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Mostrando postagens com o rótulo Pai

O nunca mais

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  Lembro da menina perplexa ao descobrir que as pessoas não duravam para sempre. Como assim, nunca mais pai e mãe? Era um pensamento tão absurdo e devastador que, por muitos anos, o sonho de viver em uma cidade deserta, onde as pessoas tinham evaporado, a acompanhou. Por estes privilégios da vida, o nunca mais a poupou por dezenas de anos. Perdeu a vó querida, é verdade, quando ainda era adolescente. Mas foi uma morte distante, poupada que foi da imagem fria do caixão que traz a realidade da despedida de forma mais bruta. Para ela ficaram a imagem, os cheiros, o colo da vó. Ainda hoje é isso que lembra quando se recorda dela. Perdeu tios que se foram mais cedo. Mas lembra que o primeiro impacto brutal foi quando a tia querida, irmã mais velha de sua mãe, se foi aos quase 90 anos. Vê-la em um caixão lhe trouxe uma tristeza tão profunda que lembra até hoje da roupa que usava. Um pensamento fugidio lhe veio à cabeça, ao lembrar que sua própria mãe tinha uma blusa igual. Pensou furtiva...

Quem cuida do cuidador?

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Acordei com uma saudade doída do meu pai. Daquelas saudades que cravam na carne, fazem a gente chorar, mesmo sem lágrimas. Algumas vezes com.  Me dei conta que foram muitas recordações nos dias pós Dia da Criança. E das coisas que sinto mais falta da infância é de ser cuidada. Não só eu, imagino. Acho que todos nós sentimos uma pontinha de carência dos tempos em que alguém cuidava de nós. Nossa alimentação, nossas feridas, nosso choro tinha colo. Mesmo quando não tinha e a gente guardava fundo no peito, já antecipando a adulteza que viria, ainda assim não nos era cobrado maturidade. A medida que crescemos, viramos cuidadores. De alguém, de coisas, de nós em última instância. Nossos pais viram filhos. Nossos filhos, sobrinhos, netos, toda essa nova geração que vem vindo exigem atenção. O mundo lá fora exige atenção. A vida urge atenção. E nós? Vez por outra dá uma saudade doída do tempo em que a gente era atendido. Acho que por isso lembrei meu pai. Ele cuidava. Estava sempre pronto...

Heranças dos pais que me arquitetaram

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Dos pais de minha vida lembro tantos.  Uns que conheci por palavras e lembranças, outros por ação e carinho.  Um em especial foi o meu pai. Ele mesmo filho de outro homem.  Um que ele tinha uma imensa tristeza de não ter conhecido e de ter guardado tão poucas memórias, tão pequeno era quando esse pai se foi. O Fábio guerreiro e combativo que aprendi a reconhecer como avô pelas histórias que meu pai contava. O imaginava jovem, cheio de uma energia de lutas e com uma coragem indômita de tudo arriscar pelo que acreditava ser o certo. Ao mesmo tempo, uma inconsequência por ter largado mulher e filhos tão cedo e tão abandonados. Morreu crivado de balas em uma época em que morrer por uma causa era ideia a ser levada a sério. Do Bartholomeu, médico e professor, também lembro pelas memórias de minha mãe. O caridoso que levava doentes para casa, recebia em galinhas e frutas da população daquele local ermo que foi achar ser o paraíso. O homem curioso e apaixonado pela natureza que ...

meu pai descascava laranja em gomos

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Meu pai descascava laranjas como se fossem bergamotas.  Parece que vejo suas mãos de dedos longos, unhas nem sempre rentes, rasgando a casca grossa e transformando a fruta em uma nudez delicada. Tirava ainda todos os pedacinhos brancos e me dava, gomo por gomo. Tinha um sabor que nenhuma outra laranja conseguiu ter. Não tenho essa paciência. Aliás detesto até descascar bergamotas. Embora adore come-las.  Aqui em casa sempre fomos gentis uns com os outros. O maior desaforo não era dado com palavras ásperas. Nunca! Era um ir na cozinha e voltar sem um copo de água também para o outro. Se nem perguntasse então, era caso de declaração de guerra. Sempre burilamos a gentileza como hábito diário. Bom dia, obrigada, por favor ou o por obséquio de meu pai, eram termos obrigatórios e correntes do vocabulário. Delicadeza era prato feito, hábito cotidiano tão arraigado que acho que já nascemos sorrindo e agradecendo à parteira.  Acordava cedo pela manhã, meu pai fazia o café antes do...

Eu tive um Pai

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Eu tive um pai.  Seu nome era Paulo. Para a menina que segurava a mão era Paizinto Eu tive um pai que deixava que eu fizesse tranças nos seus cabelos e lia gibis para mim. Eu tive um pai que me levava para passear e comer picolé enquanto o Papai Noel mamãe colocava os presentes na árvore. Digo para vocês que aquele passeio é das mais lindas recordações de Natal que tenho. Eu tive um pai que datilografava suas ideias, as que nunca tinha medo ou preguiça de lançar no seu trabalho, enquanto eu passava embaixo de sua mesa de trabalho. Eu tive um pai que abriu mundos e curiosidades. Eu tive um pai que era companheiro de comícios e carreatas. Eu tive um pai que era visionário e antevia o que ia acontecer em tecnologia. Eu tive um pai autodidata que me ensinou a pesquisar e não me contentar com respostas prontas. Eu tive um pai que me ensinou a pensar criticamente. Eu tive um pai que me ensinou a amar.  Eu tive um pai que exercia a democracia na prática em nossa casa. Ao mesmo t...

Problema de quem tira férias e tem carro

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O Leitão era gerente do BB nos anos 50 em uma cidade do interior gaúcho chamada Lajeado. Também era meu pai. Um contador de histórias e um fazedor de ações. A foto acima é dele e seus funcionários em uma enchente na cidade. Contava que recebiam clientes que vinham de barco para dizer que não iam poder pagar. Normalmente os mais pobres que necessitavam de empréstimo. Era daqueles gerentes que conheciam as pessoas pelo olhar. Uma das suas histórias que gosto de lembrar como lição de vida é a que contava de um começo de férias. Carro recém comprado, ele bufando para colocar no pequeno Austin as bagagens da família, já meio estressado com o tempo e o espaço. Na sua frente passa o velho jardineiro de nome alemão que nunca consegui decorar. Soava como Seu Mithelsted ou algo do gênero. Carregava uma carroça com seus apetrechos de jardim e restos das folhagens que retirava das casas onde passava. Tinha uma penca de filhos, uma dúzia sem mentir. Se esforçava para conseguir sobrevive...

O carnaval que quase acabou com o meu nascimento

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O som metálico da aliança jogada longe soou como um trovão no piso da Praça Saldanha Marinho. Era fevereiro de 1944 e o carnaval ia começar naquela sexta feira, dia 18. Helena tinha esperado com ansiedade a vinda do seu noivo, Paulo.  Haviam se conhecido cinco anos antes. Um cruzar de olhares e parecia que tudo tinha feito sentido. Mesmo os longos momentos de separação.  Ele continuou a morar na sua Cachoeira do Sul, fez concurso para o Banco do Brasil. Ela tinha ido para Passo do Sobrado, Porto Alegre, navegado para a capital que ainda era no Rio de Janeiro. Sobreviveram à cartas censuradas, tanto para a família como para o governo que havia, enfim, aderido aos aliados na luta contra o eixo. Eram os tempos conflituosos da Segunda Grande Guerra. Na Europa, a luta corria sangrenta. Poucos sabiam das perseguições às minorias daquele governo alemão que usava a eugenia como política de promoção da melhoria da raça germânica. Aqui no Brasil os descendentes daqueles ale...

Os livros que li

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Rodeada de livros. Diria que minha vida poderia ser definida desse modo. Desde pequena rodeada de livros. Os mais diversos assuntos. Contos de fadas, universos de outras terras. Rainha do gelo. Lindas princesas meninas chinesas, Diliki Doliki Diná que acenava com outras realidades. Minha vida foi generosamente regada com imagens que se descortinavam dentro de mim. Nunca me foi negada a oportunidade de buscar e saber mais. Ao contrário. Isso foi fomentado desde sempre. O pensar, o contraditório, o debate qualificado que tinha que ter argumentos sólidos e razoáveis. Minha maior herança. Os livros que li me abriram perguntas desde sempre. O universo é finito? Se o é, onde os limites? Se não, como conceber a amplidão do que não tem fim? A História como aprendizado aconteceu assim ou assado? As manchetes de jornais mostram de maneira diversa o mesmo assunto. Isso eram dúvidas e debates desde pequena. Assim era minha casa. Cheia de mentes arejadas. Gente de bem, trabalhadores e que...

Segundas precisam de histórias de Pai

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Ótimo! Acordar já é um privilégio. Acordar em uma cama tua, sob um teto teu, com possibilidade de comer e interagir com gente querida te faz uma pessoa que pertence à uma minoria bem específica da humanidade.  Sei lá se existe uma pesquisa que comprove isso, mas deve. Tudo é passível de pesquisas hoje em dia. Até o cansaço das segundas feiras. Afinal, quem não? Segunda feira é aquele dia em que tudo começa: trabalho, dietas, rota para os objetivos. Tudo adiado para a segunda que tem esse poder mágico de despertar o lado mais laborioso das pessoas. Isso para quem descansa nos fins de semana. Outra camada privilegiada. Como boa profissional liberal nunca tenho essa definição exata entre os dias da semana. Toda hora é hora de trabalho. Arquitetos entenderão. Mas ainda consegui reservar as manhã de sábado para meu reabastecimento. Isto antes de virar mãe e pai de meus pais. Eu, que não tive meus filhos, acabei tendo essa experiência mais tarde de cuidar de alguém....

Mão que guia - pai e filha

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Esposa barriguda. De repente no mundo aquela miniatura de mulher te olhando com curiosidade. E tu a ela. Uma filha! Não importa quantas tenham antes dela. Ou que seja a primeira. A relação pai e filha é algo tão marcante na vida de uma mulher que talvez poucos homens se apercebam de como são importantes. Talvez tu não saibas direito, mas o teu carinho, a tua atenção, a tua presença nos enche de uma fortaleza interna. É o olhar do diferente sobre nós. É nossa primeira conquista.  A mãe nos guia, nos ensina, nos dá exemplos. Com ela aprendemos muito do amor próprio. Mas é contigo, nosso pai, que aprendemos o amor com o outro. Aquela mão firme que segura a nossa, tão pequena, e leva para descobertas. Sempre atento, sempre guiando. Mas levando para o mundo. Mostrando novos horizontes. Apontando novos olhares. Ciúmes da mamãe? Nunca! Ao contrário, nossa admiração por ela cresce já que percebemos que tu a escolheste para companheira de uma vida. E para ser nossa mãe. Coisa q...