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O baú de Mnemosine e a caixa de Lete

Engoliu a água com sabor. Sentiu cada gole descendo por sua garganta enquanto o mantra tibetano se fazia ouvir na sala. Haveria de reverter essa nuvem que se formava sobre ela. Sua cabeça, sua memória, sua capacidade de articular raciocínios. 

_ Minezinha! - escutou a voz de sua irmã gêmea gritando da sala ao lado. Tinham nascido há exatos 60 anos e nunca mais se desgrudaram. Por obvio que passaram momentos deliciosos com outras pessoas, mas viver de verdade, era uma com a outra.

- Fala Letinha! - a voz melodiosa continuava com o timbre de adolescente. Já sabia que sua irmã lhe ia narrar algo maravilhoso que acabara de ouvir/ler/conceber. Dona de uma memória prodigiosa, quase fotográfica, era uma ironia do destino.

Seu pai, professor de história, amante da mitologia grega, conhecedor de cada história e cada pedaço da Hélade tinha o nome prosaico de Sebastião. Talvez pela inconformidade com o seu, batizou as pequenas de Mnemosine e Lethe. Cada uma com sua sina, não pensou muito e soletrou os primeiros nomes que lembrou. Bem da verdade que o rapaz do cartório traçou Minemossine e Lethie Campos da Silva nos registros. E os apelidos de avós e tias já produziram o como seriam conhecidas pelos mais íntimos: Minezinha e Letinha.

Uma guardadora do baú das memórias, as que sempre se guardam e se abrem quando necessárias. A outra, a náiade que guarda a benção do esquecimento. As duas juntas formando a Harmonia ( a que não vingou, nascida já morta, com os grandes olhos azuis em desespero do sofrimento fetal). Como toda ironia da vida real, Letinha tinha o dom de nada esquecer. Enquanto ela, Mnemosine já sentia em si as faltas das conexões sinápticas.  Primeiro foram as palavras que faltavam, depois o discurso foi ficando mais enxuto, passando a simplório no começo da década dos 60 anos. Os livros mais complexos tinham que ser lidos de maneira vagarosa, parágrafos relidos porque já não faziam o mesmo sentido. Achou que fosse estresse, foi fazer meditação, beber água aos borbotões, passou a usar clichês cada dia mais frequentes no que antes era uma escrita requintada.

Lethe, ao contrário, ficava mais afiada a medida que os cabelos se embranqueciam. O que lhe acarretava um charme mais intenso, o da sabedoria. Sua conversa satírica, seus pensamentos criativos, pareciam querer abarcar o mundo com ânsia de devorar o conhecimento que era, depois, despejado, diluído e transformado em opiniões cada vez mais respeitadas. A caixa de Letinha se revelava uma arca do tesouro. Era pura, despida de ornamentos, era de seiva orvalhada sua visão do mundo.

O baú de Minezinha era pesado, madeira atacada de cupins, malgrado sua aparência transformada pela ação de procedimentos de beleza que só a deixavam com a mesma cara de marionete amassado de um teatro mambembe. Minezinha esquecia o que tinha de certezas, o que comera na véspera, o que tinham dito para ela, o que fizeram no verão passado.

Começou a ler auto ajuda, a procurar explicações esotéricas como se uma pretensa profundidade preenchesse a terra oca em que ia transformando.

Duas faces de uma mesma moeda. Uma pura e cristalina. Outra carcomida e decadente. Ninfas em busca de uma harmonia que já nasceu natimorta. Mas mesmo assim, uma em busca da outra, como se houvesse chance de uma amalgama alquímica que as unisse em sintonia.

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