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Mostrando postagens com o rótulo mulheres mitos

O baú de Mnemosine e a caixa de Lete

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Engoliu a água com sabor. Sentiu cada gole descendo por sua garganta enquanto o mantra tibetano se fazia ouvir na sala. Haveria de reverter essa nuvem que se formava sobre ela. Sua cabeça, sua memória, sua capacidade de articular raciocínios.  _ Minezinha! - escutou a voz de sua irmã gêmea gritando da sala ao lado. Tinham nascido há exatos 60 anos e nunca mais se desgrudaram. Por obvio que passaram momentos deliciosos com outras pessoas, mas viver de verdade, era uma com a outra. - Fala Letinha! - a voz melodiosa continuava com o timbre de adolescente. Já sabia que sua irmã lhe ia narrar algo maravilhoso que acabara de ouvir/ler/conceber. Dona de uma memória prodigiosa, quase fotográfica, era uma ironia do destino. Seu pai, professor de história, amante da mitologia grega, conhecedor de cada história e cada pedaço da Hélade tinha o nome prosaico de Sebastião. Talvez pela inconformidade com o seu, batizou as pequenas de Mnemosine e Lethe. Cada uma com sua sina, não pensou mu...

Ariadne tecendo teias

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Teço teias na esperança de  r eter-te. Tu ficas.  Me envolves em tua lábia de caçador,  solta setas,  me matas.  Renasço.  De ti guardo memórias que ninguém mais.  Vida nova, novos olhares. Velhos sentires. Dúvidas iguais. Certezas absolutas. Ariadne corria solta pela sala, em desbragada dança, dessas que o vinho torna factual. Pela primeira vez em décadas se sentia só. O tempo era dela.  Nem   sabia mais o que fazer dele. Tanto tempo vivendo para outros. Sendo de outros. Afastando vontades, abrindo mão de desejos. Tecendo estradas para outros caminhares. Seu corpo marcado pela comida, único prazer solitário. O único que restara. Mentira. Tinha as leituras. Mas nem essas. Lia mais por obrigação, os olhos correndo frases que pareciam não fazer sentido. Nada mais tocava. Só a urgência do desejo alheio. O que dela precisavam. Decisões, contas, sobrevivência alheia, carência dos outros. A dela sufocada.  ...

Ninfas apopléticas

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Ninfas em estado de fúria? Seria o caso dessas diáfanas criaturas se encontrarem em seus lares ancestrais e verterem danças enfurecidas, lançando gritos apavorantes que acordassem mentes adormecidas nos mais recônditos lugares dos planetas, céus e mares? Ou estariam as ninfas adormecidas como tantos, esperando em seus sonos de contos de fadas que passassem os 100 anos de maldição e a beleza voltasse a reinar? Ou quem sabe ainda as criaturas estariam sofrendo desse mal moderno que causa fadiga prematura aos pensamentos e sentimentos e sua aparente apoplexia apenas se devesse ao estranhamento de se perceber em um universo alternativo correspondente aos piores pesadelos. Aqui e ali ouviam rumores fora de suas nuvens onde fervilhavam os embolhamentos. Ali reinavam fugas das mais variadas.  Umas liam alucinadamente como se precisassem decorar as palavras que poderiam ser esquecidas.  Outras riam desbragadamente e junto aos faunos, se jogavam às orgias antes...

Falando em Princesas

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Falei esses dias que não me via como uma criança fantasiada de princesa Disney emponderada. E acabei me lembrando que, apesar disso, o mito da alteza era sim bem forte em minha infância.  Começou, talvez, com minha irmã e prima me vestindo como sua boneca viva quando eu tinha uns três anos. Com um imenso cone de cartolina de onde saía um imenso véu cor de rosa, feito do mosquiteiro do meu berço, eu me sentia como em um conto de fadas real. Ao invés das histórias de hoje, meus dias e ouvidos, eram abastecidos pelas histórias de Andersen. A Princesa e a Ervilh a um de meus prediletos. A princesa que chega a noite em um imenso castelo, encontra a Rainha Mãe que quer se certificar de que o rebento encontrará uma verdadeira Princesa de sangue azul, e esconde a maldita da ervilha embaixo de vinte colchões de pena. Até hoje eu fico a procura dos grãos, mesmo quando tudo parece acontecer às mil maravilhas. Encontro pouso seguro em um castelo de sonhos? Tem que ter alguma pegadinha! J...

Tenho alma de Cassandra

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Das coisas mundanas e humanas tenho fé tenho esperança que caibam voragens que sobrem estrelas que nada embolore a alma a calma a paz. Tenho dias de explosão tenho dias de quietude tenho sonhos de solidão tenho desejos de juventude Tenho tanto e tão pouco que mal me cabe a danada da esperança tenho alma de Cassandra As pedras do caminho são pedras, são pedras, são pedras Me dificulto bani-las São cortantes São rolantes São brutas São  As rosas que são rosas apenas rosas As rosas acenam As rosas exalam As rosas são fenix Os mitos não me fascinam Não acredito em gurus Não me sinto no rebanho o humor me salva O humor me transborda Sei rir de mim Sei rir em conjunto Sei ser feliz sozinha Sei ser feliz acompanhada A liberdade me acompanha Nos acompanha Nos revigora Nos torna diferentes Nada nos domina Muito menos o garrão O ódio do  egoísta O egoísmo A coisa velha que s...

Cassandra e as partidas

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Nasceu com um dom na vida. Sabia definir com exatidão quem ia morrer em breve. E isso lá era coisa que se fizesse com uma alma frágil como a dela? Era como se as forças do universo resolvessem fazer uma brincadeira de péssimo humor. Podia ter nascido, sei lá, com a capacidade de prever algo mais ameno, quem vai casar com quem, qual o numero que vai sair na loteria, quem vai ser eleito. Uma coisa mais útil que rendesse pelo menos alguma fama, senão dinheiro. Mas não. Era uma Cassandra das desgraças. No começo achou estranho. O vizinho, tão distinto, viu num caixão. Olhou pela janela e em vez da figura que andava com dificuldade, já o viu inerte. Tudo bem pensou, era idoso e era meio esperado que batesse as botas logo. Nem chegou a falar para os outros. Depois se repetiu com algumas figuras públicas e ela achou que era coisa de quem tinha imaginação fértil. Ou agourenta. Mas foi quando viu a jovem adolescente, arrebentando de vida, em um esquife branco, que se assustou. Procuro...

Ítacas e o balanço das ondas do tempo

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De certa maneira somos todos Ulisses em procura do lar perdido. As reflexões da meia idade se avolumam nesta época do ano em que as ondas do tempo parecem chegar a um porto, mesmo que por poucos minutos. Chegar a um porto nos remete à velha ideia de volta à segurança. Aquela mesma que um dia tivemos no útero materno, no colo da mãe, na mão do pai que ampara. No momento em respiramos por nós, damos os primeiros passos em o auxílio alheio, partimos em uma viagem sem volta. E quando em algum momento do caminho sentimos uma angústia infinda, sentimos saudades de nossa Ítaca. Mas, não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada E fundeares na ilha velho enfim. Rico de quanto ganhaste no caminho Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. Ítaca não te iludiu Se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. E, agora, sabes...

Ervilhas, ora direis olhar estrelas

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"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,  Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Sem querer abusar do Bilac , mas já lembrando dos tempos idos e vividos, volto ao passado que já nem sei ao certo se aconteceu neste universo, ou em um dos outros tantos em que já vivi. Com certeza em um deles eu era uma andarilha peregrina que achou abrigo em um palacete e onde me colocaram em uma Queen Size Bed de altura astronômica. E onde passei uma noite danada de mal dormida que se traduziu em olheiras terríveis e um mal humor do cão que, obvio, acabou por afastar aquele cara lindo que mais parecia um príncipe. Tudo por causa de um grão de ervilha que alguém esqueceu abaixo da camada de espuma da Nasa. Em outro universo fui uma menina que trocava o volei e os passeios de bicicleta pela leitura de contos de Andersen . Mas que não abria mão dos patins.    Ilustração de Nacho Naolino Diaz Fui crescendo e aprendendo que os contos de fadas são armadilhas, historiet...