Cassandra e as partidas

Nasceu com um dom na vida. Sabia definir com exatidão quem ia morrer em breve.

E isso lá era coisa que se fizesse com uma alma frágil como a dela? Era como se as forças do universo resolvessem fazer uma brincadeira de péssimo humor. Podia ter nascido, sei lá, com a capacidade de prever algo mais ameno, quem vai casar com quem, qual o numero que vai sair na loteria, quem vai ser eleito. Uma coisa mais útil que rendesse pelo menos alguma fama, senão dinheiro. Mas não. Era uma Cassandra das desgraças.


No começo achou estranho. O vizinho, tão distinto, viu num caixão. Olhou pela janela e em vez da figura que andava com dificuldade, já o viu inerte. Tudo bem pensou, era idoso e era meio esperado que batesse as botas logo. Nem chegou a falar para os outros.

Depois se repetiu com algumas figuras públicas e ela achou que era coisa de quem tinha imaginação fértil. Ou agourenta. Mas foi quando viu a jovem adolescente, arrebentando de vida, em um esquife branco, que se assustou. Procurou esquecer a imagem, mas ela teimava em lhe passar diante dos olhos, cada vez que via a guria. Que não demorou um mês, descobriu uma doença galopante e fatal. E se foi. Em um esquife branco.

Teve que contar ao analista. Sim, porque nessa altura dos acontecimentos, foi procurar um. Elaboraram o que foi possível. Dissecaram pai, mãe, avós. Até tios e antepassados. Até o dia em que entrou no consultório e viu o caixão. Todo de madeira. Luxuoso. Talvez o mais caro da funerária. Pudera com o preço que cobrava nas consultas. Pensou mas logo se arrependeu. Relutou em contar, mas na segunda sessão, como a imagem continuava, teve que desabafar. O analista riu. Falou em mil figuras de transferências, o escambau. Não tiveram tempo para uma terceira sessão. Ele partiu no fim de semana. Acidente de avião. Não sobrou ninguém.

Resolveu guardar para si as visões. Ia vendo uma sucessão de caixões, suando frio e indo à enterros. Os de conhecidos ninguém entendia porque ficava tão ansiosa. Os de estranhos, olhavam com curiosidade para aquela jovem tão branca, se perguntando qual relação teria com o defunto.

Apelou para as tarjas pretas. Para as religiões. Para a bebida. Para o sexo. Para qualquer coisa que a trouxesse de volta ao comum dos mortais, esses que caminham pelas ruas alheios ao futuro funesto que vai ao encontro de todos. Mas muito melhor não saber quando.

Estava na fase das festas quando conheceu Antenor. Nome de gente de ontem para uma cabeça de amanhã. Aquariano. Cuca fresca. Um bom humor sem igual.

Com ele tudo era leveza.

Mais que amantes, se tornaram cúmplices em tudo. Menos naquela coisa que ela carregava consigo e que achou melhor calar. Já chegava ser arauto de más notícias, que fosse pelo menos feliz na vida.

Tinha um secreto medo de saber a partida do Antenor. Mas nunca. Talvez em algum canto uma energia mais poderosa a poupasse. Viu pai, mãe e irmãos. Amigos. Conhecidos. Famosos e anônimos. Mas nunca Antenor.

Não tiveram filhos. Ela não queria passar pela aflição de saber antes da hora se alguém amado ia partir. Se tornou escritora. Suas mágoas, medos e terrores passaram a ser compartilhados com seus leitores. Ficou famosa. Enfim tinha achado um meio de fazer aquele dom maldito render algo. Que pelo menos lhe pagasse as contas.

Já era bem velhinha, naquele tempo em que as memórias se vão diluindo e passado/presente se confundem enquanto o futuro se torna uma incógnita assustadora que viu o caixão. Primeiro foi em um sonho. Mas quando ia ver o rosto do defunto, um barulho da rua a acordou. Pensou que era bobagem. Coisa de gente idosa e um pouco de culpa por ter antecipado a hora da partida de tantos. Essas coisas não se mexe. Cada um tem seu momento de ir e vir. É coisa individual, não tem porque um estranho se imiscuir nisso. Chegava a ser indecente.

Mas o tal caixão a acompanhou durante a semana. E sempre se dissipando quando ia ver o rosto. Tentou se acalmar. Fez todas as posições de ioga que aprendeu na vida. Repetiu todos os mantras conhecidos. Se aninhou nos braços de Antenor. Sempre Antenor. Que parecia milagrosamente jovem. Deviam ser seus olhos que para quem ama o tempo não passa.

Achou que fosse coisa de memória. Mas um a um os rostos das previsões passaram pela sua mente. Uns velhos. Outros jovens. Parecia que todos a acusavam.

Estava virando um pesadelo. Ela enlouquecia. E o caixão a seguia. Sem rosto.

De real, só Antenor.

Foi no último dia que a imagem se tornou mais clara aos seus olhos. Enquanto desfalecia com a dor gritante no peito, viu sua face serena no caixão enquanto ouvia as asas saltando das costas de Antenor que a carregava em seus braços, sobre as casas, sobre as ruas, sobre o mundo.




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