Zona de Desconforto

Mulheres que escrevem.

Mulheres que escrevem bem.

Mulheres que descrevem outras mulheres com um olhar certeiro, trazendo à tona personagens que são vivas em suas paixões e ações.
Um livro de contos que pede mais. Alguns que te dão aquele querer ir além, mereciam um romance. Outros são um murro no peito de tão intensos. Procure qualquer coisa no livro de contos de Lindevania Martins, nunca conforto.

"Se um escritor pode fazer as pessoas viverem, pode que não haja grandes personagens em sua obra, mas é possível que seu livro permaneça como um todo, como uma entidade, como um romance."Ernest Hemingway
Comecei o primeiro conto com sofreguidão e não conseguia parar. Tinha ouvido a mesma história na noite anterior. Outro nome, outro estado, outra época, mesma menina querendo apenas ter o sonho de aprender, de ir além. Mesmo sonho podado sem ternura. Cortado na raiz por outra mulher. A sororidade dando espaço aos papéis aprendidos de servidão. Todas mulheres, umas anulando  outras em  uma luta milenar sem sentido que não seja o de perpetuar a servidão. Entre as patroas e as meninas sem nome, um muro ainda intransponível.

Os contos se seguem nos mostrando mulheres diferentes das heroínas que costumamos ler. Não são frágeis, não são heroínas. Carregam medos, carregam ódios. Se vingam com força. Há sangue e vida. O sangue que nos marca como fêmeas, que nos lembra mês a mês nosso papel de parideiras entre dores.

Só que não. Queremos mais. As personagens de Lindevania querem mais. A zona de conforto não é o seu papel. Nem sempre conseguem. Mas abrem em cada leitor uma interrogação, uma coisa que aperta no peito, na barriga. São viscerais. 

E tudo isso em uma narrativa que envolve. Um paradoxo com a crueza das histórias, a construção das frases e situações é de uma delicadeza brutal. É de um aperfeiçoamento que vai além do burilar o texto. É leitura que cativa pela verdade e pelo bem fazer da literatura.

A autora. Em um verão calorento de Porto Alegre fiz um programa em tudo diferente para mim: uma oficina de poemas. Lá aprendi a ouvir aquele sotaque maranhense com uma escrita que parecia cantar. Era uma criação diferente das nossas, tinha um molejo mais solto, uma picardia mais crua e ao mesmo tempo divertida e sensual. Era a Lindevania Martins

Entre risadas, vinhos e saídas as gurias de fogo que participaram daqueles encontros no Studio Clio formaram um elo além da troca de poemas. Eram e são mulheres que se expõem escrevendo, mas que acima de tudo, vivem seus anseios.

Acompanhei com carinho o lançamento dos livros de quase todas. Soube da gestação de um romance que ainda não saiu e estávamos lá no lançamento do Zona de Desconforto aqui em Porto Alegre onde a autora teve uma troca de ideias e falou da escrita do livro

Como arquiteta sei o quanto o processo de criação é rico e como as vezes não nos damos conta dos passos que levaram o autor a nos entregar um projeto ou um conto assim e não assado. Pude também ler o primeiro livro da Lindevania, ganhador de um prêmio em São Luis. Lá estava já a semente de uma trajetória. A cadência das palavras, o cuidado da construção dos personagens, o estilo da autora. É como um diamante mais bruto de uma trajetória que vem crescendo em qualidade e apuro literário.

E também é a soma das experiências de vida da autora, mulher guerreira e que consegue fazer um trabalho construtivo com outras mulheres e população LGTB na sua atuação como defensora pública. 
Sem dúvida ela conhece o universo sobre o qual ela fala. Já ouviu e viu casos de zonas de total desconforto e crueza. Seu papel é também nos mostrar esse lado da vida. Mulher que escreve para tantas outras mulheres. Pessoa que escreve para pessoas que talvez necessitem muito sair de suas zonas de conforto e conhecer mais a vida de verdade.


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