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Mostrando postagens de Junho, 2019

No tempo da delicadeza

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Tecia migalhas de palavras ao vento. Tudo parecia desencaixado por magia. Não dessas magias suaves, que criam teias de leveza. Magias das mais estranhas, que tornam o cotidiano um palco de peças de irreconhecível enredo. As saudades de tempos eternos se fazia presente.  Um ontem em que, se não havia certezas, os caminhos pareciam mais plausíveis.  Ou mais serenos. No tempo da delicadeza se podia ler com calma, rir de piadas sutis. A sutileza existia naqueles tempos idos. Até a ironia não precisava ser explicada! Havia quem a entendesse em um piscar de olhos. As palavras eram mais harmoniosas. As narrativas, mesmo as contraditórias, eram como peças de uma sinfonia que se afinava em crescente tensão para desembocar em um gran finale que apenas demandava aplausos e bravos. E acenava com outros grandes musicais. Não eram uma mistura desafinada de sons que não se completam em uma grosseira manifestação que se poderia chamar de tosca. Não! Não a ópera! Tosca de pouco zelo, ínfima qualidade. Tosca de…

Poetas suicidas - exercício de inspiração em poemas

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Uma tarde entre poetas, sabendo de outras poetas, duas mulheres incríveis que escolheram sair da vida na hora que quiseram. 
Suicidas. Tema espinhoso. Sendo a vida tão fantástica e vendo mulheres tão corajosas para viverem suas verdades, enfrentando mundos e sociedade, fica mais complexo pensar que elas abdicassem dessa mesma vida que tanto viveram em intensidade. 
Quem há de entender os desvios da alma alheia? Quem há de apontar qual o melhor caminho para outros. Uma vez li uma máxima que dizia: posso ver tua ferida, não posso sentir a tua dor. Por mais empatia que tenhamos, ninguém vive a intensidade do sentir do outro. 
Fico pensando nas vidas de Alfonsina Stornie Florbela Espanca, as poetas explanadas. Talvez o sentir tão diferente do comum , as tenha afastado do caminho socialmente mais aceito. Talvez...as respostas só elas tinham. 
Pensar sobre me faz pensar sobre todas as mulheres, sua sina, suas rotas e suas narrativas. Me faz pensar na minha própria história. Para isso servem as …

Das amigas que a Vida me trouxe

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Brasília, 1970. Para a adolescente que chegava de Porto Alegre, aquela cidade chuvosa parecia em tudo diferente. O primeiro apartamento em uma quadra cheia de barro, fez minha mãe chorar de saudades de sua casa conhecida. Quase que nossa aventura brasiliense terminou ali. Mas não.
Logo um novo apartamento, imenso, cheio de janelas. Entrei e corri para elas, coisa que sempre faço até hoje. Preciso ver a rua, ver o universo que se esconde lá fora. Era um novo mundo. Eu tinha quase 13 anos.
Da janela de baixo uma menina fez a mesma coisa que eu. E por uma dessas forças de energia, ao mesmo tempo em que olhei para baixo, ela olhou para cima: era a Luiza.
Maria Luiza, carioca, recém chegada como eu. Um ano mais nova. A loira como seu pai a chamava. Duas covinhas sorridentes e uma alma aberta pisciana. 
Não lembro como começamos a conversar. Mas recordo como nunca mais paramos. 
Eram encontros na quadra, uma dormia na casa da outra. Trocávamos sonhos e confidências. Lembro que meus pais a adorav…

Notícias da guerra e o destino de Laura

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Já se disse que as mulheres enxergam as guerras com uma outra visão, muito diferente da masculina. Se para os homens, lutar significa honra e coragem, para as mulheres significa muito mais mortes,  violação e perdas. Por isso perceber a história de grandes guerras pelas palavras de uma menina que vai se tornando mulher, nos propícia uma outra abordagem para um período tão intenso da história da humanidade. 
Laura, uma jovem do interior gaúcho, nascida em uma família abastada e gozando de todas as benesses que isso acarreta. 
Laura e sua família com histórias e roteiros traçados, aqueles que fazem as regras, ou pelo menos nao  as tem que cumprir ao pé da letra.
Laura e suas amigas, vivendo novas emoções, crescendo e aprendendo a prosseguir a sina das mulheres que enfeitam e não lutam.
O mundo à sua volta mudando. As relações econômicas ruindo. As ambições políticas lá em outro lado do mundo tendo repercussões em suas vidas tão prosaicas.
O mundo pequeno onde as teias se traçam e entrelaçam c…

Puta feminista

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quando uma mulher se dá conta que tem direitos, todas as mulheres ganham - Monique Prada Duas palavras que por si só causam polêmica. Muitas vezes servem de xingamento porque onde já se viu essas mulheres que ousam não apenas falar, mas exigir direitos? E respeito.

Respeito falando de putas? Como assim se na nossa concepção de sociedade elas são como a Geni do Chico, servem para aplacar os ardores dos guerreiros, mas passados esses momentos, são boas mesmo para apanhar.

Há uma intensa contradição na própria palavra puta. Se por um lado como substantivo feminino ela é, em geral, usada como um termo pejorativo. E aí não faz muita distinção entre as profissionais ou as leigas. Basta um passo fora do roteiro traçado entre as pecadores e santas, e logo vem o epíteto que chega como marca do que não presta aos olhos de uma sociedade machista: puta! Por outro lado, também é usada como adjetivo de algo imensamente bom: um puta cara! Interessante que nesses casos, o adjetivado é em geral homem.…

Evanescer com a vida na vazante

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Havia algo estranho nos caminhos que se bifurcam. As palavras, antes tão presentes e sorrateiras, estavam mais distantes. Pareciam aquelas amigas com as quais se perde o contato, vão sumindo, se perdendo na bruma dos tempos. Quando se vê, nosso vocabulário se empobrece e fica restrito aos mesmos e velhos termos.

Prosopopeias e que tais se tornam apenas figuras de linguagem, já quase sem significado. Queria gritar coisas belas, mais que isso, queria vociferar bravamente angústias e vitórias. Que ficassem na intenção. Tudo era tão devagar agora.

Seu tempo era de esperas. Tentava abarcar o mundo com seus inúmeros tentáculos e já não sabia como. Seus braços eram pequenos, já não tinham a força de antigamente.

A mesma casa, a mesma janela, outro sol, mas lembrava tempos de antes. Já vivera esse tempo. A imensa roda da vida girava fazendo de conta que era nova. Mas não era. A menina que chegara naquela cidade, cheia de vontades, ainda morava nela. As mesmas inquietudes. As mesmas e velhas inde…