Cada um está sozinho por trás de sua máscara
Esta frase me pegou em um livro chamado "História da Solidão e dos Solitários". Não foi uma busca, foi ressonância. Daquelas que batem no peito e no intelecto. A solidão me encanta e simultaneamente me traz inquietude, aquela sensação de estar tocando algo que permanece fundamentalmente intraduzível. Um tema que me atrai pela complexidade de navegar entre a essência individual e o papel social que desempenhamos, como atores que um dia esquecemos que estavam em um palco.
A obra de Georges Minois é um livro de fôlego, quinhentas e tantas páginas daquelas que exigem presença, não daquelas que se leem deitadas antes de dormir na esperança de dormência rápida. Folhear esse estudo sobre a solidão desde os primórdios da humanidade revela padrões que as religiões gravaram fundo na psique coletiva: moldaram não apenas costumes e cultura, mas a própria textura do sentir e do fazer das pessoas. Aqui está a maravilhosidade do trabalho histórico, quando ele mostra que nossos medos não são novidades, apenas variações de um medo ancestral. E como a solidão, seja individual, seja coletiva, foi moldada principalmente em termos de espiritualidade.
O medo do infinito. A angústia de querer pertencer a algo que nos abarque completamente, que nos remeta de volta àquele estado primeiro onde éramos parte de um todo indiferenciado. O útero materno como primeiro exílio de nós mesmos.
Mas fomos expulsos desse paraíso. Restou apenas tentar fazer o que de melhor se espera de nós. Ou, mais precisamente, o que achamos que esperam. E essa expectativa varia de época para época, de classe para classe, de bairro para bairro. O que Porto Alegre espera de seus habitantes não é o que São Paulo espera. E nenhuma das duas cidades espera verdadeiramente algo além da invisibilidade produtiva.
A saída confortável é nos salvaguardarmos em bandos que respeitem os mesmos signos, que sigam as mesmas normas. Tão mais cômodo que estar à margem. Viramos cópias fiéis ou versões mambembes de roteiros que admiramos, nos travestindo de máscaras sociais que supostamente nos preservem do mal. Máquinas de proteção que funcionam bem demais.
Essa frase calou fundo porque reconheci minhas próprias máscaras. Converso com elas e as manejo com certa elegância a maior parte do tempo. Elas me levam de roldão outras tantas vezes. Interagimos em um diálogo nem sempre pacífico, nem sempre produtivo. São colegas de habitação forçada.
E então surge outra leitura necessária: "A Armadilha da Perfeição" de Thomas Curran. Um livro que adquiri em oferta online sem certeza do seu valor real. Mas livros funcionam assim. A gente nunca sabe o momento preciso de uma leitura. Eles nos chamam quando nos tornamos permeáveis. E nunca são os mesmos em uma releitura porque nós não somos os mesmos. Por isso são verdadeiramente mágicos.
Karen Horney oferece a fórmula: "O perfeccionismo é o preço que todos pagamos por nosso lugar na orquestra. Para nos sentirmos seguros, conectados e valiosos, usamos a máscara da perfeição." Ela descreve o sintoma com precisão cirúrgica. A máscara não é apenas social. É existencial. Nem sabemos mais onde termina a pessoa e começa a construção.
"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", cantava a música. "Solidão com vista para o mar", sussurrava a outra. Essas pequenas peças de um lego formidável chamado ego que nos impulsiona a encontrar propósito nesta poeira estelar. Criamos filosofias sobre como viver. Pensamos abstratamente e construímos intelectualidades sobre quem disse o quê. Fabricamos deuses à nossa imagem e semelhança e depois nos sujeitamos a seus dogmas, como crianças que criam pais para então obedecer.
Somos feras feridas brincando de carnaval. Eternas crianças tendo poucos momentos para sair da folia e tirar a fantasia. Porque tirar a fantasia é enfrentar aquele rosto sozinho no espelho. Aquele que está atrás de todas as máscaras e que também é uma máscara.
A questão que Minois até aqui deixa em aberto é incômoda: se a solidão é constitutiva da experiência humana, será que as máscaras nos salvam ou apenas nos anestesiam? E se for anestesia, como vivemos sem ela?
Mas fomos expulsos desse paraíso. Restou apenas tentar fazer o que de melhor se espera de nós. Ou, mais precisamente, o que achamos que esperam. E essa expectativa varia de época para época, de classe para classe, de bairro para bairro. O que Porto Alegre espera de seus habitantes não é o que São Paulo espera. E nenhuma das duas cidades espera verdadeiramente algo além da invisibilidade produtiva.
A saída confortável é nos salvaguardarmos em bandos que respeitem os mesmos signos, que sigam as mesmas normas. Tão mais cômodo que estar à margem. Viramos cópias fiéis ou versões mambembes de roteiros que admiramos, nos travestindo de máscaras sociais que supostamente nos preservem do mal. Máquinas de proteção que funcionam bem demais.
"Cada um está sozinho por trás de sua máscara."
Essa frase calou fundo porque reconheci minhas próprias máscaras. Converso com elas e as manejo com certa elegância a maior parte do tempo. Elas me levam de roldão outras tantas vezes. Interagimos em um diálogo nem sempre pacífico, nem sempre produtivo. São colegas de habitação forçada.
E então surge outra leitura necessária: "A Armadilha da Perfeição" de Thomas Curran. Um livro que adquiri em oferta online sem certeza do seu valor real. Mas livros funcionam assim. A gente nunca sabe o momento preciso de uma leitura. Eles nos chamam quando nos tornamos permeáveis. E nunca são os mesmos em uma releitura porque nós não somos os mesmos. Por isso são verdadeiramente mágicos.
Karen Horney oferece a fórmula: "O perfeccionismo é o preço que todos pagamos por nosso lugar na orquestra. Para nos sentirmos seguros, conectados e valiosos, usamos a máscara da perfeição." Ela descreve o sintoma com precisão cirúrgica. A máscara não é apenas social. É existencial. Nem sabemos mais onde termina a pessoa e começa a construção.
"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", cantava a música. "Solidão com vista para o mar", sussurrava a outra. Essas pequenas peças de um lego formidável chamado ego que nos impulsiona a encontrar propósito nesta poeira estelar. Criamos filosofias sobre como viver. Pensamos abstratamente e construímos intelectualidades sobre quem disse o quê. Fabricamos deuses à nossa imagem e semelhança e depois nos sujeitamos a seus dogmas, como crianças que criam pais para então obedecer.
Somos feras feridas brincando de carnaval. Eternas crianças tendo poucos momentos para sair da folia e tirar a fantasia. Porque tirar a fantasia é enfrentar aquele rosto sozinho no espelho. Aquele que está atrás de todas as máscaras e que também é uma máscara.
A questão que Minois até aqui deixa em aberto é incômoda: se a solidão é constitutiva da experiência humana, será que as máscaras nos salvam ou apenas nos anestesiam? E se for anestesia, como vivemos sem ela?

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