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O vaso chinês e as águas que subiam

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  O vaso chinês e as águas que subiam Olhou apreensiva os degraus da escada. A água subia rapidamente e, pelos cálculos da progressão, logo chegariam ao segundo andar da residência. Lembrou dos anos de trabalho e do sonho de construir uma casa segura, tão diferente da pequena casinha de madeira onde tinha começado sua vida de casada. Moravam em Canoas, bairro Rio Branco. Um bairro aparentemente seguro e longe de rios e açudes. Era zona baixa, mas o sistema de proteção de enchentes feito pela cidade após a grande enchente da década de 60 a mantinham protegida. Isso ela imaginava até esse dia.   Tinha vindo do interior e conseguido um trabalho de doméstica na capital. Seu marido tinha quase a mesma trajetória. Jovens que abandonavam a vida sofrida no interior do Rio Grande do Sul para tentar a vida em Porto Alegre. Tinham sido anos de muito trabalho mas haviam conseguido reunir um patrimônio que os deixava em segurança agora que já estavam aposentados. Idosos? Sim, pela nomenclatura ofic

Entre o Silêncio e a Multidão

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  “ de quem é o olhar que espreita por meus olhos?” Fernando Pessoa – A múmia O amor precisa para viver de emoção diz a música que escuto. Em tempos de vivência sozinha literal, preciso de sons que me liguem ao mundo para que não voe na imensidão das viagens internas. Dizem por aí que a gente ronda o que mais teme. Nunca gostei do morar só. O abrir a porta e não ter ninguém com quem falar. O guardar as emoções ou angústias dentro de mim. Ou até os fatos que leio e vivencio. Temo que vá me tornar aquela velhinha que entope os ouvidos alheios quando acha um disposta a ouvir. Temo várias coisas. A principal delas é desconhecer quem é este meu olhar da maturidade. Essa eu que encara certezas antigas como supérfluas, mas que ainda tem saudades daquela menina que gritava opiniões com a convicção dos temerários. Essa eu de hoje é muito mais calada embora mais falante. É menos convicta, embora externe mais palavras. Talvez isso seja a maturidade enfim. E não apenas os cabelos grisalhos

Passageira

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Acordou angústias. Seus olhos subitamente abriram. Assustada percebeu que era mais tarde que o usual. Maldita insônia, pensou. Faz com que o sono aconteça de forma parcelada. Umas tantas horas logo que adormecia. Outras tantas de olhos abertos no meio da noite. E enfim, um sono tumultuado, nunca descanso. Levantou sustos apressados. Tinha um horário agendado. Mentalmente fez as contas: tempo de preparo do café, tomada da refeição, exercícios diárias. Um tempo para pensar, abrir a casa, sentir saudades, reconhecer que enfim estava vivendo o que sempre temeu: viver só. Sentou cabeça oca. Criatividade antes tão amiga que saltava em tudo o que pensava, andava escassa. Tudo parecia sem necessidades de expor. Como se enfim a vida fizesse sentido por estar vivendo. Algo que sempre considerou sem emoção. Ou sentido. A hora marcada a chamou de supetão. Não tinha tempo para devaneios. Não estava tendo este tempo fazia muitos meses. Ou anos. Ou séculos. Que os tempos faziam uma dança de estranham

Perplexidades

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Minha alma canta Maria Rita no canal de música da TV a cabo. Logo seguido de Metamorfose Ambulante e vejo um Raul Seixas masterizado em um clipe do Fantástico dos anos do fim do século passado. Aliás a rebeldia dos anos 60 e 70 foi sendo encaixada, pasteurizada e vendida como produto. Não a toa estamos hoje nesse vácuo onde todos somos brilhantes e felizes, #SQN. As linhas de apoio dos psicólogos bombam, especialmente nos plantões de fim de semana onde, longe do trabalho diário, enfim temos tempo para nós.  Quem somos nós? Aquela velha opinião formada sobre tudo...um tempo de certezas parece tão distante de um tempo de informações rápidas e várias narrativas. A verdade corresponde ao guru da ocasião.  Como conviver com o vácuo e manter a sanidade? Depois de umas décadas dedicada a outros, me olho no espelho e tento reunir as peças de quem eu era. Antigas crenças sempre repetidas como mantra auto analisado, já não fazem parte da eu de agora. Tateio nas possibilidades de escolha para tes

Lidando com a tristeza em um dia de sol

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Tenho hábito de escrever um diário digital a cada ano. Hábito novo, na verdade comecei ano passado. Escrevo sem pensar, contando coisas que saem de dentro. Hoje, sei lá, achei que alguém podia gostar de ler. Então aí vai. Março 02/03/2024 Lidando com a tristeza. Não é fácil e não tem receita. Cada um sabe onde a dor aperta e como enfrentar a ausência do luto. Hoje acordei cansada, me sentindo só, mesmo me sabendo querida por um monte de gente, Não tive coragem de pegar o carro para a estrada conforme tinha me programado na semana. Já me conheço o suficiente para saber a diferença de um simples receio de um não devo fazer. E hoje era não devo. Respeitei. Mas não mergulhei na tristeza nem na auto piedade que toma tanto de nossa energia. Fiz tudo devagar. Um café de primeira com várias frutas, suco e café com leite. Comi devagar, saboreando. Lavei a louça como sempre faço porque não gosto de acumular sujeiras na pia. Pedalei como todo dia. 40 minutos, no mínimo. Ouvi música porque a ca

O nunca mais

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  Lembro da menina perplexa ao descobrir que as pessoas não duravam para sempre. Como assim, nunca mais pai e mãe? Era um pensamento tão absurdo e devastador que, por muitos anos, o sonho de viver em uma cidade deserta, onde as pessoas tinham evaporado, a acompanhou. Por estes privilégios da vida, o nunca mais a poupou por dezenas de anos. Perdeu a vó querida, é verdade, quando ainda era adolescente. Mas foi uma morte distante, poupada que foi da imagem fria do caixão que traz a realidade da despedida de forma mais bruta. Para ela ficaram a imagem, os cheiros, o colo da vó. Ainda hoje é isso que lembra quando se recorda dela. Perdeu tios que se foram mais cedo. Mas lembra que o primeiro impacto brutal foi quando a tia querida, irmã mais velha de sua mãe, se foi aos quase 90 anos. Vê-la em um caixão lhe trouxe uma tristeza tão profunda que lembra até hoje da roupa que usava. Um pensamento fugidio lhe veio à cabeça, ao lembrar que sua própria mãe tinha uma blusa igual. Pensou furtivament

Moradas de todos nós

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  A casa de Maria Acordou amarguras e olhou com desdém para sua cama desarrumada. Não iria alisá-la, não iria organizar nada. No máximo um lençol jogado ao lado e seguiria a vida. Seus sapatos reunidos em um encontro maluco, se olhavam, par de um com o par de outro. Os livros se empilhavam poeirentos como as mágoas que guardava na alma. Todo dia, em algum momento, pensava distraída que precisava arrumar um pouco porque perdia coisas. Aquela blusa que gostava e a tornava mais radiante. Aquela bolsa que tanto lhe trazia felicidade ao lembrar do momento em que a ganhou. Os escritos, os poemas, as anotações feitas em papéis jogados ao vento, repousavam em algum canto deserto e escondido. Maria olhou sua casa com conforto e tristeza. Era uma cópia dela mesma. Jogada para depois. Um dia, quem sabe. Hoje a correria do fazer e sobreviver chamava mais alto. Pegou a máscara do faz de conta e desceu com a cara de dia bom que sabia tão bem desenhar em seu rosto. A mesa do Joaquim Há dias Joa