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Diário semana 15 a 30/01

 


O Diário Semanal - Elenara Stein Leitão

O DIÁRIO SEMANAL

Reflexões, Arquitetura e Vida - por Elenara Stein Leitão

Semana de 15 a 30 de janeiro, 2026 Porto Alegre, RS

O Tempo, Esse Senhor da Razão

O tempo. Essa palavra mágica que nos define. Tudo é medido por ele. Nossos passos. Nossos atos. Espaços e cidades. O tempo corre e nos deixa de fôlego curto. O tempo para nos momentos angustiantes de espera.

O tempo era melhor em outras eras? Quando mais velhos, olhamos com olhar de lembrança boa e afirmamos que sim. Esquecemos as agruras. Os sobressaltos. As lutas e lágrimas. E ficamos no bom. Em quem ainda não havia partido. Em nossa ingenuidade de acreditar inúmeras possibilidades.

"Minha avó passou pandemia e guerra mundial. Meus pais mais uma guerra mundial e quase quase uma nuclear. Eu mesma vivi hiper inflação. E cá estou. Lembrando com carinho e olhando o amanhã. Que é feito dos hojes. Dos agora."

Hoje em profunda saudade porque 15 de janeiro foi o dia em que minha mãe deu seu último suspiro neste plano. E de mãos dadas comigo. Da menina bonita da foto, à mulher deslumbrante que sempre foi, me fica seu amor pela busca e pelo sentido de viver. E sorrir.

A Cidade e Suas Cicatrizes

No meio do caminho tinha uma placa. Tinha uma placa no meio do caminho. A cidade e suas marcas. O urbano não são planejamentos, edifícios, volumetrias e ruas. São vidas. São pessoas. São árvores conservadas ou relegadas ao abandono.

São decisões políticas e financeiras que tratam do presente e traçam o futuro. E são cicatrizes. Calçadas mal cuidadas. Bocas de lobo sujas. Casarões que abrigaram presos políticos em uma época de triste memória.

"A memória existe para que conheçamos o que passou. Para não repetirmos erros. Para refletir sobre rumos que queremos. Ditaduras nunca mais. Conhecimento e discernimento sempre."

Pensamento & Leitura

Entre Cafés, Águas e Decisões

Decidindo entre um café e um copo d'água ao amanhecer. Tomo os dois. Porque escolhas nem sempre significam optar por um caminho único e esquecer os outros.

Mergulhada na leitura do livro da vez no @oasis.clubedolivro. Temos a dinâmica de não apenas ler e comentar, mas de revezar as apresentações. Nesta semana me cabe a tarefa: Por que pessoas inteligentes cometem erros idiotas?

Bela questão. Fixar apenas num ponto de vista é uma das respostas. Especialistas tendem a ver um problema com demasiada ótica sobre seu saber. E sabe aquela pessoa de fora que vem e do nada aponta algo que a gente nem tinha pensado?

"Abrir a cabeça é importante. Entender os processos em sua plenitude também. Focada em escrever muito. Voltar a escrever muito. Aprender a usar bem a IA sim. Mas sabendo que os melhores resultados sempre virão da mente humana."

Pedalando após o café E a água. Percebendo que a vida é aquele equilíbrio harmônico entre o eu e o nós. E que, vivendo em sociedade, lutar por soluções coletivas sempre será o caminho de um amanhã mais íntegro e eficaz.

Memórias & Heranças

A Chuva e Suas Lembranças

Meu pai costumava dizer que a chuva era uma benção para as lavouras. Bancário que trabalhava com crédito agrícola, via no seu afazer uma maneira de realizar sonhos das pessoas.

Minha mãe gostava de dias de chuva mansa e miúda. Brincávamos que Neruda se tornou poeta por morar em Temuco onde chovia quase sempre.

Minha avó materna tinha medo de tempestades. Escondia espelhos e pratarias e rezava muito. Meu avô, seu marido, levava a filharada para a rua em dias de chuva forte para verem como a natureza é poderosa.

Eu tenho um misto de sentimentos, pessoa solar que sou. Gosto e desgosto. E desse entrevero de heranças e sensações vou tecendo minha colcha de vida.

Solidão e Máscaras

Chove lá fora. "Cada um está sozinho por trás de sua máscara" - leio esta frase em um livro chamado História da Solidão e dos Solitários.

A solidão me encanta e me traz inquietude. Um tema que me atrai pela sua complexidade de entender a alma individual e o nosso papel social. A obra de Georges Minois é um livro de fôlego, quinhentas e tantas páginas.

"Sim, conheço minhas máscaras. Converso com elas e as manejo até por aí. Elas me levam de roldão outras tantas vezes. Interagimos. Nem sempre bem."
— Reflexões sobre "A Armadilha da Perfeição"

Crônica Urbana

Das Pequenas Poesias do Cotidiano: O Sapato e Nossas Contradições

A cidade se nos revela em todos os momentos. Barulhenta, muitas vezes. Apressada quase sempre. Sutil naqueles momentos em que o olhar percebe. Um trabalhador que joga um sapato num canto enquanto limpa o que nunca vai poder ter. Uma porta que se abre, não necessariamente de abrigo nem acolhimento. Um momento do cotidiano.

Um sapato para lutar, como diz o diretor espanhol que citava o cinema, mas tropeçou sem querer em uma metáfora poderosa. Ao dizer que, se o Brasil inscrevesse um sapato no Oscar, todos votariam nele, Óliver Laxe ironizou o que chamou de ultranacionalismo dos brasileiros da Academia.

"Que país contraditório. Se une para defender o sapato em redes sociais. E deixa sapatos jogados na vida real."

Há algo de profundamente revelador nesse movimento. A recente pesquisa do Instituto Conhecimento Liberta escancara essa incoerência com números frios, quase constrangedores. Uma parcela significativa do país se indigna mais com dogmas, frases e símbolos do que com a morte sistemática de pessoas reais.

Corrupção política gera mais revolta do que o fato de sermos o país que mais mata a população LGBTQIA+. Uma provocação religiosa pesa mais do que um corpo eliminado.

Será que fomos treinados para reagir ao que fere abstrações e silenciar diante do que destrói vidas? O moralismo funciona como cortina. Protege privilégios, despolitiza a violência e desloca a empatia para onde ela não exige ação concreta.

"A cidade registra tudo. Ela guarda os sapatos largados, os corpos cansados, as portas que não acolhem. Registra também nossas escolhas simbólicas. O que defendemos com fúria. O que ignoramos com naturalidade."

Reflexões Pessoais

Prioridade e Protagonismo

Mulher burra tem mais que se ferrar mesmo até porque não aprende com as capotadas da vida. Pensava assim naquele tempo fora do mundo em que a verdade assume seu papel mais cruel. O noves fora.

Deixou amigos e ferrou com suas saídas. Que assuma seus erros e suas más escolhas. E transforme esta imensa plantação de limões em limonadas, doces e tudo o mais que a faça feliz.

"Assumir o protagonismo. De novo. E sempre. Amém."

36 Anos nos Separam

36 anos nos separam, jovem Elenara do sorriso largo. Acho que não o perdi no meio do caminho. Os cabelos mais grisalhos. Algumas marcações das rotas percorridas. Algumas burradas. Mais do que gostaria. Outros tantos acertos.

Uma dica: vou aprendendo. O olhar ainda curioso e, de certa forma, entre inquiridor e provocador. O olhar nos acompanha desde o berço. Nossa marca registrada.

"Percorro a vida ainda com olhar de estudante. Com menos certezas e, estranhamente, mais segura. Amadurecer tem disso. A gente fica mais gostosa. Em todos os aspectos."

Poesia da Cidade

A Cidade e o Seu Rio

A cidade e o seu rio.
Ou lago.
Suas águas que encantam
E assustam

A cidade e suas contradições
Tão alegre para alguns
Tão triste para tantos

O sol não nasce igualmente
A vida feita desta transição
Entre a realidade
E a poesia

Violências & Contradições

Entre Mortes Horrendas e Benevolências Seletivas

Entre acordos e prejuízos corremos da vida. Abalados por mortes horrendas. Pessoas e animais. No país polarizado onde vivemos, as mortes horrendas de animais chocam até mais que as humanas, por mais horrendas que sejam.

Talvez porque quase todos nos enternecemos pelos bichos que confiam e não podem se defender. Que sociedade é esta onde é diversão machucar? Onde é permissível torturar desde que o endereço seja bem posto na vida. Tal que permita ter bons advogados e viagens de recreio. Aí vira travessura. Coisa de menino desmioldado.

Fosse menino de comunidade, desses que nascem sem eira nem beira, esses já tinham sido mortos, no afã de justiça que permeia um país onde ainda impera o olho por olho, dente por dente. Para alguns. Para outros as benesses. O olhar benevolente.

"Em um primeiro momento os dedos acusam. Mas querem apostar quanto, em segundo momentos, o coração se abranda. Tão parecido com os nossos. Não tem cara de bandido. É tudo gente de bem em um país que confunde conta bancária com meritocracia."

E seguimos matando os guaipecas da vida. Os vira latas. Os que ousam divergir. As mulheres.

Cultura & Participação

Contação de Histórias e Memória Afetiva

Bela mesa do XI Fórum Social Mundial da População Idosa que está acontecendo em Porto Alegre. Vou ter a responsabilidade de substituir a @gracegomes e falar do seu lindo artigo no segundo volume do Metamorfose da Vida que trata dos contos adaptados às pessoas idosas.

Entre a ansiedade de participar de uma mesa tão farta de pessoas incríveis, fico pensando sobre o papel dos contos e cantigas na minha vida. E em como foi uma maneira de comunicação com minha mãe quando o Alzheimer foi enfraquecendo a fala e a cognição.

"Cantar as músicas que ela cantava para mim. Recontar as histórias que ela contava quando eu era criança, mobilizando uma memória afetiva que fazia seus olhos brilharem por instantes. Porque como disse uma tia que teve o mesmo mal: 'o amor, minha filha, não se esquece.'"

E como será que uma arquiteta vai adaptar algum desses contos para a sua área? Amanhã saberemos.

Encerramento

Encantada pelas Formas da Natureza

Encantada pelas formas da natureza
É matemática pura
E poesia também

A intrincada poética da natureza de fazer e refazer a vida,
sua teimosa luta de continuar existindo,
me fascina.

Boa sexta. Hoje dia de contação de histórias no XI Fórum Social Mundial da População Idosa onde, espero, poder representar bem a amiga @psicologia.humanismo

Cada um de nós cria suas versões e muros.
Cada um de nós é universo de coexistências.
Somos. Seguimos.

Acompanhe mais reflexões em:

Blog Arquitetando Ideias | Elenara Elegante | Substack Memórias do Nono Andar

Coletivo Metamorfose da Vida

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