Puta feminista


quando uma mulher se dá conta que tem direitos, todas as mulheres ganham - Monique Prada
Duas palavras que por si só causam polêmica. Muitas vezes servem de xingamento porque onde já se viu essas mulheres que ousam não apenas falar, mas exigir direitos? E respeito.

Respeito falando de putas? Como assim se na nossa concepção de sociedade elas são como a Geni do Chico, servem para aplacar os ardores dos guerreiros, mas passados esses momentos, são boas mesmo para apanhar.

Há uma intensa contradição na própria palavra puta. Se por um lado como substantivo feminino ela é, em geral, usada como um termo pejorativo. E aí não faz muita distinção entre as profissionais ou as leigas. Basta um passo fora do roteiro traçado entre as pecadores e santas, e logo vem o epíteto que chega como marca do que não presta aos olhos de uma sociedade machista: puta! Por outro lado, também é usada como adjetivo de algo imensamente bom: um puta cara! Interessante que nesses casos, o adjetivado é em geral homem. Mais difícil se elogiar uma amiga dizendo que é uma puta mulher...

Dito isso, passamos ao livro. Sim porque é este o título do livro de Monique Prada que fala sobre as prostitutas, seu trabalho e sua busca por reconhecimento profissional.

Conheci a Monique há um belo par de anos. No twitter, não lembro bem quando, acho que era 2007 porque eu estava no hospital, acompanhando a mãe e por isso não pude conhece-la pessoalmente naqueles tempos. Me relacionei virtualmente com um monte de gente bacana nessa época efervescente. E das mulheres incríveis da rede, algumas se destacaram. A Monique era uma delas. Um avatar que não revelava seu rosto, uma opinião inteligente e um senso de humor afinado. Nada sabia de sua profissão nessa época. E se posso contar algo engraçado foi que, quando comecei a ver os check-ins dela em motéis, achei que trabalhava com materiais eróticos. No meu roteiro de mulher de família e dentro dos meus pré conceitos nunca imaginei que uma mulher tão inteligente poderia ser uma Garota de Programa. Aprendi com ela que isso era eufemismo de puta. E acompanhei pelas redes a sua trajetória de começar a se expor mais, a batalhar por suas companheiras, a definir rotas de luta e a dignificar um trabalho tão estigmatizado.

Antes mesmo de ler o seu livro, aprendi com ela a trabalhar muitos de meus olhares sobre as profissionais do sexo, a repensar valores e ter uma visão mais ampla sobre uma realidade que ainda desconheço. Desconheço um pouco menos, graças à Monique.

Sobre o livro: Não esperem histórias picantes nem arrependimentos e/ou conversões que remetam à uma conveniente retomada de um caminho de retidão que toda mulher deveria seguir, na concepção de muitos. O livro fala de sua trajetória sim, mas fala e muito bem, de ativismo, de luta por reconhecimento e por respeito ao trabalho.

Tudo isso muito bem embasado por muita leitura, muito conteúdo e muita análise prática. Não é um livro raso. Ao contrário, ele é obra de uma mulher que pensa, sente e reivindica. E uma mulher que luta pelo coletivo e não apenas por um caminho individual.

Recomendo a leitura, até para que a gente possa tomar conhecimento de outros mundos, as vezes tão distantes dos nossos, mas que no fundo não. Toda luta de mulheres é uma luta conjunta.

Putas nos sentimos muitas vezes. Putas da cara quando nos ignoram. Putas da vida quando nos fazem sentir menos do que podemos. Putas nos chamam quando externamos desejos além do convencional. Putas nos chamam quando nossos filhos fazem algo que desagrada. Putas nos chamam nos momentos de embates amorosos mais sacanas.

Putas chamamos outras mulheres que alugam seu tempo para nossos homens gozarem. Putas chamamos e jogamos pedras, sem parar para pensar que putas são mães, avós, esposas, mulheres. Tem nome, identidade, histórias. São trabalhadoras que prestam um serviço à sociedade e são desprezadas exatamente por isso.

Um livro para pensar. E muito bem escrito. Para os que concordarem e os que não concordarem. Porque mesmo para rebater, é preciso conhecer. Com coragem e honestidade. E isso o livro da Monique tem de sobra.

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