Sótão das lembranças

Dos sonhos recorrentes tenho um bem bonito que, devidamente analisado, rende boas interpretações. Um sótão das lembranças.

O roteiro é mais o menos o mesmo: estou em uma casa e ela tem um sótão onde guardei livros, memórias, caixas, tudo o mais que faça a mente divagar. A escada é reta e, o mais interessante é que, nos sonhos, eu não vou muito até lá. Saber que ele existe, por si só, me dá uma tranquilidade imensa. Como se pudesse ter meu próprio quarto secreto do tesouro.

Já passeei muito por ele e a cena é sempre igual. As casas mudam, mas as prateleiras repletas de livros com todas as informações e memórias que posso imaginar existir, sempre estão lá. Perenes. Conhecidas. Aconchegantes.

Normalmente eu não chego a ler nada porque o sonho é daqueles que quando vou chegar perto do desejado, acordo. Este também é um comportamento recorrente.

A noite passada ele se repetiu. O cenário era um apartamento de cobertura, na verdade um triplex. Nada suntuoso e nem com implicações ideológicas tão em voga hoje em dia. O sonho é bem mais antigo que isso.

O imóvel era simples, tipo classe média semi abastada (a que tem emprego e casa própria com suadas prestações). No segundo andar, mas meio escondido, como sempre, o tal sótão das lembranças.

Era mais nostálgico desta vez, como se aquele apartamento fosse enfim a casa derradeira para onde vou me mudar até o fim dos meus dias. E lá estava ele, meu refúgio particular.

Mas sobre ele e a casa, tinha o que devia ser uma cobertura particular, mas era um imenso páteo ao ar livre. Uma praça na verdade. E cheio de gente!

Meu primeiro pensamento foi: como assim, tudo aberto, sem grades nem cercas. Vou fechar tudo porque podem descer pelo prédio, pela minha casa, pelo meu sótão de lembranças...

Mas fui percorrendo os caminhos do parque, tanto verde, crianças brincando, pessoas caminhando e me lembrei da cena do filme Notting Hill. No início Anna e Will pulam a cerca de uma propriedade particular onde trocam seu primeiro beijo e veem um banco com uma bela dedicatória de amor. É nesse banco onde o filme termina, mostrando que tinham não apenas comprado o local, como o tinham aberto para que mais pessoas pudessem dele usufruir.

Mas não pensem que meu sonho terminou comigo, sentada placidamente em um banco do meu paraíso particular, lendo alguma obra tirada das estantes do meu sótão de lembranças.

Não!

Na verdade terminou comigo de carona com amigos que me encantam e instigam intelectualmente, percorrendo alucinadamente as ruas da cidade em busca de algo que ainda não sei o quê, em um misto de medo e adrenalina.

Recados do inconsciente, talvez.

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