As telas da memória
O cheiro se mistura com o ruído da madeira rangendo que escuta com tamanha precisão que poderia jurar que acontecia aqui e agora, neste momento presente. De real apenas a pipoca, cheirando a óleo e manteiga. Luxo de uma tarde preguiçosa em um desses domingos ensolarados em que a vida até parece bonita como era na infância. Na infância tinha matiné no cinema da pequena cidade de sua avó, onde passava as férias com seus pais. Era uma sala grande que a gente entrava com fascínio. Lá fora um prédio de dois pavimentos, caiado de branco, na frente da igreja na praça principal. Na verdade, a única do povoado. Lá dentro as cadeiras de palha, muito simples, ordenadas em fileiras que acomodavam as pessoas e seus filhos. Os filhos. Nós. Éramos a gurizada que aguardava aquele momento como se fosse Natal, Páscoa e Dia das Crianças. Tudo assim junto. E nem importava o filme. A tela enorme se abria e mostrava uma magia que não sabiamos definir. Melhor que livros de histó...