Leituras de minha mãe - como me tornei mais leitora

A biblioteca de minha casa sempre foi algo fascinante. Para as condições econômicas de meus pais, que não eram absolutamente ruins, mas que também não eram exuberantes, os livros sempre foram artigo de primeira necessidade.

Machado de Assis convivia com Stendhal numa boa. E até Cassandra Rios dava suas caras por lá. Obviamente que não nas estantes ao nosso alcance. A danadinha ficava na mesinha de cabeceira de meus pais e creio que, como fomos criados com respeito à privacidade alheia, eles achassem que a gente pequena não ia xeretar.

Eu xeretava. E lia aquelas coisas proibidas com menos de dez anos. Para uma guria que cresceu com a lenda familiar de ter lido a Divina Comédia com essa idade, que mal faria uma sacanagenzinha de vez em quando.

Não, eu não li a Dante com essa idade, li apenas um resumo da Divina Comédia que devia estar em uma alguma das enciclopédias que meu pai amava comprar também. 

Assim cresci entre o inferno e o paraíso, de Alighieri a Rios, passando por Monteiro Lobato e Andersen. Acho que foi uma boa educação.

Minha mãe também lia bastante. Os dois tiveram pouco ensino formal, mas eram absurdamente autodidatas. Essa inteligência e busca intelectual os marcou como casal toda a vida. Eles adoravam conversar. 

Era uma conversa boa, fluída. Sobre tudo se falava em nossa casa: de filosofia à política. De história à geografia. De quadrinhos Disney à almanaques de padaria. Tudo era motivo de curiosidade e para tudo se tinha um livro para buscar a resposta. As palavras nunca ficavam sem definição. Se alguma não se sabia, logo um dos amança burros vinha nos auxiliar. Tinha um desses dicionários que era especial. Minha mãe o usava para fazer as complicadas palavras cruzadas que eram objeto de concurso no antigo Correio do Povo, quando ainda era um jornalão que se desdobrava e ia para o banheiro com todos. Quando ia acabar numa época, se especulou se haveria uma crise de constipação no nosso estado.

Mas como eu ia dizendo as leituras de minha mãe eram todas voltadas ao descobrir a mente: coleções de Krishnamurti, pensador indiano se mesclavam às biografias do Dr Albert Schweitzer, um médico alemão que foi trabalhar com populações carentes no Gabão. Graças às leituras dela,  Lambaréné se tornou um nome conhecido para mim. A China e seus mistérios eram descritas para a menina de Porto Alegre por Pearl S. Buck. Mais tarde conheci aquele que se tornou Osho, mas que ainda era Bhagwan Shree Rajneesh na época em que minha mãe, para tratar uma coisa que mais tarde ficou conhecida como ataques de pânico, foi fazer ioga. Ela nos fazia inveja colocando o dedão do pé no nariz enquanto eu brincava que enquanto ela fazia OMMMM e cantava mantras, o pai continuava esbanjando luz solar sem precisar de remédios para pressão. O que morreu sem saber o que eram...

Antes também aprendi com ela que a chuva miúda pode ser linda em sua mansidão e que foi com muita água caindo que o jovem Pablo carregou sua Temuco em sua alma de poeta ao se tornar o grande Neruda. 

Leituras aqui em casa eram como cachaça, pão e combustível. 
Se lia para se viver.
Os livros nunca foram obrigação, antes eram mundos que nos eram ofertados (ou escondidos como a Cassandra) para que nossos olhos, mentes e corações os pegassem como velhos amigos. E com essa imensa camaradagem que os faz até hoje, melhores amigos que reconfortam nossas almas.      

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