No tempo da delicadeza

Tecia migalhas de palavras ao vento. Tudo parecia desencaixado por magia. Não dessas magias suaves, que criam teias de leveza. Magias das mais estranhas, que tornam o cotidiano um palco de peças de irreconhecível enredo.
As saudades de tempos eternos se fazia presente. 
Um ontem em que, se não havia certezas, os caminhos pareciam mais plausíveis. 
Ou mais serenos.
No tempo da delicadeza se podia ler com calma, rir de piadas sutis. A sutileza existia naqueles tempos idos.
Até a ironia não precisava ser explicada! Havia quem a entendesse em um piscar de olhos.
As palavras eram mais harmoniosas. As narrativas, mesmo as contraditórias, eram como peças de uma sinfonia que se afinava em crescente tensão para desembocar em um gran finale que apenas demandava aplausos e bravos. E acenava com outros grandes musicais.
Não eram uma mistura desafinada de sons que não se completam em uma grosseira manifestação que se poderia chamar de tosca.
Não! Não a ópera! Tosca de pouco zelo, ínfima qualidade.
Tosca de imoral porque assim o é a mediocridade.
Sempre imoral e vulgar.
Nos tempos da sutileza se podia sonhar com generosidade e entendimento mesmo entre as almas que pensavam diferente. 
A poesia poderia ser um elo comum.
Uns pensando assim, outros assado, mas unidos em uma harmoniosa crença em vidas conjuntas construindo obras que perduram.
Nos tempos da delicadeza havia a esperança do infindo. 
Tentar tecer palavras onde as peças estão mal traçadas é um trabalho insano.
Resta a esperança das tecedeiras: homens, mulheres e crianças que continuam sorrateiramente erigindo belezas, levezas e delicadezas porque sabem que as trevas nunca perduram.  
     

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