Ítacas e o balanço das ondas do tempo

De certa maneira somos todos Ulisses em procura do lar perdido.

As reflexões da meia idade se avolumam nesta época do ano em que as ondas do tempo parecem chegar a um porto, mesmo que por poucos minutos. Chegar a um porto nos remete à velha ideia de volta à segurança. Aquela mesma que um dia tivemos no útero materno, no colo da mãe, na mão do pai que ampara.

No momento em respiramos por nós, damos os primeiros passos em o auxílio alheio, partimos em uma viagem sem volta. E quando em algum momento do caminho sentimos uma angústia infinda, sentimos saudades de nossa Ítaca.
Mas, não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas. Constantino Kabvafis (1863-1933)
in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.
O discurso recém começado a olhava na tela do notebook novo. Ainda se acostumava com os teclados que teimavam em não lhe obedecer. A mente embotada também. Gostou da simbologia da velha e boa Odisseia. Por um momento teve medo de poucos ainda entendessem a metáfora. Ou soubessem quem era Ulisses. Não o que repousava em algum lugar do mar onde o helicóptero caíra. Será que alguém ainda sabia que a Grécia tinha passado? Hoje tão descaída, coitada. Espoliada desde sempre, que o digam seus tesouros em museus espalhados pelo mundo.

Enfim, parou um pouco na palavra espoliada. Resumia um pouco o sentimento que lhe era constante. Se deixara roubar. Mentira, entregara de mão beijada a sua parte mais bela, sua alma mais inocente, seu motivo de tudo. Foi abrindo mão ali um pouquinho. Uma comida gostosa deixada para outro. Um programa predileto em favor de um apresentador cafona que sua mãe adorava. Coisas miúdas, nem se dava conta. Só do vazio sim. Esse ficava incomodando lá do fundo.

Quando se viu não era mais ela.

Mas o que tinha tudo isso a ver com o tal de Ulisses mesmo??? Ele que tinha espoliado. Era rei, tinha uma esposa bonita e dedicada que deixou para salvar a honra de um amigo por uma tal de Helena lá para as bandas de Troia. A Penélope que se virasse nas noites vazias, que tomasse conta do filho, do reino e se sobrasse tempo que ainda fiasse para não pensar besteira e querer se envolver com qualquer príncipe malandro que pintasse no pedaço. Afinal o que são vinte anos de ausência, né.

Fonte
20 anos?! E querem me fazer crer que o Ulisses andou peleando, viajando, ouvindo sereias e o diabo a quatro pelos mares da Grécia e a Penélope ficou a fiar??? Façam-me rir! Só quem não conhece as mulheres. Práticas somos. Pragmáticas. E eternamente românticas. E criativas. Essa história de fiar de dia e desmanchar de noite é bem divertida. Imagino a conversa dela com Ulisses depois da volta:

-Então andaste a fiar, mulher? Vais me dizer que nunca te envolveste com aquele herói grego???

-Quem? Aquele de barriga de tanquinho e olhar safado? Queimado do sol e que me trazia ânforas de vinho enquanto me declamava as safadezas do Olimpo? Nunca! Jamais! Seria como se tu deitasse com a primeira sereia que cantasse maravilhas no teu ouvido, coisa que bem sei, nunca o farias. Faria???

-Jamais minha doce e arguta Penélope.

E assim a velha Ítaca se enchia de gemidos de reencontros e cada um reconhecia que o verdadeiro tesouro da vida está nas belas experiências das jornadas. E de ter alguém com quem reverenciar a vida e o silêncio.

De Ítacas e de odisseias se faz o tempo. Umas mais marolinhas. Outras mais Tsunamis. A jornada nos espera desde sempre. Urge não perdermos de vista que algures existe uma Ítaca. Quiçá dentro de nós.

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