A calça rasgada no frio

Fez frio em Porto Alegre. Um dia, neste inverno em tudo atípico. Não bastasse o mundo parecer muito bizarro atualmente, com pessoas defendendo ideias de terra plana e não tomar vacinas, o clima também não parece ajudar. 

Morar em uma região meridional de um país tropical e bonito por natureza (é automático, a música sai sem eu sentir, do tempo que o Jorge era só Bem) sempre teve a vantagem de saber o que eram quatro estações bem definidas. Calorões imensos nos verões, frios intensos no inverno, intercalados por ventosas primaveras e chãos de folhas coloridas nos outonos. Este ano não. Embora tenha esfriado um pouco, ainda é meio verão. Usar mangas curtas em pleno final de junho é muito esquisito. Só não estou de sandálias porque pé branco ninguém merece. Se começaram a rir é porque nunca viram um pé branco gaúcho nos meses invernais.

Mas fez frio no meio da semana. Quarta feira para ser mais exata. Me chamou a atenção que, cedo da manhã, fazendo tipo 6 graus centígrados, me passa em uma avenida central, uma jovem de bicicleta. Toda protegida. Gorro, luvas, casacos, cachecol e calça jeans com um joelho de fora. Essa moda poor rich onde se paga uma fábula para parecer pobre e desleixado. Ou rebelde. 

Meu pensamento voou para um passado já bem distante. O início da comercialização das calças jeans rasgadas. Sim, porque antes, nos anos 70, a gente nem tinha calças jeans no Brasil. Tinham as de brim curinga. As mais descoladas vinham da zona franca de Manaus. A gente chamava de calças Lee. Ou de alguém que fosse para fora e trouxesse na bagagem. E não, não era muito comum as pessoas viajarem para o exterior. Por exterior leia-se EUA e Europa. Era uma coisa para gente com bastante grana ou para aventureiros que iam mochilar por lá. E quando voltavam, cheios de histórias, eram vistos como desbravadores ousados.

As calças eram customizadas em casa. As mães abriam rasgos e colocavam pedaços de panos para fazer as patas de elefante. Os colegas escreviam frases e assinavam e as bainhas eram deixadas em frangalhos ao caminhar. Os antigos corpinhos bicudos tinham sido já traduzidos para soutiens e tirados fora em gestos de rebeldia. A moda era não ter peito justamente para não precisar usar aquelas peças arcaicas.

Os anos 80 já mudaram a rebeldia para o foco no trabalho. Novos ares no país, uma inquietação por mais liberdade se fazia notar. A antiga rebeldia caseira foi assimilada pelo mercado. E surgiram as calças rasgadas. 

A primeira vez que as vi foi em um anúncio na revista Nova. Sim, era o tempo em que eu lia a revista Nova e queria muito saber receitas de como conquistar um namorado, manter um romance e ser uma mulher sedutora. Ao mesmo tempo em que lia o relatório Hite e o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. Luiza Brunet surgia nos anúncios de uma marca de jeans chamada Dijon. E as fotos da jovem de seios desnudos abraçada ao dono da empresa iam causar celeuma nos nossos tempos mais engajados. Mas aparentemente ninguém se chocava nos anos 80.
Nos cinemas a porno chanchada corria solta, a mulher mais linda do Brasil era transgênero e na TV uma série mostrava uma mulher namorando dois homens. O país conservador se escondia em uma aparente liberdade de costumes que não havia na vida política e social.

Mas a calça rasgada me ficou marcada por uma conversa com uma empregada da praia. Seus filhos tinham crescido com os filhos do antigo patrão, homem de posses e cultura. Enquanto pequenos, as diferenças não se faziam tão notórias. Mas na adolescência, quando os caminhos se bifurcam, aconteceu esse fato que vou narrar. 

O filho do homem rico deu de presente ao filho da empregada uma calça jeans de aniversário. Ela veio me contar, bastante estarrecida, que o jovem ficara muito magoado porque, imagine! o amigo lhe dera uma calça rasgada! Dessas que nem se põem no lixo, quanto mais se dá para alguém! Quando lhe assegurei que era moda e que os ricos não só usavam essas calças, como pagavam caro por elas, ela não acreditou. Soltou um CAPAZ daqueles que só sulista entende. E só achou que eu não era louca quando mostrei a revista NOVA do mês, com o tal anúncio, que na minha memória era com a Luiza Brunet. Não garanto que fosse, tudo fica meio emaranhado depois de uma certa idade. 

Voltei ao tempo presente unindo a incongruência de usar uma calça rasgada por moda em um frio de 6 graus, com a cena kafkiana de décadas atrás ao fazer uma pessoa entender o que levava uma pessoa rica a pagar caro por um lixo rasgado. E rasgado de propósito.

Modas e motivações tem muito dessa irracionalidade de nos levar a escolher não por lógica, mas por motivos outros que devem estar em nossos corações.

Não querer aparentar riqueza foi moda uns tempos para fazer de conta que não éramos consumistas. Algo tipo importar um produto dito sustentável do outro lado do planeta ao invés de consumir produtos locais. Ou ainda comprar canudos de metal envoltos em embalagens plásticas para não consumir os....de plástico. Em outros momentos e locais, é valorizado expor sua riqueza com minúcias para deleite de curtidas.

O mundo que nos motiva e a quem devemos ou queremos mostrar algo. Descobrir qual é o seu pode ajudar a entender as motivações de nossas escolhas. Mesmo as mais banais como passar frio no inverno sem necessidade. 

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