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Problema de quem tira férias e tem carro

O Leitão era gerente do BB nos anos 50 em uma cidade do interior gaúcho chamada Lajeado. Também era meu pai.

Um contador de histórias e um fazedor de ações. A foto acima é dele e seus funcionários em uma enchente na cidade. Contava que recebiam clientes que vinham de barco para dizer que não iam poder pagar. Normalmente os mais pobres que necessitavam de empréstimo. Era daqueles gerentes que conheciam as pessoas pelo olhar.

Uma das suas histórias que gosto de lembrar como lição de vida é a que contava de um começo de férias. Carro recém comprado, ele bufando para colocar no pequeno Austin as bagagens da família, já meio estressado com o tempo e o espaço.

Na sua frente passa o velho jardineiro de nome alemão que nunca consegui decorar. Soava como Seu Mithelsted ou algo do gênero. Carregava uma carroça com seus apetrechos de jardim e restos das folhagens que retirava das casas onde passava. Tinha uma penca de filhos, uma dúzia sem mentir. Se esforçava para conseguir sobreviver com sua lida diária. Sempre com um sorriso nos lábios.

Passou pelo meu pai, magro e ágil nos seus trinta anos, corpo depurando o vício do tabaco que deixara um ano antes, com três filhos pequenos, uma linda mulher, casa recém construída, um emprego seguro em um banco estatal.

O jardineiro, velho de vida e labuta. O meu pai, jovem de sonhos por fazer. Um sorridente e aberto. O outro cansado e apressado.

Não lembro bem da história, foi algo tipo o jovem Paulo se queixando na pergunta de como ia, falando do tempo, do espaço pouco no carro pequeno, da bagagem para as férias.

"Problema de quem tira férias e tem carro, não é verdade, Seu Paulo?"

Ali, naquele momento, o seu Mithelsted mudou a vida do gerente do banco. Meu pai parou tudo o que fazia e falou consigo: que idiota eu sou, tenho carro, família, emprego. Vou tirar férias e estou aqui reclamando. Enquanto o senhor já velhinho, carregando uma pesada carroça, sem férias nem emprego fixo, passava por ele sorridente, vivendo o momento.

Várias vezes na vida, vi meu pai citando esta história e de como ela o ajudava quando ele deixava que as coisas perdessem o seu foco verdadeiro.

Hoje fazem seis anos que meu pai se foi. Imagino que se ele estivesse aqui ia saber colocar suas inquietações no patamar certo. Acho que ele, que viveu uma guerra mundial, jamais poderia imaginar que um bichinho ia ter tal poder de letalidade. Ou ia, porque um deles o levou. Mas com certeza ia nos contar que nossos problemas  de aguentar um isolamento em uma casa significava que a temos. Que não sair para comprar ou viajar significa que temos condições de o fazer. E que a vida não se resume a olhar o nosso umbigo, mas em ajudar o máximo que pudermos a transformar problemas em soluções. Foi isso que fez com que amasse sua profissão, podia ajudar pessoas a realizar seus sonhos.

Cooperação, generosidade e ação produtiva são alguns dos legados que meu formidável pai deixou como exemplo. Ele, cuja maior mágoa era não ter conhecido o seu pai, conseguiu se fazer pai de muitos pela vida.


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