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Mostrando postagens com o rótulo Resenha

Os Velhos - romance sobre as metamorfoses da vida

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  Acompanhar as histórias de dois irmãos, Pedro e Maria, já na casa dos 80 anos, com suas vivências, dores e descobertas foi o meu programa desse fim de semana. Uma viagem proporcionada pelos protagonistas do primeiro romance de Adeli Sell, amigo e companheiro na construção de livros e de propostas para um envelhecimento com propósito, desenvolvidas no Coletivo Metamorfose da Vida e no Movimento Sociedade sem Idadismo. Tive o privilégio de ler os passos iniciais dessa ideia. Ao ler a obra concluída pude perceber como o Adeli conseguiu mostrar os debates e vivências que temos aprendido com pessoas, relatos sobre a solidão do envelhecer, agravadas pelas ausências muitas vezes dos (e de) filhos. A preocupação sobre quem vai cuidar de quem envelhece. Também como o sopro da convivência intergeracional pode ser saudável para todas as idades. Tudo isso ao mesmo tempo em que se viaja por cidades e espaços reais através da visão dos personagens. Uma prosa leve e precisa que flui com natura...

Vergonha, memória e aprendizado

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Acordo madrugadas em pleno processo de desintoxicação de navegação virtual a esmo e duas coisas me penetram a mente. Uma, a leitura de um artigo de Helena Terra, Um copo de vergonha , que descreve a vergonha como um sentimento extremamente complexo, capaz de criar silêncios que evitam o reconhecimento de atos indignos e, assim, dificultam qualquer remorso ou reparação. Esse silêncio não é apenas ausência de fala; é uma forma de distorcer a memória, de manter inertes danos que, de outra forma, poderiam ser reparados. Fico a pensar em minhas próprias vergonhas e nas dos tempos sombrios que ora vivemos, quando narrativas de luta por direitos humanos, proferidas por notórios detratores destes, chegam a causar engulhos pela distorção de atos e fatos sobejamente conhecidos, até porque vivenciados em minha história e na história de nosso país e do mundo. Sigo a saga da noite com a leitura de Nada será como antes , romance de Andreia Schefer , recém-iniciado dias atrás. É uma leitura que atra...

O Resgate da Obra de Archymedes Fortini por Adeli Sell

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Resgatar a obra e as crônicas do jornalista Archymedes Fortini é o tema central deste livro , escrito por Adeli Sell, professor, escritor, político e profundo conhecedor de Porto Alegre, sua história e suas potencialidades. Adeli, que teve o privilégio de conhecer Fortini pessoalmente e era amigo de suas netas, se encantou ainda mais com a rica trajetória do jornalista ao se deparar com o Largo Archymedes Fortini na cidade. Intrigado pela figura quase esquecida de Fortini, mergulhou em sua história, reconhecendo sua relevância para Porto Alegre e decidindo compilar suas crônicas em um livro que busca resgatar sua memória e apresentar sua obra a um novo público. Quem foi Archymedes Fortini? Filho de imigrantes italianos, nascido no continente africano, Archymedes se destacou como jornalista, cronista e benfeitor da capital gaúcha. Adeli nos oferece pinceladas da biografia e da atuação deste jornalista que marcou época no Correio do Povo , onde trabalhou por impressionantes 65 anos. Ele ...

Coisas da Arca da Velha - Celebrando a Maturidade e os Tesouros da Vida

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Coisas da Arca da Velha não é apenas um livro. É uma conversa íntima, uma mão estendida que nos convida a explorar os pequenos grandes tesouros acumulados ao longo de uma vida. Escrito por Regina Freitas Silveira, esta obra é um hino à maturidade feminina, um resgate das memórias, reflexões e histórias que habitam cada mulher que viveu intensamente. Logo ao abrir suas páginas, somos recebidos por uma arca repleta de versos, narrativas e reflexões que parecem falar diretamente ao coração. A proposta da autora é clara: transformar experiências de vida em poesia e convidar suas leitoras a fazerem o mesmo. Com uma estrutura fluida e sem regras rígidas, o livro incentiva o leitor a mergulhar nos textos de maneira intuitiva, como quem vasculha um baú antigo e encontra relíquias inesperadas. Regina escreve com uma linguagem que é ao mesmo tempo poética e acolhedora, trazendo humor e sensibilidade para temas complexos como o envelhecimento, a perda e a autodescoberta. A arca que ela nos apre...

Enchente: Uma coletânea em prosa e verso — Uma reflexão poética sobre dor, esperança e resiliência

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Quando as águas invadem, arrastam mais do que casas e bens materiais. Elas levam memórias, sonhos e, em muitos casos, a segurança emocional das pessoas. Mas, paradoxalmente, também deixam marcas de solidariedade, resiliência e uma vontade inabalável de reconstruir. É exatamente essa dualidade — o dilúvio físico e emocional — que "Enchente: Uma coletânea em prosa e verso", da Editora Bestiário, captura de forma magistral. Com uma linguagem ora poética, ora visceral, esta obra é mais do que uma homenagem à tragédia das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024. Ela é uma carta aberta às dores da humanidade e um grito de alerta contra o descaso que permitiu que essas águas se tornassem tão avassaladoras. Em cada conto, crônica e poema, os autores dão vida a um mosaico de sentimentos e reflexões. Alguns textos mergulham na devastação: as águas invadindo espaços íntimos, transformando o cotidiano em ruínas. Outros exploram as histórias de resistência, as mãos que se est...

A moça da limpeza de Lindevania Martins

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  Entrei no edifício onde faço pilates meio apressada, meio ofegante com o dia que se fazia quente no início do outono. Ouvi uma senhora entrando um pouco atrás e obviamente segurei a porta do elevador. A moça da portaria, imediatamente levantou de sua cadeira e veio segura-la, como sempre faz quando eu chego. Não raras vezes abre a porta para que eu entre, naquela gentileza de prédios comerciais. Agradeço e a senhora que entrava veio se juntar e subimos. Ela para em andar baixo, me olha através da máscara e me diz em voz ressentida e sibilante: " Ela abriu a porta para ti. Para mim  nunca o faz. Deve ser porque sou pobre. E tu deve ser rica. " E saiu, me deixando muito pensativa. Nada nela indicava uma pessoa em andrajos. Nada em mim indicava uma pessoa finamente arrumada. Mas havia uma diferença social que nela se traduzia por um tratamento desigual, menos respeitoso, menos educado, quase como se fosse transparente. Ou menos. Um zero a esquerda que não merece uma deferência...

Bonequinha de lixo e qual é mesmo o papel da mulher?

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  "em que espelho ficou perdida a minha face?" Cecília Meireles "Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada." Hilda Hilst Não a toa reuni uma série de leituras das décadas de 70/80 com o recente livro da escritora gaúcha Helena Terra. Mais tarde lhe digo o porquê. Bonequinha de lixo me enganou. Comecei a ler o livrinho com aquela malemolência que as frases, aparentemente leves, me indicavam ser uma leitura amena sobre o universo de uma menina com suas descobertas de mundo. Nada mais enganoso.  O livro é breve mas nada tem de superficial. Me senti como mergulhando em um jogo de relações (usando a expressão que Leonardo Boff usa para o universo) em que existe um crescente de percepções, vistos pelo olhar, ora inocente, ora irônico de uma guria que se percebe em um emaranhado de vivências, contradições e complexidades. Denso.  Um buraco negro que capta as nuances das relações que, não apenas envolvem a protagonista e sua família, mas enredam ...

Fui ver a Lua

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A Lua me fascina, eu que sou solar desde sempre. A ambiguidade entre a escuridão envolvente me carrega de viagens ao mistério. A poesia me envolve. Não é minha praia mais confortável, mas é nela que me encontro nos momentos mais intensos e é ela que me recarrega de energias de vida. A Eliana Ada me conquistou desde muito. Amiga dos tempos dos encontros de gateiras nos fotologs da vida, é dessas pessoas que ainda não conheço pessoalmente, mas que me mandou cartões a mão em plena era digital. É intensa e poeta. Militante e artesã. Amante dos animais e lutadora pelas causas sociais. Ambas amantes da lua. Nesse seu livro de poesias, encontro a vida através da Lua. São poemas de garra, são reflexões cotidianas, são pulsões de vida regidas pela dama prateada das noites e dias em que vivemos nossas vidas neste planeta terceiro que gira ao redor do sol.      Poesia para mim tem momento e ritual. Não é leitura de todo dia. E a cada vez que a leio, sinto de um jeito diferente. Tipo...

O Outro Lado da Ponte - leituras de 2021

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Voltei no tempo.  Penso que a leitura nos faz essa magia, é um portal onde mergulhamos e reencontramos passagens que nos marcaram. É o que senti lendo a novela que Vera Ione Molina escreveu no final da década de 90, deixou naquele limbo que os criadores reservam para suas obras enquanto não as consideram prontas para conviver com mais voragens. No ano surreal de 2020, que nos brindou com tantas reflexões, o livro afinal deixou de ser particular e veio para nós, leitores.  Enquanto escrevo e tomo mais um cafezinho, nesse início de 2021 em Porto Alegre, ouço Nico Nicolaiewsky cantando que assim quer lembrar de nós...é como se fizesse uma ponte para outras épocas, tão diferentes, tão parecidas, de uma época de inquietações políticas, afetivas, comportamentais. Uma época onde um vírus surgia e mudava comportamentos. Um mundo onde sentimentos e dúvidas individuais formavam intricadas (e simples) emaranhados de vidas cruzadas em uma ópera de incertezas. Li o livro de ...

Upload - dinheiro é o preço do amanhã?

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Nesses novos tempos de buscar a vida pelos meios virtuais, impossível não pensar nas complexas relações que os modernos meios tecnológicos nos permitem. Podemos não apenas interagir com outras pessoas, como abastecer a casa, trabalhar e ate amar pelas telas das realidades digitais. Imagine então se essas possibilidades se estendessem além da vida. É o tema da série de ficção da Amazon Prime chamada Upload. Passando em um futuro próximo, 2033, onde as pessoas podem, se tiverem meios financeiros, transferir seus dados de sua cabeça para um servidor. Ou seja, fazer um upload de sua consciência para um avatar criado digitalmente e viver eternamente em belos espaços de consumo, deleite e avaliações. Uma vida pós vida que em tudo se assemelha à real. Parece um perfeito paraíso onde as necessidades são satisfeitas com um apertar de botoes. Mas o que há por trás disso? Qual o preço real a pagar? Fique tranquilo, não darei spoilers , mas direi que ver essa série me lembrou um filme chamado ...

Longe de mim e fora dos trilhos

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Escrevendo para fazer sentido, Lindevania Martins, transcende seu mundo e descreve o universo feminino com uma mistura de crueza e poesia. Desde sempre seus escritos me cativam pela musicalidade das palavras. Com Longe de Mim , um conto que participa de uma coleção Brasil/Argentina e Fora dos Trilhos , poesia do mulherio das letras, não é diferente. Ela transita entre a prosa e os poemas com a delicadeza das mulheres que se constroem com firmeza e doçura. Fora dos Trilhos   Um livrinho. Não Um livro que traz densidade Das pílulas de memória para épocas de desamor às microssagas microfônicas que brincam com as palavras iniciadas com a mesma letra "dos fantasmas que matei  não guardo remorsos uma ou outra faca e nada mais"   Da poesia da Lindevania, mulher maranhense  atuante, defensora, escritora não se espere a rima fácil nem a candura da feminilidade clichê Ela nos oferece armas lutas escaramuças paixão feito carne e ...

Nenhum espelho reflete seu rosto - indicação de livro

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Uma leitura inquietante. Não pela escrita que é absolutamente leve e de fácil leitura, mas pelo assunto que mexe com aquele sentimento mais caro à maioria dos seres humanos: confiança.  A história de Nenhum espelho reflete seu rosto , romance de Rosângela Vieira Rocha , passa em um ambiente muito conhecido de todos nós: as redes sociais e o seu aparente meio de facilitar conhecimentos. A protagonista é uma mulher madura, profissional criativa e realizada. Uma joalheira. Helen conhece um homem interessante em uma rede. Conversam escudados pela cumplicidade de uma tela que traz o desconhecido para dentro de nossas casas e nossa intimidade. E aí começa o drama. Na verdade, quando começamos a leitura, Helen se encontra já em processo de recuperação do que apenas vislumbramos, mas ainda não sabemos de todo. Sabemos que deixou marcas. Profundas marcas. A í se deu meu primeiro engate pessoal com a história. Dizem que um livro se faz do que o autor imagina e também do que o leitor ...

Tudo que morde pede socorro

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Ler Cinthia Kriemler é um ato ao mesmo tempo desafiante pela sua temática, mas também fascinante pelo envolvimento com que suas frases e palavras bem construídas vão nos enredando em uma armadilha de aprisionamento. Deleitoso aprisionamento.  A começar pelo título altamente instigante: tudo que morde pede socorro. Só ele nos leva a pensar muito no significado. As carências que geram violências, as rudezas que escondem chamamentos. A sina do ser humano de ser único e ao mesmo tempo gregário. E nem sempre saber lidar com isso com a devida tranquilidade. Tranquilidade não é o que se vai achar neste livro. Sua diagramação já nos mostra a ideia de grilhões que são arrebentados. Uma alforria que se conquista, nunca uma dádiva.  Quando recebo um livro, meu processo de leitura é altamente sensorial. Primeiro eu o namoro. Mentira, antes de tudo, eu sinto um prazer sensual pelo embrulho do correio. É como se o abrir fosse desnudando um ser, um reconhecimento que se...

Notícias da guerra e o destino de Laura

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Já se disse que as mulheres enxergam as guerras com uma outra visão, muito diferente da masculina. Se para os homens, lutar significa honra e coragem, para as mulheres significa muito mais mortes,  violação e perdas. Por isso perceber a história de grandes guerras pelas palavras de uma menina que vai se tornando mulher, nos propícia uma outra abordagem para um período tão intenso da história da humanidade.  Laura, uma jovem do interior gaúcho, nascida em uma família abastada e gozando de todas as benesses que isso acarreta.  Laura e sua família com histórias e roteiros traçados, aqueles que fazem as regras, ou pelo menos nao  as tem que cumprir ao pé da letra. Laura e suas amigas, vivendo novas emoções, crescendo e aprendendo a prosseguir a sina das mulheres que enfeitam e não lutam. O mundo à sua volta mudando. As relações econômicas ruindo. As ambições políticas lá em outro lado do mundo tendo repercussões em suas vidas tão prosaicas. O m...

Puta feminista

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quando uma mulher se dá conta que tem direitos, todas as mulheres ganham - Monique Prada Duas palavras que por si só causam polêmica. Muitas vezes servem de xingamento porque onde já se viu essas mulheres que ousam não apenas falar, mas exigir direitos? E respeito. Respeito falando de putas? Como assim se na nossa concepção de sociedade elas são como a Geni do Chico, servem para aplacar os ardores dos guerreiros, mas passados esses momentos, são boas mesmo para apanhar. Há uma intensa contradição na própria palavra puta. Se por um lado como substantivo feminino ela é, em geral, usada como um termo pejorativo. E aí não faz muita distinção entre as profissionais ou as leigas. Basta um passo fora do roteiro traçado entre as pecadores e santas, e logo vem o epíteto que chega como marca do que não presta aos olhos de uma sociedade machista: puta! Por outro lado, também é usada como adjetivo de algo imensamente bom: um puta cara! Interessante que nesses casos, o adjetivado é em ger...