Mães paralelas e a distância entre nós


elenara elegante

Duas obras marcaram meu fim de semana calorento de fevereiro. Terminei o livro "A distância entre nós" da escritora Thrity Umrigar e vi o filme do Almodovar "Mães Paralelas".

Gostei dos dois. Não os classificaria de obras primas, mas me tocaram de diferentes formas. Mas eles se tocam um aspecto bastante gritante.

As mulheres. 

Mulheres que vivem como dá, independente de sua situação social, onde as circunstâncias culturais as tornam iguais em muitos pontos, embora gritantemente diferente em todos os outros. E homens fracos e/ou ausentes por também circunstâncias culturais que os tornam figuras horrendamente coadjuvantes. Alguns por motivos externos, de lutas sociais. Outros por aceitarem seguir papeis que os tornam assim, violentos e abjetos.

Thrity Umrigar

Duas mulheres nascidas em uma Índia com um sistema de castas que separa os destinos desde o berço. Não muito diferente de nossa realidade em que a origem social define papéis desde muito cedo, se sucedendo por gerações onde poucos fogem do script. Talvez por isso, o livro me lembrou o filme "A que horas ela volta?". 

Bhima, a empregada e Sera, sua patroa, partilham momentos de vida e confidências, mas mesmo tendo vivências femininas de abandono semelhantes, há um abismo entre elas, reforçado pela culpa que aprenderam a sentir em relação aos seus desejos e sentimentos.

A distância entre nós é um livro delicado e forte. Uma trama com dramas e histórias encadeadas que revelam uma tessitura social feita para privilegiar alguns e culpar outros. A culpa também é extensiva aos homens, também vítimas de uma estrutura que os exige fortes e fracos. Mas é nas mulheres que a culpa se revela mais cruel. É nas mulheres e seus sonhos que a culpa devasta e corrói. É nas mulheres que se exige o continuar apesar de tudo. É delas que depende a verdadeira sobrevivência, mesmo que repetindo velhos e inglórios papéis e onde pequenos prazeres de vida podem ressignificar toda uma existência. 

Almodovar

Já o filme Mães Paralelas de Almodóvar também fala do papel feminino em uma sociedade patriarcal e imersa em dívidas não resgatadas com o passado. Os cadáveres sonegados pelo antigo regime fascista seguem em fossas sem nome enquanto seus descendentes continuam com suas histórias caladas. E mais uma vez cabe às mulheres prosseguir a história, muitas vezes sós. 

A história do país se mescla à história de quem ainda tem memória e de quem nem a conhece, na história de duas mães que tem filhas na mesma maternidade e no mesmo dia. Uma com 40 anos, filha de mãe e avós solitárias, fruto de uma geração rebelde. Outra adolescente, vinda de uma família de classe média que tem na mãe o ponto fora da curva da família tradicional. Quem culparia um pai por abandonar a família em nome de uma carreira ou um sonho? Para quem o pai pessoa de bem devolve a filha quando essa dá um "mau passo" e engravida? Mesmo que esse filho seja fruto de um estupro? (pequeno spoiler, perdão).

O enredo parece ser calcado em uma série mexicana chamada "Mãe só tem duas". Vi o filme a conta gotas porque vivo com minha mãe que tem alzheimer e parava a reprodução a cada momento para acalmar seu medo do por do sol. Quem convive com idosos sabe como eles tem um receio da noite e clamam por uma casa que já não existe. O passado individual não coexiste separado do passado social. Nem o nosso é muito diferente do da ficção. E mães são sempre poderosas, mesmo quando já nem lembram que somos nós as filhas. No fundo queremos todos amparo e a certeza de uma fundação segura e onde viemos e um vislumbre para onde iremos.

Por ironia, o poster do filme, mostrando mamilos com gotas de leite, foi proibido em uma rede social por ferir o decoro da mesma. Foi preciso muita explicação para que entendessem que se tratava de uma referência ao filme... Como se falta de decoro fosse amamentar ou se referir à mães. Falta de decoro é calar sobre atrocidades. Falta de decoro é atribuir culpa às mulheres como se fossem feitas de rochas. Falta de decoro é aplaudir torturadores e esconder cadáveres de gente que ousou enfrentar o que considerava criminoso. Falta de decoro é achar que a história se cala. 

De nossos medos nasce nossa coragem e nossas certezas vivem em nossas dúvidas.
Os sonhos anunciam outra realidade possível e os delírios outra razão.
As descobertas nos esperam em nossas andanças, porque é preciso perder-se para se reencontrar.

Eduardo Galeano

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