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Ariadne tecendo teias

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Teço teias na esperança de  reter-te. Tu ficas.  Me envolves em tua lábia de caçador,  solta setas,  me matas.  Renasço.  De ti guardo memórias que ninguém mais. 
Vida nova, novos olhares. Velhos sentires. Dúvidas iguais. Certezas absolutas. Ariadne corria solta pela sala, em desbragada dança, dessas que o vinho torna factual. Pela primeira vez em décadas se sentia só. O tempo era dela. 
Nemsabia mais o que fazer dele. Tanto tempo vivendo para outros. Sendo de outros. Afastando vontades, abrindo mão de desejos. Tecendo estradas para outros caminhares. Seu corpo marcado pela comida, único prazer solitário. O único que restara.
Mentira. Tinha as leituras. Mas nem essas. Lia mais por obrigação, os olhos correndo frases que pareciam não fazer sentido. Nada mais tocava. Só a urgência do desejo alheio. O que dela precisavam. Decisões, contas, sobrevivência alheia, carência dos outros. A dela sufocada. 
Tecia urgências. Suas teias se misturavam à gosma das outras vontades. Eram abraços que não queria. …

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Flávia, a batalhadora

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Os olhares das pessoas no saguão do hotel se detiveram na jovem que acabara de entrar. Moças desacompanhadas em locais como aquele não eram comuns. No final da década de 30 do século XX Porto Alegre ainda era uma cidade muito provinciana. Passos resolutos, sapatos fazendo barulho no piso recém escovado. O recepcionista notou a apreensão em sua voz ao perguntar pelo hóspede do quarto 415. Sorriu com o canto da boca, imaginando talvez um encontro clandestino.

Uma semana antes, Flávia implorara ao tio, irmão mais velho de sua mãe, que a acompanhasse naquela primeira entrevista de emprego. Se formara professora, a única das irmãs que tivera a oportunidade de ter uma formação acadêmica formal. Para isso morara na casa dos tios professores, Helena e Ignácio. Alemães de origem, eram queridos. A tia bem mais que o tio, é verdade. O som de sua bengala se fazia ouvir nos cômodos da casa e ela estudava ainda mais, imaginando seus sermões. 

Foram anos de saudades da família, mas ela aproveitara com…

Devoradora do passado

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Belarmino, que era filho de Fermiano, casou com Francisca Rosalina e geraram aquele que seria conhecido como Chico Bello. Meu bisavô paterno. Deles sei pouca coisa. Algumas datas, registros de paróquias que me levam a ver que nasceram, casaram e procriaram. Como vem fazendo multidões antes e depois deles. Em algum momento que não consegui decifrar, os Joaquim de Oliveira viraram Oliveira Bello. Não apenas na tradição familiar, mas nos registros também!

Por que isso me importa? Porque fico horas a fio buscando respostas de um passado que não presenciei mas que ajudou a me tornar a pessoa que sou?
"Eu preciso devorar o passado, para não ser por ele consumido."A imensidão íntima dos carneiros - Marcelo Maluf  Talvez a leitura desse livro de Marcelo Maluf me ajude a compreender essa busca. Embora estes avôs e avós que nunca conheci já estejam na poeira da memória, estão vivos dentro de mim. É como se eu fosse um elo de uma corrente que vem de milênios e me coubesse deslindar sua…

Julieta - a rainha sonhadora

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O brilho do espelho ao longe fez com que Julieta desviasse os olhos dos céus e voltasse à realidade. Morava no meio do mato, uma verdadeira grota para ela, criada que fora na capital. Ideia mais louca do Doutor.
O Doutor era seu pai. Parecia tão mais velho que sua mãe. Suas botas e roupas claras lhe davam um ar bonachão que contrastava com o sotaque carregado alemão que teimava em sair de sua boca, malgrado o tempo de vida no Brasil. Viera muito pequeno, falava vários idiomas, era tradutor juramentado. Fora professor e enfim se formara em Medicina. E viera parar naquele fim de mundo só para ajudar quem dele precisasse. 
Os pequenos até gostavam dos banhos de sanga, de não precisar frequentar a escola e das frutas colhidas no pé. Não ela. Enquanto ajudava sua mãe nas costuras, seu pensamento voava. 
-"Vou morar no Rio de Janeiro" dizia para as irmãs mais novas. Dava de ombros com as risadas delas.
-"Sonhadora" gritavam às suas costas!
Julieta erguia o queixo e as calava …