Florbela Espanca e a reflexão sobre as versões

Não me recordo quando Florbela Espanca entrou em minha vida. Tenho fases de ler poesia. São aquelas em que a minha sensibilidade anda mais a flor da pele, ou nas em que a prosa já não consegue me responder ou abrir os questionamentos necessários. 

Um almoço literário me trouxe de volta a vida e a obra de Florbela. Passei os últimos dois dias imersa em pesquisas, vendo séries, documentários, lendo seus contos e poesias. Tentando entender um pouco mais dessa mulher tão diferente das demais do início do século XX em Portugal.

Me surpreendendo com a sua precocidade ao escrever tão bem ainda garotinha. Com a sua procura por substâncias que a vida comum talvez nunca tenha conseguido lhe dar.


Uma alma atormentada. Isso me passa sempre ao ler brevemente sua biografia. Da menina criada por duas mães. Uma biológica, que teve filhos com um homem casado, ainda hoje um tabu. Outra, madrinha, a esposa do pai, que foi talvez impulsionadora de voragens literárias.

Da jovem que escrevia poesias e casou cedo. Da mulher que se divorciou e foi em busca de mais. Da alma intensa que buscou no casamento por mais duas vezes, talvez respostas para um tormento interno. Quem foi Florbela?  

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida, 
Eu sou a que na vida não tem norte, 
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte 
Sou a crucificada ... a dolorida ... 

Sombra de névoa ténue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte, 
Impele brutalmente para a morte! 
Alma de luto sempre incompreendida! ... 

Sou aquela que passa e ninguém vê ... 
Sou a que chamam triste sem o ser ... 
Sou a que chora sem saber porquê ... 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver 
E que nunca na vida me encontrou! 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" 

A dos livros póstumos, a que enlouquecia homens, a que ela mesma era. Como explicar a poesia e as pessoas tão altamente sensíveis que buscam no delírio a resposta de uma pergunta que nem elas mesmas sabem qual é.


Fico então pensando sobre quais versões seremos lembrados. Quem na vida realmente nos conhece? Quem nós conhecemos integralmente?

Somos como pedaços de retalhos que fulguram imagens, uma mais santa aqui, outra mais pândega acolá. Quem se debruça sobre nós, sobre todos, nunca consegue ter a visão tão ampla que contemple o todo.

Há os que fogem do mundo que não lhes acolhe em suas ânsias. Covardes? Poetas? Insanos...quem há de saber o real tamanho do vazio que a falta de respostas traz em si. 

Dizer o obvio, acreditar em seitas, seguir a receita tão simples de apenas viver e sobreviver pode acalmar uns e outros. Nem todos. Há os que necessitam florescer mais belamente.

Quem há de saber o que nos espanca a alma? Quem foi Florbela?


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