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Todo dia ela fez tudo sempre igual

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Todo dia ela fez tudo sempre igual, acorda de madrugada, pega o tablet só de hábito e quando se dá conta, são horas desperdiçadas no nada. Notícias daqui e dali que não ajudam a formar uma ideia lógica do mundo desconexo onde habita. O que sobra são um resquício de sono, umas olheiras que serão disfarçadas com base e iluminador. E muito café.

Todo dia ela jura que vai focar. Vai arrumar os cacos da vida que um dia imaginou plena. Vai fazer como aqueles programas de TV onde se colocam três baldes: um vermelho onde vai jogar tudo o que não presta mais, um amarelo onde talvez quem saiba, e outro verde onde sim. 

Todo dia jura para sim mesma que o vermelho vai estar transbordante, que assim do nada vai virar minimalista. Que vai se livrar dos entulhos, dos restolhos, dos encostos. 

Todo dia ela acaba não fazendo nada disso. 

Todo dia ela senta em frente a uma tela, imaginando que vai brotar a velha inspiração e as palavras vão germinar feito sementes em terra adubada. Só que não. Não mais. Pa…

Tic Tac que não para

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porra de vida, pensou baixo
seu tempo se esgotando
a vida se ajeitando
a família já vivendo a expectativa do não ter
não mais eu
a vida é uma grande merda, na verdade
tenho vida
meu sangue ainda corre
nas veias cheias da quimio
meu cérebro ainda pensa
no meio do tumor que o corrói
o tic tac maligno
canceroso
implacável
vai me tornando algo tão diferente do que sou
minha alma ainda a mesma
tento dizer aos que amo
vejo nos seus olhares
medo
pena
o choque da imprevisibilidade
Todos temos data de validade
porque a minha tão cedo?
tantos sonhos
tanto amor
tanta esperança
tudo adiado para sempre
porra
mil vezes porra
melhor cerrar os olhos
não pensar
voltar
Para onde afinal?
Descartável o que sou
um corpo que não reconhecem
uma agilidade que falta
um outra eu
a mesma eu
maldito relógio!



A travessia da velha senhora

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Catarina estava com sono e sem paciência naquela manhã em tudo invertida. Saíra apressada de casa para uma reunião daquelas do trabalho, onde todos falavam muito e decidiam pouco. Foi com um sonoro palavrão que brindou o sinal fechado na faixa de pedestres. Já ia colocar o pé apressado no pedal quando viu.
José estava feliz. Tinha sido recém promovido. Comprara o carro novo, tão sonhado, e o anel de noivado para Joana. Ela não sabia, mas ia ser pedida em casamento naquela noite. José tinha temperamento romântico e gostava de adivinhar os desejos de sua amada. Estava conjeturando se tinha acertado nos inúmeros detalhes que tornassem a data inesquecível que só se deu conta, quando distraído, olhou em frente.
Julieta tinha saído de casa, como todas as manhãs fazia. Ia comprar o pão no super mercado para tomar um café gostoso, com requintes de cuidados que fizera por mais de oitenta décadas. Seus cabelos brancos em um coque arrumado. Seus dedos, antes ágeis, meio entorpecidos pela artros…

Uma carta para o passado

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Minha querida Elenara ainda nos primeiros anos de sua/nossa vida, te vendo assim sorridente, o que não era habitual, nessa foto de 1958, fico aqui imaginando o que motivava a alegria nos teus olhos e te imagino naquele andar cambaleante dos que se aventuram por este mundo, ávidos de descobri-lo.
 Sempre fomos curiosas. 
Nossa eterna mania de perguntar além e além já era meio inata, devia vir no DNA de gente que nos precedeu. Do nosso quartinho no meio do corredor e que tanto nos marcou pela falta de privacidade. 
Privacidade e curiosidade seriam nossas marcar indeléveis. 
Crescemos entre acenos à liberdade e o medo de nos expor ao mundo. Uma confissão, minha pequena loirinha de olhos quase pretos: isso nunca mudará, não importam as leituras e terapias. Talvez os suplementos de B12 tenham ajudado um pouco. Talvez seja a maturidade chegando e nós tenhamos que achar uma explicação lógica. Como sempre.
Vamos sempre nos amparar na lógica. E no delicado equilíbrio entre a extrema empatia e a def…