A horta do nono andar - uma pequena crônica urbana
Morava sozinha há vinte anos. Aos noventa anos, dona Lúcia ainda acordava antes do sol. O corpo mais lento já não obedecia com a rapidez de décadas atrás, mas havia ainda uma disciplina silenciosa em seus gestos. Abria as janelas do apartamento no nono andar, observava Porto Alegre ainda meio adormecida, colocava água para o café enquanto escutava as aves e o barulho da cidade que amanhecia. O prédio, apesar de cheio, parecia um organismo cansado. Gente entrando e saindo sem se olhar. Portas automáticas. Entregas deixadas na portaria. Elevadores silenciosos. O terreno vazio do térreo começou a inquietá-la. Nem tanto pela inutilidade física já que não havia muitas crianças mais para brincar por ali. Mas pela outra. Numa terça-feira comum, apareceram ali três vasos. Cebolinha. Alecrim. Manjericão. Nada grandioso. Os primeiros olhares dos vizinhos vieram com ironia educada. "Bonitinho." "Mas será que isso dá mosquito?" "Quem vai cuidar?" O apartamento 74 ...