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A saga de Doralice entre curas e revoluções

Luciano Streilaiev ‎Fotos Antigas, Sociedade e Memória do Rio Grande do Sul

Enquanto arrumava mais uma vez as malas para uma nova mudança, Doralice pensou nos anos em que passaram na Coxilha de São Sebastião. Casara cedo com o Doutor alemão, vontade de sua mãe e irmã, apostando que a jovem de 18 anos teria um futuro mais promissor do que com o jovem namorado de então. 

Saíram de Porto Alegre em 1917, com os dois filhos do Doutor, José Carlos (6), Silvio (4) e a sua pequena Lieta de meses. Já carregava outro filho, que nascera e pouco vivera. Paulo Altino foi batizado. No ano seguinte, nasceu Manoel Luiz, que viveu apenas cinco meses. A vida era cruel para crianças e adultos em tempos como aqueles. Ainda mais medo sentia quando o Doutor lhe falava naquela gripe que matava tanta gente. Ainda bem que tinham saído um pouco antes para vir parar naquele descampado. No início chorara muito, mas depois entendeu que tudo faz sentido nessa vida.

As notícias sobre o  tão temido tipo de influenza, tinham sido mantidas sob censura em função da primeira guerra mundial. O Doutor tinha lhe dito que como a Espanha noticiou mais livremente, tinham chamado de gripe espanhola. Chegara em Porto Alegre, então uma cidade com quase 200 mil habitantes, no final de 1918. Agradecia muito não estar por lá com as suas crianças. Mas temia pela família que lá estava. Lhes diziam nas cartas que a cidade tinha parado, havia restrição para circular e imaginem, até os velórios não eram mais realizados! Doralice tremia em pensar na possibilidade de não poder se despedir de seus entes queridos. Muitas pessoas morriam, falavam que 70 mil pessoas, mais de 1/3 da população, tinha pego a tal gripe para a qual não existia tratamento conhecido. De quinino à emulsão Scott, passando por canja de galinha e uma mistura esquisita de cachaça, limão e alho eram receitadas! Todo dia dia rezava para que não chegasse ali naquelas paragens.

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A coxilha de São Sebastião era um antigo agrupamento militar, na realidade pouco mais que algumas casas ao redor de uma capela. Ruas poeirentas que agravavam sua asma. Ainda bem que o marido era médico e fazia suas poções que a aliviavam. Não só a ela, mas a toda aquela gente que viu com alegria a vinda do Dr Bartholomeu Stein, um médico formado em 1913, mas que parecia mais experiente com a sua idade e sotaque alemão carregado. Tinha já 46 anos quando chegou na Coxilha, um distrito de Dom Pedrito. Veio em resposta ao pedido de seu irmão mais novo, João. 

João tinha vindo para a Coxilha há mais tempo. Se apaixonara pela linda filha de estancieiros locais e agora era um bem sucedido comerciante da região. Sua esposa Gasparina descendia dos afamados Simões Pires, por parte de mãe. A pequena Noêmia tinha apenas dois anos quando Doralice e Bartholomeu tinham chegado de mudança.

Na época, tinha escrito para sua mãe, Belmira, que o marido tinha comprado uma daquelas novidades que diziam que iria substituir as carruagens e cavalos, o tal de automóvel. Ford era a marca. Imagine que tinham vindo de navio até Montevideo, no Uruguai e dali, de trem até Bagé!!! Soubera que vieram as peças em grandes caixas de madeira, que foram montadas na cidade, e seguiram em carreta até a Coxilha. Levaram dois dias na viagem!!!

Luciano Streilaiev‎ em Fotos Antigas, Sociedade e Memória do Rio Grande do Sul
Dom Pedrito RS. Antiga loja da Ford em 1919.

Já tinha até se acostumado com a vida naquele lugar ermo, onde nasceram mais três filhas, a Flávia (1919), a Maria Eugênia (1921) e a Silvia Donatila (1922), quando dois acontecimentos marcaram a vida do lugar. A morte de seu cunhado, com 36 anos, ainda jovem e tão bonito. A bexiga negra virou peste naqueles locais. Sua jovem cunhada ficou inconsolável e se recolheu junto aos pais. E as revoluções.

O estado se convulsionava com as revoltas com a eleição do caudilho Borges de Medeiros. Seus opositores tinham lançado a candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil, um refinado criador de pensamentos mais liberais. Os dois lados travaram lutas renhidas no que ficou conhecida como a revolução de 1923. Os partidários do governo eram conhecidos como ximangos e os Assissistas como maragatos. 

revolução 1923 eleição Borges de Medeiros x Assis Brasil

Sem que Doralice e Bartholomeu sequer sonhassem, um dos jovens idealistas maragatos, bravo jornalista de Cachoeira do Sul, que passou pela coxilha junto com as tropas do Gen Estácio Azambuja, na 3ª Divisão do Exército Libertador, teria uma importância muito grande na vida de uma de suas filhas e que receberia o nome de Helena, em homenagem à irmã do pai. Justo a que nem tinha nascido e nem era projeto deles ainda. Fábio Leitão era seu nome, seu jornal se chamava A Palavra. 

O Doutor sempre tinha sido partidário de Julio de Castilhos, a quem devia várias nomeações na época em que era professor. Como estrangeiro aprendera que não convinha estar na oposição. Suas lutas eram outras. Precisava de meios para salvar vidas. Nessa faina ia a lugares de nomes curiosos: Upamaroty, Taquarembó, Corrales, Corrientes e Rivera. Como as tropas acampavam na sua chácara, Doralice e sua família eram obrigadas a ir se abrigar na Guarda Uruguai, comandada pelo Capitão Américo Castilho. O pequeno filho do capitão Hamilton, era advertido pela sua mãe para que não fizesse muito barulho para que el doctor pudesse descansar.

Já começava o ano de 1924. Doralice já tinha feito 27 anos. Era mãe de quatro lindas meninas, madrasta de dois, já tinha enterrado dois filhos pela vida. As Três Vendas os esperavam. Iam ajudar o velho farmacêutico alemão Cristiano Fischer, que já estava com 72 anos. Iam ser novos tempos. Ela imaginava o que a aguardaria ainda em sua nova vida.


PS: com exceção da causa da morte de João Stein que não consegui descobrir, todos os outros dados são históricos. 

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