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O céu que ruge

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O céu que ruge, Yakecan, não fez tanto barulho sobre minha casa. Sim, sou privilegiada, moro em um local alto, bem protegido e tenho condições de me resguardar. Mas mesmo assim os avisos da defesa civil e imprensa me assustaram e me fizeram preparar o que podia para enfrentar uma fúria da natureza sem precedentes locais. Torcendo para que os alertas fossem apenas isso: alertas. E o foram aqui, embora em outros locais possa ter sido mais assustador. Fico pensando em quantos alertas a vida nos dá. Sinais de que algo não muito bom possa nos acontecer. Aquela voz que diz que melhor adiar aquela viagem, ou que aquele amor talvez não seja o mais adequado. Ou que a gente não está tão feliz com a carreira que abraçamos.  Alertas servem exatamente para que a gente se atente e tome providências para evitar perigos. Por mais assustados e sobressaltados que fiquemos, o bom é que os temores não se concretizem. Há que se separar os indícios que são reais e palpáveis dos que são temores vãos. Um aler

Dos sonhos recorrentes

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Ontem falava que a vida é um embate entre luzes e névoas. É tempo de cerração na cidade onde moro. O nevoeiro é aquele tempo em que as nuvens descem dos céus e podem ser tocadas pela criança que fui que sempre teve este sonho. Eu sei que não é bem isso, mas deixa eu usar essa narrativa mais poética porque a vida tá osso, fora e dentro, para que eu prescinda da poesia.  Sobreviver de maneira harmônica tem sido cada vez mais difícil quando se convive com a finitude. Lá fora e cá dentro. Tenho sido uma equilibrista de manter a sanidade quando o mundo parece ruir. E o que isso tem a ver com sonhos recorrentes? Sempre tive sonhos de que estava ameaçada por algo catastrófico, tinha que sair do mundo conhecido em pouquíssimo tempo e tinha que escolher o que levar. Tipo refugiados de guerra. Essa noite tive o mesmo sonho. Mas a diferença é que, embora esteja extremamente angustiada por fora, consegui manter a sanidade no sonho. Foi essa tranquilidade onírica que me chamou a atenção. Consegui s

“Cerração baixa, sol que racha”

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  “Cerração baixa, sol que racha” costumava escutar desde pequena quando acordava em um local cheio de brumas. Comparações com a capital britânica e seu fog, ou ainda com a ilha dos druidas e fadas, Avalon, eram frequentes em sua cabeça. Era na verdade fascinante que tudo estivesse encoberto. A cidade desparecida. As possibilidades de se imaginar em outro lugar aumentavam. Ela sempre viajante. O sol rachante logo aparecia. Nem sempre. Tinha dias que ele se confundia e acabava envolto nas nuvens até que o dia já estivesse na metade. Dias mágicos. Lembrava de alguns. Mais que um acontecimento de clima característico da região, a cerração nevoenta era um sinal de que nem sempre a vida é cristalina. Há tempos de encobertas. Há tempos de procuras. Há tempos de possibilidades além do que se vê. Mas... Também há tempo de realidades encobertas. O perigo, ou a delícia, da liberdade de criar são as inúmeras possibilidades da mente. Voar. Maritacas fazem isso. Hoje mesmo um trisal de pássaros ver

A honestidade em datas

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Hoje é dia do trabalhador e da literatura brasileira. Ontem foi o dia da honestidade. Cada dia tem um significado e a intenção de homenagear essa ou aquela coisa por alguma razão impactante. Seja pela greve que resultou em mortes, seja pela importância da escrita. Ou seja pela relevância da palavra honestidade. Vou me deter nessa última. Até porque fiquei refletindo sobre ela todo o dia de ontem. Também para isso servem as datas comemorativas, para que a gente pense. Honestidade é um conceito moral. Cada sociedade tem as suas regras de bom comportamento. Isso pode, aquilo não. Isso vai ser premiado, aquilo outro vai receber punição. Aprendemos desde pequenos o que fazer, o que não fazer, o que fazer na frente dos outros, o que guardar para si. Mas há honestidades que são maiores que as regras sociais. As religiões apontam isso. A maioria, nas suas origens falam em comunhão universal, matar não é legal, perdoar é bacana, compartilhar é bom para a alma. Será? As guerras estão aí para ens

Mãos que tecem - quando bate a saudade

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Acordo ensolarada. A energia me invade de forma diferente, eu que tanto ando carente dela. Arrumo a cama com energia, troco os lençóis, espano as poeiras do descaso. Arrumo as almofadas. Meus dedos tocam a única diferente entre elas. Tecida por mãos que já não habitam este mundo. A saudade me bate forte. Lembro que hoje, 24 de abril, é o dia que ela nasceu no planeta Terra. Taurina. Teimosa. Perseverante. De personalidade forte mas terna. Toda cuidados. Mais com outros que com ela. Minha tia. Tão virginal como seu nome. Virginia . Lembro de sua energia que se tornava mais alegre quando ela convivia. Seus dedos ágeis faziam maravilhas com as agulhas. Linhas que se transformavam em colchas, toalhas, vestidos. Almofadas. Seus sorriso quando dava presentes. Gostava de se doar. Ou talvez fosse a forma que aprendeu de viver a vida, com os filhos que não teve, mas que ajudou a criar. Lembro da sua coragem de ser mulher só em uma época em que isso era um peso. Sempre independente, sempre solid

Posso morrer mas não quero

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Elucubrações sobre a morte, inspirada em Adília Lopes. Posso morrer hoje. Posso morrer agora. Não quero, mas posso. Qualquer um de nós pode. Um raio, um enfarto, um mal súbito. Sabe-se lá os desígnios da vida.  Posso e se. Posso morrer hoje sem ter feito tudo o que queria. Mas o que queria e fiz, me abastecem até hoje de memórias afetivas. Posso morrer porque me conheço de tantas formas. Fui corajosa e covarde. Continuo sendo. Fui generosa e egoísta. Mais generosa, fazendo as contas de modo correto. Visitei lugares que sonhava e tive aquela sensação de que aquele era um momento único. Visitei Atenas. Sofri abandonos, reais e imaginários. Escrevi achando que era um dom e percebi, três livros depois, que eram maneira de me comunicar com o mundo. Nem eram assim tão bons. Posso morrer porque aprendi a amar. Mas ainda não posso porque não esgotei do amor tudo que ele tem para me ensinar.  Posso morrer porque de mim há de ficar uma lembrança doce na memória de alguns. Os mais importantes. E

A finitude e a paixão

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... E o Senhor acrescentou: “Tenho visto como este povo é rebelde e obstinado. Portanto, agora vai-te, porque a minha ira se acenderá contra eles e destruí-los-ei. E de ti, Moisés, farei uma grande nação.... Destruí-los-ei. Que ira desse Deus que ainda assim falava em um português tão correto, devia ser um Ser muito porreta que levantava sua mão e raios de morte jorravam sobre aqueles que o desobedeciam, ou apenas não o amavam como ele imaginava que devia ser amado. Se encolhia nas aulas de catecismo do rígido colégio religioso onde escolhera estudar. As irmãs de caridade pareciam abutres em longas vestes pretas que as faziam mais deslizar que andar pelos longos corredores. Mas não. Eram mulheres normais. Ou quase. Nos dias que subia à clausura para ajudar na feitura das hóstias, sempre dava uma espiadela nos quartos. Uma vez que outra, flagrava uma delas trocando de roupas. Não fossem pelos cabelos curtos, seriam iguais às mães e tias. A mãe não, que essa vivia fazendo piadas e tinha