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A aliança serrada

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A serra comia o ouro enquanto minha mãe dormia.  Aos 96 anos, seu dedo anular na mão direita a usava desde 1943. Quase oito décadas que essa argola, gravada com as iniciais H e P, fazia parte de sua vida. Poucas vezes saiu de seu dedo. Uma vez, ainda noiva, jogada longe com furor por uma briga com seu jovem noivo. Talvez tenha surgido ali, quando reataram,  o pacto que fizeram Helena e Paulo de a usarem sempre na mão direita. Para quem não sabe há uma convenção nas argolas de compromisso. Mão direita, namoro e noivado. Mão esquerda, casamento.  Usar a aliança é uma forma de mostrar o compromisso que fazem as pessoas. Segundo li, o uso no dedo anular vem de uma tradição ainda dos romanos. Eles acreditavam que ali passava uma veia, a amori s, que era conectada diretamente ao coração. Depois, com o avanço da ciência, se descobriu que todas as veias conduzem ao coração, mas o hábito já estava arraigado.  Meus pais se casaram em 1944. A Segunda Guerra tinha terminado na E...

Julieta Silva Couto, a doce matriarca

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  Canceriana, nasceu em 06 de julho de 1882. Talvez a influência astrológica explique uma mulher que foi ao mesmo tempo a frente de sua época e coerente com os seus costumes, mantendo a doçura. Não conheci pessoalmente a Tia Julieta, mas ouvi tanto sobre ela que é como se a tivesse conhecido desde sempre. Era a mais velha das irmãs de minha avó Doralice . Seus pais, Crescêncio e Belmira, casaram em Viamão, Rio Grande do Sul, em 23 de novembro de 1878 . Creio que já tinham um filho quando nasceu Julieta. Casou com o viúvo pelotense Tito de Paula Couto, 24 anos mais velho, e com três filhas: Altiva, cujo apelido era Tivoca, Dalny, também chamada de Didi, e Bernarda. Tito era um grande capitalista da época, com inúmeros negócios, entre eles a exportação de banha. Homem de grandes posses e com possibilidades de ter um patrimônio considerável. Entre eles uma chácara em Teresópolis e, segundo o neto Fernando, um palacete na Rua da República, 547, em Porto Alegre com dois andares, vários...

A saga de Doralice entre curas e revoluções

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Enquanto arrumava mais uma vez as malas para uma nova mudança, Doralice pensou nos anos em que passaram na Coxilha de São Sebastião. Casara cedo com o Doutor alemão, vontade de sua mãe e irmã, apostando que a jovem de 18 anos teria um futuro mais promissor do que com o  jovem namorado de então.  Saíram de Porto Alegre em 1917, com os dois filhos do Doutor, José Carlos (6), Silvio (4) e a sua pequena Lieta de meses. Já carregava outro filho, que nascera e pouco vivera. Paulo Altino foi batizado. No ano seguinte, nasceu Manoel Luiz, que viveu apenas cinco meses. A vida era cruel para crianças e adultos em tempos como aqueles. Ainda mais medo sentia quando o Doutor lhe falava naquela gripe que matava tanta gente. Ainda bem que tinham saído um pouco antes para vir parar naquele descampado. No início chorara muito, mas depois entendeu que tudo faz sentido nessa vida. As notícias sobre o   tão temido tipo de influenza, tinham sido mantidas sob censura em função da prime...

As fogueiras da infância

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Lá fora crepitava o fogo na noite gelada de junho. Dentro de casa a animação também era calorosa. A ampla mesa da cozinha se tornava pequena frente à animação das gurias. Primas e adolescentes se esmeravam em sortilégios, os mais criativos, na ânsia de saber mais sobre seus futuros e amores.  Era década de sessenta. E lá, como aqui, as noites de festas juninas eram motivo para se falar dos amores e prováveis namorados. Ficantes era palavra absolutamente proibida e desconhecida. Pelo menos na frente dos pais e tios que a tudo assistiam sem muita atenção. Falavam de política e dos novos rumos do país com aquele presidente da vassoura. O que ia acabar enfim com a corrupção.   As mães e tias se ocupavam dos doces e comedorias. E do quentão que cheirava forte na sua mistura de álcool e canela. Era frio. Mas nem se ligava.      Lá fora os guris, dos mais novos de olhares arregalados aos mais velhos, já de olhares moles para as meninas da casa, todos se ocupavam d...

Problema de quem tira férias e tem carro

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O Leitão era gerente do BB nos anos 50 em uma cidade do interior gaúcho chamada Lajeado. Também era meu pai. Um contador de histórias e um fazedor de ações. A foto acima é dele e seus funcionários em uma enchente na cidade. Contava que recebiam clientes que vinham de barco para dizer que não iam poder pagar. Normalmente os mais pobres que necessitavam de empréstimo. Era daqueles gerentes que conheciam as pessoas pelo olhar. Uma das suas histórias que gosto de lembrar como lição de vida é a que contava de um começo de férias. Carro recém comprado, ele bufando para colocar no pequeno Austin as bagagens da família, já meio estressado com o tempo e o espaço. Na sua frente passa o velho jardineiro de nome alemão que nunca consegui decorar. Soava como Seu Mithelsted ou algo do gênero. Carregava uma carroça com seus apetrechos de jardim e restos das folhagens que retirava das casas onde passava. Tinha uma penca de filhos, uma dúzia sem mentir. Se esforçava para conseguir sobrevive...

Antônia e Alice, as outras mulheres de meu avô

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Antes de casar com minha avó Doralice , meu avô Bartholomeu teve duas outras mulheres. Oficiais. Em 1898, depois de passar alguns anos estudando em São Paulo e sendo diretor do colégio distrital de Taquara do Mundo Novo, ele se casa com Maria Antônia Jaeckel ( Iaeckel, Jackel, Jeckel podem ser outras formas de grafia do sobrenome). Era nascida na Bohemia, que  naquela epoca fazia parte do império austro húngaro. Atualmente o reino da Boemia é a república Tcheca. Seus pais Henrique Jaeckel e Helena Weiss provavelmente fizeram o mesmo trajeto que a família do jovem Bartholomeu fez em algum momento depois de 1875, ano do nascimento de Maria Antônia.  Ela tinha 24 anos quando se casaram, no dia 6 de agosto de 1898, na matriz de Santa Catarina da Feliz. Seus pais já tinham morrido na ocasião e como padrinho teve Ricardo Jaeckel, talvez seu irmão.  O casamento foi feito pelo vigário Max Von Lassberg, um padre jesuíta alemão, com uma peculiar predileção ...