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As fogueiras da infância

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Lá fora crepitava o fogo na noite gelada de junho. Dentro de casa a animação também era calorosa. A ampla mesa da cozinha se tornava pequena frente à animação das gurias. Primas e adolescentes se esmeravam em sortilégios, os mais criativos, na ânsia de saber mais sobre seus futuros e amores. 
Era década de sessenta. E lá, como aqui, as noites de festas juninas eram motivo para se falar dos amores e prováveis namorados. Ficantes era palavra absolutamente proibida e desconhecida. Pelo menos na frente dos pais e tios que a tudo assistiam sem muita atenção. Falavam de política e dos novos rumos do país com aquele presidente da vassoura. O que ia acabar enfim com a corrupção. As mães e tias se ocupavam dos doces e comedorias. E do quentão que cheirava forte na sua mistura de álcool e canela. Era frio. Mas nem se ligava.  Lá fora os guris, dos mais novos de olhares arregalados aos mais velhos, já de olhares moles para as meninas da casa, todos se ocupavam das festas de São João.
O páteo da casa …

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Reflexões sobre a finitude

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Esta vida é uma viagem pena eu estar só de passagem. Paulo Leminski
Não lembro quando tive consciência da morte. Tive o privilégio de só perder pessoas muito próximas quando já estava entrando na adolescência. Meus pais não. Órfãos muito cedo, os dois passaram pelas experiências de privações emocionais e materiais bastante marcantes com muito pouca idade. Aquela idade em que tudo deve parecer magia e encantamento eternos.
Perdi uma gata quando criança. Os bichinhos, dizem, também vem para a nossa vida para nos ensinar lições de transitoriedade. Se vão mais rápido que nós. Lembro do trauma lá em casa com a morte da Bolinha. Morreu em um parto, lembro vagamente de falarem que o veterinário não conseguiu salvar. Todos ficaram tristes. Mas não nos impediu de ter novos gatos e conviver com eles em forma de lúdica entrega amorosa.
Pouco depois, talvez até tenha sido antes, o tempo é uma teia enredada nas memórias do passado, morreu um vizinho. Avô de meu melhor amigo. Nossas casas eram separadas …

Alquimia do afeto

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Nos tempos sectários de agora fica difícil se falar em afetos.  O amor é algo meio incondicional, se exige reciprocidade, deixa de ser amor, vira obrigação. Aceitação.  Não necessariamente engajamento unilateral, mas aceitar o outro em toda a sua complexidade de ideias e convicções.  E apesar de, ainda assim, amar.  Mesmo que não amalgamando totalmente, mesmo que não junto, mesmo que não para sempre. Mas amar. Aceitar primeiramente sem tentar moldar. Sem encaixar a força o que não se molda. Amor começa livre, admiração pela personalidade, um olhar, um raio, um instigamento de luzes. Uma sincronia de momentos. Meteoro. Furacão. Liberdade. Desvir de pré conceitos. Viver de momentos. União. Como as mãos que amassam o barro para formar a cerâmica. Construção. Alquimia de quereres. Querer fazer o amor bonito. Querer construir resiliências de convivências. Moldar peças de intricada teia. Delicada. Tênue. Fogosa teia de possibilidades. Eternas possibilidades. Alquimicamente transformantes. Tu nunca meu. Eu nunca tua. Mas…

Varrendo o que não se gosta

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Limpar desgasta.Resvala verdades roçadas
Pode que arrase sem questão esgote possibilidades Leve à exaustão Esvaziar problemas Espalhando iluminação Empurrando a solidão Impulsionando a dispersão Fazer versos de rima obvia Dissipa os medos Apaga as evidências Desvanece as aparências Tangencia as verdades Despeja as incertezas Expulsa o contraditório Açoita a decência
Vasculhando sinônimos de varrer para ver se entendo a lógica do varrer as circunstâncias indesejadas como quem joga a sujeira para baixo do tapete na vã esperança que ninguém saiba e nunca encontre. 
Cadáveres de antes e de agora varridos como incômodos na versão mais conveniente de uma história de horrores.