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As telas da memória

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  O cheiro se mistura com o ruído da madeira rangendo que escuta com tamanha precisão que poderia jurar que acontecia aqui e agora, neste momento presente. De real apenas a pipoca, cheirando a óleo e manteiga. Luxo de uma tarde preguiçosa em um desses domingos ensolarados em que a vida até parece bonita como era na infância.  Na infância tinha matiné no cinema da pequena cidade de sua avó, onde passava as férias com seus pais. Era uma sala grande que a gente entrava com fascínio. Lá fora um prédio de dois pavimentos, caiado de branco, na frente da igreja na praça principal. Na verdade, a única do povoado.  Lá dentro as cadeiras de palha, muito simples, ordenadas em fileiras que acomodavam as pessoas e seus filhos.  Os filhos. Nós.  Éramos a gurizada que aguardava aquele momento como se fosse Natal, Páscoa e Dia das Crianças. Tudo assim junto. E nem importava o filme. A tela enorme se abria e mostrava uma magia que não sabiamos definir. Melhor que livros de histó...

Pinceladas de um março que trouxe tantas inquietações

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  Edição · Março 2026 O Diário de Março por Elenara Stein Leitão Um mês de guerras distantes e sapatos jogados no chão. De pires quebrados e dias de chuva miúda. De cidades que fazem aniversário com as águas ainda no horizonte. E de gente que parte, deixando essa forma de buraco que só os muito vivos sabem abrir. Nesta edição Cidade segura é questão de projeto A responsabilidade que ninguém quer O dia depois do 8 de março Porto Alegre, meu porto ex alegre Os três porquinhos e a acessibilidade Despedidas que pesam Calçadas, raízes e soluções concretas Poesia · Notas breves Cidade & Política 04 · 03 · 2026 Uma Cidade Segura para Mulheres é Também Uma Questão de Projeto Uma cidade segura para mulheres não seria maravilhoso? Pois ela é também fruto de decisões de projeto e implantação. Espaços que iluminem as pessoas. Ruas com gente, comércio aberto, janelas voltadas para a vida. E quando o trajeto entre casa, trabalho, escola e mercado não passa por terrenos vazios ou caminhos que...

Eu, leitora

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Me considero uma pessoa privilegiada. Nasci em uma casa de leitores. Desde pequena, os livros eram nossos companheiros. Primeiro, pelas leituras dos mais velhos. Não cheguei a pegar o saudável hábito da leitura de livro em conjunto, que meu pai fazia nas eras antes da TV. Mas, como a caçula da família, ganhava livros desde cedo. Era aquela guria chatinha que sabia de cor as historinhas e não admitia que fossem resumidas. Nem depois de mil leituras. Nossa casa tinha o que um amigo definiu como “armadilhas do bem”, estantes de livros baixas, bem ao alcance dos olhos e mãos das crianças. Desde cedo, os clássicos estavam na mira dos olhos. Tanto que se criou uma lenda familiar na qual eu aos dez anos já tinha lido Dante Alighieri. Confesso que deixei que pensassem assim, mas não era verdade não. Só tinha lido um resumo em uma enciclopédia dessas bem completas. De verdade mesmo, tinha devorado os Contos de Andersen em uma edição primorosa da então Editora do Globo aqui de Porto Alegre, com ...

Por que cada vez mais mulheres escolhem ficar solteiras?

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  Tenho escutado e lido muitos descompassos entre as expectativas femininas e o relacionamento com homens. É um recorte de uma classe social, de pessoas hetero. Mas há genuínas escolhas de mulheres optando por levarem suas vidas solteiras ou sem um relacionamento fixo. Estes distanciamentos nos relacionamentos atuais não é apenas uma questão de quem paga as contas ou quem lava a louça. Esta dicotomia de papéis já ficou para trás há muito tempo. Mas se formos pensar, o verdadeiro conflito é mais psicológico e identitário. Poderíamos dizer que estamos vivenciando um choque entre uma masculinidade que ainda gira em torno do Ego e uma visão feminina que floresceu para o Self. Explicando: Para muitos homens, a masculinidade ainda é vivida como um exercício de Ego, o que podemos chamar de "Modo Espelho". Ou seja, há homens que só se sentem seguros se tiver alguém que reflita sua importância e autoridade. O Ego precisa de hierarquia. Para ele, ser parceiro significa, inconscientemen...

Diário semana 15 a 30/01

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  O Diário Semanal - Elenara Stein Leitão O DIÁRIO SEMANAL Reflexões, Arquitetura e Vida - por Elenara Stein Leitão Semana de 15 a 30 de janeiro, 2026 Porto Alegre, RS O Tempo, Esse Senhor da Razão Por Elenara Stein Leitão | 15 de janeiro, 2026 O tempo. Essa palavra mágica que nos define. Tudo é medido por ele. Nossos passos. Nossos atos. Espaços e cidades. O tempo corre e nos deixa de fôlego curto. O tempo para nos momentos angustiantes de espera. O tempo era melhor em outras eras? Quando mais velhos, olhamos com olhar de lembrança boa e afirmamos que sim. Esquecemos as agruras. Os sobressaltos. As lutas e lágrimas. E ficamos no bom. Em quem ainda não havia partido. Em nossa ingenuida...

Cada um está sozinho por trás de sua máscara

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  Esta frase me pegou em um livro chamado "História da Solidão e dos Solitários". Não foi uma busca, foi ressonância. Daquelas que batem no peito e no intelecto. A solidão me encanta e simultaneamente me traz inquietude, aquela sensação de estar tocando algo que permanece fundamentalmente intraduzível. Um tema que me atrai pela complexidade de navegar entre a essência individual e o papel social que desempenhamos, como atores que um dia esquecemos que estavam em um palco. A obra de Georges Minois é um livro de fôlego, quinhentas e tantas páginas daquelas que exigem presença, não daquelas que se leem deitadas antes de dormir na esperança de dormência rápida. Folhear esse estudo sobre a solidão desde os primórdios da humanidade revela padrões que as religiões gravaram fundo na psique coletiva: moldaram não apenas costumes e cultura, mas a própria textura do sentir e do fazer das pessoas. Aqui está a maravilhosidade do trabalho histórico, quando ele mostra que nossos medos não s...

das pausas necessárias na vida

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  da pausa do cafezinho necessário para acordar acordar para a vida amolecida pela necessidade de performar de ser  não, de parecer ser o teclado misto de velho e com teclas que não funcionam meio eu meio nós um gole e chico na tv uma pausa e um olhar na janela o bip do celular não olho ouço sons da rua experimento voltar a escrever por instinto sem ajudas de inteligências que me exasperam ajudam sim já não vivo sem elas mas também necessidade de ter espaços meus café acaba na xícara chico para de cantar comerciais para quem não paga respiro, fungo, existo me percebo tato, paladar, olfato, visão sentidos presentes ainda estou aqui