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Pequenas concessões

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Uma história nem tão ficcional porque bem comum de acontecer... Marina olhou seu reflexo cansado no espelho e tentou entender em que momento havia chegado ali. A mulher que a encarava parecia uma versão desbotada daquela profissional admirada de poucos anos antes. Os cabelos já não recebiam o mesmo cuidado. As roupas eram escolhidas mais pela praticidade do que pelo prazer. A autoestima parecia ter se recolhido para algum canto da casa, junto das coisas que deixamos para depois. Mas nem sempre fora assim. Durante décadas tinha construído uma carreira sólida, um casamento feliz com o primeiro namorado e uma família que lhe dava orgulho. Os três filhos já seguiam seus próprios caminhos. Os netos começavam a ocupar o lugar das antigas preocupações maternas. Então a vida mudou de direção. O marido adoeceu. A doença foi rápida, mas o sofrimento parecia que nunca ia acabar. Foram meses de hospitais, consultas e noites mal dormidas que consumiram uma energia que Marina jamais recuperou comple...

Vivendo sem necessariamente amadurecer

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Quando vejo a tela em branco, cheia de possibilidades, penso que talvez as palavras já tenham se secado dentro de mim. Como se a necessidade de cuspir para fora o tanto de emoção que me amontoava por dentro, tivesse sido saciada por uma indiferença de costume. Me acostumei a compreender. Não a compreensão do raciocinio, mas a da lerdeza. A luta entre a chama que gritava rubra de indignação, se transformando em uma malemolente preguiça de unir dois mais dois, sabendo que se der quatro trudo bem. Se der cinco também.  Seria isso sinônimo da tal maturidade? A aceitação cinzenta e melancolica da harmonia que exige um preço de falta de rebeldia nas ações e pensamentos?  Não creio.  Amadurecer tem menos a ver com esmaecer do que se imagina. Frutos maduros são mais saborosos, não menos. Obras maduras são mais completas e menos descartáveis. O maduro é visceral no sentido de vivencia e resultados. Não se amadurece sem custos. Ás vezes é a ingenuidade que dá lugar ao olhar mais ar...

Essa tal de acessibilidade digital

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O mundo mudou tanto de décadas para cá. Lembro do tempo dos amansa-burros e das enciclopédias que traziam respostas em que a ligeireza ainda não tinha nos tomado de assalto. Os mais velhos guardavam um mundo de experiências e sabedorias que os mais jovens tinham vontade de um dia experenciar também. A vida corria mais solta e com tempos mais definidos.  Hoje tudo parece mais embaralhado e muitas pessoas olham os jovens com sabedorias que elas já não alcançam. Não talvez com a mesma rapidez.  Fala-se hoje em acessibilidade para vários tipos de deficiências. Mas e a tal de acessibilidade digital? Como tratar de fazer as telas falarem linguagens que todos entendam em tempos em que não dominar estas tecnologias nos tornam analfabetos? Ou dependentes de um amparo que nem sempre temos por perto?  Convivo com a internet desde o final dos anos 90 quando fazia o mestrado e a rede era quase que só usada nos centros de pesquisa. A informática, o uso de computadores, a comunicação di...

A horta do nono andar - uma pequena crônica urbana

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  Morava sozinha há vinte anos. Aos noventa anos, dona Lúcia ainda acordava antes do sol. O corpo mais lento já não obedecia com a rapidez de décadas atrás, mas havia ainda uma disciplina silenciosa em seus gestos. Abria as janelas do apartamento no nono andar, observava Porto Alegre ainda meio adormecida, colocava água para o café enquanto escutava as aves e o barulho da cidade que amanhecia. O prédio, apesar de cheio, parecia um organismo cansado. Gente entrando e saindo sem se olhar. Portas automáticas. Entregas deixadas na portaria. Elevadores silenciosos. O terreno vazio do térreo começou a inquietá-la. Nem tanto pela inutilidade física já que não havia muitas crianças mais para brincar por ali. Mas pela outra. Numa terça-feira comum, apareceram ali três vasos. Cebolinha. Alecrim. Manjericão. Nada grandioso. Os primeiros olhares dos vizinhos vieram com ironia educada. "Bonitinho." "Mas será que isso dá mosquito?" "Quem vai cuidar?" O apartamento 74 ...

O custo do cuidar: uma conta que ninguém fecha por inteiro

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Nunca esqueci o dia em que fiz meu primeiro exame MAPA. Aquele que mede a pressão de quinze em quinze minutos, dia e noite. Planejei tudo para que o dia fosse tranquilo. Não foi. De repente me vi em em uma ambulância a mil por hora com seu pai com uma hemorragia gastro esofágica, entrando numa UTI e a gente passando a primeira noite em claro, rezando para o telefone não tocar. Com um aparelho no braço apertando meu próprio sangue enquanto aparelhos monitoravam o dele. Essa é a imagem que me ficou gravada como emblema do que é cuidar de pais que envelhecem. A gente cuida dos outros enquanto esquece o próprio corpo. Literalmente. Meu pai foi um homem que planejou o futuro com a seriedade de quem aprendeu cedo que a vida não deve nada. Filho de uma viúva de 24 anos com quatro crianças, ele sabia que estabilidade não cai do céu. Concurso, previdência, seguros de vida, saúde cuidada. Genética boa, cuidados corretos. Eu quase acreditei que seria quase imortal. A gente sempre acha isso dos pa...

As telas da memória

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  O cheiro se mistura com o ruído da madeira rangendo que escuta com tamanha precisão que poderia jurar que acontecia aqui e agora, neste momento presente. De real apenas a pipoca, cheirando a óleo e manteiga. Luxo de uma tarde preguiçosa em um desses domingos ensolarados em que a vida até parece bonita como era na infância.  Na infância tinha matiné no cinema da pequena cidade de sua avó, onde passava as férias com seus pais. Era uma sala grande que a gente entrava com fascínio. Lá fora um prédio de dois pavimentos, caiado de branco, na frente da igreja na praça principal. Na verdade, a única do povoado.  Lá dentro as cadeiras de palha, muito simples, ordenadas em fileiras que acomodavam as pessoas e seus filhos.  Os filhos. Nós.  Éramos a gurizada que aguardava aquele momento como se fosse Natal, Páscoa e Dia das Crianças. Tudo assim junto. E nem importava o filme. A tela enorme se abria e mostrava uma magia que não sabiamos definir. Melhor que livros de histó...

Pinceladas de um março que trouxe tantas inquietações

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  Edição · Março 2026 O Diário de Março por Elenara Stein Leitão Um mês de guerras distantes e sapatos jogados no chão. De pires quebrados e dias de chuva miúda. De cidades que fazem aniversário com as águas ainda no horizonte. E de gente que parte, deixando essa forma de buraco que só os muito vivos sabem abrir. Nesta edição Cidade segura é questão de projeto A responsabilidade que ninguém quer O dia depois do 8 de março Porto Alegre, meu porto ex alegre Os três porquinhos e a acessibilidade Despedidas que pesam Calçadas, raízes e soluções concretas Poesia · Notas breves Cidade & Política 04 · 03 · 2026 Uma Cidade Segura para Mulheres é Também Uma Questão de Projeto Uma cidade segura para mulheres não seria maravilhoso? Pois ela é também fruto de decisões de projeto e implantação. Espaços que iluminem as pessoas. Ruas com gente, comércio aberto, janelas voltadas para a vida. E quando o trajeto entre casa, trabalho, escola e mercado não passa por terrenos vazios ou caminhos que...