsias libertárias quatro mortes anunciadas quatro vidas prisioneiras qua

Puro vício

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Eu tinha olhos de gazela Ele passos de colibri Andávamos sorrateiros Uivando em frenesi Eu com garras de lince Ele manso ermitão Voávamos círculos esquisitos Feito puro furacão Eu com patas de marmota Ele faro de baleia Fugíamos alucinados Ele rei, eu sereia Nossa dança desbragada Iluminava os silêncios Era mar/era deserto Calmarias e suplícios Puro vício

Ano novo pessoal

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Todo dia sigo um ritual. Ligo o computador, vejo uma tela em branco, penso em escrever, mas nada sai. Desligo ao fim do dia porque, seguindo a velha máxima, melhor calar que não ter o que falar. Ou não falar bem do que se tem. Fazendo um rescaldo do ano: um livro publicado que quase ninguém leu, centenas de fotos da janela que muita gente curtiu, alguns cursos, projetos e intenções. Sobrevivi. Muitos ficaram pelo caminho. Mas não são palavras tristes. Ano passado não consegui nem falar com amigos. Esse ano até esperava estar ficando mais velha, seria sinal que já estaria vacinada. Os barulhos do dia que se inicia, uma segunda feira, ressoam lá fora. Aqui dentro ainda paz. A mãe dorme, não há rádios acesos, apenas minha voz interna fala comigo. O que fala comigo? Quem sou a eu que a pandemia transformou? A que usa máscaras para sair na rua, a que deixou vaidades poucas de lado e a que superou ogrices pessoais e aprendeu a amar mais. Um olhar mais doce, embora mais duro. Uma sensação de

Das ruas da minha infância

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Tão grandes as ruas da minha infância! Maiores por ser eu tão pequena. Eram seguras, convidativas para um caminhar, um brincar de amarelinha. Novo Hamburgo, uma cidade próxima à Porto Alegre, com ruas tão limpas que parecia não haver habitantes. Nossa casa, branca como as nuvens, ficava em cima de um morro. Nos verões escaldantes, faltava água. Íamos de sacolinhas, a pé, até o Clube Aliança. Piscina e o banho que, fora de casa, tomava ares de aventura. Anos mais tarde, fui passar um carnaval em Laguna/SC, na casa de um pescador. Eu e uma turma de jovens urbanos. Além do piolho, que pegamos na noite em colchões conjuntos, também a água faltava. O jeito era pegar um barquinho, atravessar as águas e ir tentar um banho no camping local, rezando para que nos confundissem com os barraqueiros de lá. Ou comprar um no barzinho simpático, cujo banheiro tinha uma janela enorme que dava para uma mata. Tomara não tivesse ninguém ali. Bons tempos em que o celular não tinha sido inventado, nem as

Do ano que passou pela minha janela

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Num dia de março deixei de sair  Mundo virou uma série apocalíptica e distópica No início, solidariedade/aplausos nas janelas Resiliência posta à prova Cursos/lives/informação/ nunca a conexão fez tanto sentido Aniversários em zoom/Casamentos vistos na tela   Fotos da janela/pés ao sol Magnólias desabrochando na imaginação Máscaras onde antes batom e sorrisos Medo/medo/medo/medo das ruas, do vírus, dos zumbis, da ignorância/ medo das pessoas que achava conhecer Rotina se adaptando/liberdade é coisa de escolha humanos que somos/somos? De repente um ano/365 dias/ Horas, segundos, sensações.  Algumas de alívio, risadas e descoberta Outras de angústia O ano passou na minha janela passei/passamos/aguardamos Sorrimos/choramos/comemos/bebemos Num dia de março se foi um ano Quantos mais? Massacre/incompetência/negacionismo Hordas clamando por aglomerações em meio a uma pandemia  Economia, bradam! Espertos fossem, seguiriam os rumos da ciência quem o fez, abre suas portas e volta a crescer Quem

Soulmates ou o pedaço da laranja em um teste

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Entre escutar Fábio Jr gemendo palavras de alma gêmea-coraçãoooo e o dia a dia de uma relação existem algumas diferenças na vida, até mesmo de quem acha que encontrou a sua metade da laranja . Li certa vez, nessas leituras que adolescente adora, que a humanidade era feita de hermafroditas que desagradaram algum deus raivoso que, como castigo, separou aqueles seres em dois que, desde então, se procuram para promover a sua união perfeita. Sonhos de consumo, ideia fantasiosa, energias que se atraem, quem nunca procurou a sua metade em amores perdidos ou achados pela vida? E se existisse em algures um teste que nos colocasse em contato com a NOSSA alma gêmea? Eis o mote da série Soulmates (amazon prime). Mais que um aplicativo de encontros, uma promessa de achar a pessoa certa, aquela única que, em meio de bilhões de seres existentes no mundo, vai completar a nossa ansiedade de perfeita união. Parece bom, não é verdade?  Mas e se? Como no filme de Cartas para Julieta, a pergunta básica da

O coração pensa constantemente - reflexões sobre o luto e a vida

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  O coração pensa constantemente. E irradia  impulsos eletromagnéticos com uma potência que nos conecta ao universo. Não por acaso, escolhi uma frase de vida para começar a falar do romance de Rosângela Vieira Rocha  que se chama O Coração Pensa Constantemente . Contando a história de vida e morte de duas irmãs, purga sua dor com o seu próprio luto. Acompanhei pelas redes sociais muito desse seu processo pessoal e a dor pela morte sofrida de sua irmã.  "cada luto é único e nenhuma perda se parece com a outra. De nada serve ter frequentado essa 'escola', pois não há aprendizagem e muito menos diplomas. Ninguém está preparado para a morte." Luto. É quando o coração da gente soluça.  N ada aproxima mais os seres humanos que a dor de perder alguém amado. Nos dias de pandemia que vivemos, essa dor se multiplica pelos milhões que morrem e pela ausência sofrida que deixam em outros milhões pelo mundo. Foi com esse sentimento, entre o meu particular e o geral e mundial, que