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O nunca mais

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  Lembro da menina perplexa ao descobrir que as pessoas não duravam para sempre. Como assim, nunca mais pai e mãe? Era um pensamento tão absurdo e devastador que, por muitos anos, o sonho de viver em uma cidade deserta, onde as pessoas tinham evaporado, a acompanhou. Por estes privilégios da vida, o nunca mais a poupou por dezenas de anos. Perdeu a vó querida, é verdade, quando ainda era adolescente. Mas foi uma morte distante, poupada que foi da imagem fria do caixão que traz a realidade da despedida de forma mais bruta. Para ela ficaram a imagem, os cheiros, o colo da vó. Ainda hoje é isso que lembra quando se recorda dela. Perdeu tios que se foram mais cedo. Mas lembra que o primeiro impacto brutal foi quando a tia querida, irmã mais velha de sua mãe, se foi aos quase 90 anos. Vê-la em um caixão lhe trouxe uma tristeza tão profunda que lembra até hoje da roupa que usava. Um pensamento fugidio lhe veio à cabeça, ao lembrar que sua própria mãe tinha uma blusa igual. Pensou furtivament

Moradas de todos nós

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  A casa de Maria Acordou amarguras e olhou com desdém para sua cama desarrumada. Não iria alisá-la, não iria organizar nada. No máximo um lençol jogado ao lado e seguiria a vida. Seus sapatos reunidos em um encontro maluco, se olhavam, par de um com o par de outro. Os livros se empilhavam poeirentos como as mágoas que guardava na alma. Todo dia, em algum momento, pensava distraída que precisava arrumar um pouco porque perdia coisas. Aquela blusa que gostava e a tornava mais radiante. Aquela bolsa que tanto lhe trazia felicidade ao lembrar do momento em que a ganhou. Os escritos, os poemas, as anotações feitas em papéis jogados ao vento, repousavam em algum canto deserto e escondido. Maria olhou sua casa com conforto e tristeza. Era uma cópia dela mesma. Jogada para depois. Um dia, quem sabe. Hoje a correria do fazer e sobreviver chamava mais alto. Pegou a máscara do faz de conta e desceu com a cara de dia bom que sabia tão bem desenhar em seu rosto. A mesa do Joaquim Há dias Joa

O tempo

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  Um dia acordou criança.  No outro seu corpo rangia. No meio do tempo, manchas, cicatrizes e risos O caminho foi leve por fora às vezes dolorido por dentro Nada a se queixar que não fosse escolha Dessas talvez um repensar Cada decisão tomada seria refeita? Com certeza não Mas já não importa O corpo range as portas se fecham a música prestes a dar seu acorde final A menina que abria os olhos enxerga espantada alguém tão parecida com sua avó Importa? Ao mundo não, que passou um átimo as nuvens rolarão os ventos soprarão E ela? Findará em poeira e voltará ao lar

Fábula do reino em polvorosa pela ratoeira roída

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O rato roeu a ratoeira do rei de algum lugar.  O rei, incomodado por ter a sua autoridade questionada, resolveu decapitar o rato que se escondeu na floresta.  As tropas do rei, inquietas por ter uma tarefa extra e querendo chegar cedo em casa, atormentaram o padre da igreja pedindo providencias mais obtusas.  O padre da igreja, pego no meio do namoro com a jovem beata, suspirou alto, disse um palavrão e pediu aos céus uma providência para achar o rato fujão.  O deus de plantão, atrasado para os milagres da vida cotidiana e achando um acúmulo de função ter que cuidar de um mero ratinho, pegou seus raios de plantão e jogou ao bel prazer.  Um dos raios, pego de surpresa na rotina dos guardados, abriu a boca sonolento e foi trovejar forte no meio da tempestade.  A tempestade, enciumada pela escolha do raio, acometeu o palácio do pequeno rei que estava enfezado com o ratinho que tinha roído a ratoeira e com medo fugira para o mato, sendo perseguido pelas tropas reais que tinham solicitado u

Portal que leva a Paris

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Aquele dia que gera uma repetição de números 11/11 em que alguns místicos dizem que se abre um portal energético importante. E porque não? E esse porque é daqueles acentuados ou separados? Nunca sei. Também não me importo muito em saber, já que adorar gramática nunca foi meu forte. Enfim, um sábado undécimo, chuvoso, onde tento retomar os meus bons hábitos de comer pastos para voltar a caber em manequins mais justos. Nem por vaidade, mas também. Mas para economizar porque tenho muita roupa me esperando e não estou a fim de desapegar. Sou ruim de desapego. As coisas me completam e nem sempre me sinto mais leve ao dar aquilo que gosto. Às vezes sim, até porque curto esse lance de generosidade. Mas muitas vezes sinto uma saudade de coisas que tive ou de partes de mim que já não reconheço aqui e agora. Sinto falta da Bichanina. É como se ela ainda estivesse aqui, fazendo parte da rotina. Como se colocar outra felina no lugar dela fosse uma traição há convivência de quase 14 anos. Sim, sou

Inquietudes

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Eu tinha olhos de girassol que giravam feito espigas em procura de uma luz que achava fora de mim. Eu tinha sedes de cachoeiras jorrando em desespero de buscas e arrojos nas enseadas da vida. Eu tinha ouvidos de barbatanas suspirando por músicas inaudíveis. Eu tinha vontades enluaradas de uivar em noites solitárias, desgarrada do bando. Eu tinha letargias de dias quentes, desses de mormaça que antecede tempestades. Eu tinha mordaças. Eu tinha em mim tanta coisa que era tesouro e resistência dessas de modos a jorrar combustível. Eu tive fogueiras ardentes de inquietudes Um dia fluí. Um mar sobre os pés um revolta sobre o ar um misto de medo e sobressalto um mundo inteiro a descobrir um mar de portas fechadas a naufragar um ar de visões oníricas de um porvir uma imaginação por fazer uma vida por erigir uma fome a inquietar uma glória por alcançar uma criança a gerar uma luta por conquistar adeus vida velha companheira quem sabe um dia o mistério desvendar

A criança, a rua e a felicidade

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O menininho em sua bicicleta passa por mim. Atrás seu pai que vai cuidando seus caminhos, sem tolher a sua liberdade de ir e vir. Vai dizendo com voz firme e carinhosa o que fazer, onde passar e como usar as calçadas. Paramos no sinal que está vermelho para nós. A moça na frente, vendo que não vinham carros, apressou o passo e atravessou a rua. Eu não. Me lembrei do menino que estava com o pai. “A tia passou no sinal que não era nosso” diz sua vozinha de criança. O pai explica algo como adultos apressados. “Quando eu for grande vou poder também atravessar no sinal vermelho?” pergunta sua voz ingênua. A sinaleira abre e eu sigo no meu passo apressado de gente grande, sem ouvir a dificil resposta do pai. Penso que estamos a dar exemplos a toda hora, mesmo para quem não conhecemos. Eu também já fui a mulher apressada que aproveitou uma rua deserta para passar, sem nem me dar conta da menina na mão do pai que teve que ser contida para não fazer o mesmo. Também já fui a tia que ensinava a n