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Julieta Silva Couto, a doce matriarca

 

Canceriana, nasceu em 06 de julho de 1882. Talvez a influência astrológica explique uma mulher que foi ao mesmo tempo a frente de sua época e coerente com os seus costumes, mantendo a doçura. Não conheci pessoalmente a Tia Julieta, mas ouvi tanto sobre ela que é como se a tivesse conhecido desde sempre. Era a mais velha das irmãs de minha avó Doralice.

Seus pais, Crescêncio e Belmira, casaram em Viamão, Rio Grande do Sul, em 23 de novembro de 1878. Creio que já tinham um filho quando nasceu Julieta.

Casou com o viúvo pelotense Tito de Paula Couto, 24 anos mais velho, e com três filhas: Altiva, cujo apelido era Tivoca, Dalny, também chamada de Didi, e Bernarda. Tito era um grande capitalista da época, com inúmeros negócios, entre eles a exportação de banha. Homem de grandes posses e com possibilidades de ter um patrimônio considerável. Entre eles uma chácara em Teresópolis e, segundo o neto Fernando, um palacete na Rua da República, 547, em Porto Alegre com dois andares, vários quartos e salas, sacadas, cozinha, despensa, banheiros, garagens cobertas, depósito, banheiro auxiliar no pátio, galinheiro, e dezenas de árvores frutíferas nos seus 88 metros de pátio. Esta casa serviu de moradia não apenas para Julieta e seus filhos, mas também para sobrinhos e netos. Está na memória afetiva da família como um dos endereços mais lembrados.

Casa da Tia Julieta

Julieta e Tito tiveram quatro filhos. O mais velho, do qual pouco se sabe além do apelido, Titinho, levava o nome do pai, Tito Junior. Presume-se que tenha morrido jovem, provavelmente com alguma das doenças da época, como a bexiga negra, nome pela qual era conhecida a varíola. Os Paula Couto, talvez os Silva também, mantém uma tradição de pouco falar sobre os dramas e perdas familiares. Os outros se chamaram Carlos (1910), Adolpho João (1913) e Ruy (1916). A família desfrutava de uma vida próspera, com acesso a luxos como carruagem com cocheiro e todo o conforto que a riqueza material pode proporcionar.

Em 1911 perde seu pai Crescêncio em circunstâncias trágicas. Após algumas tentativas frustradas, ele se suicida, deixando sua viúva Belmira com mais nove filhas, além de Julieta. Apenas quatro filhos homens, sendo apenas um em idade de prover abrigo às mulheres e administrar os bens que o falecido havia deixado.

Julieta, doce matriarca, cuidava de todos com desvelo. Preocupava-se com o futuro de suas irmãs solteiras, principalmente com o da jovem Doralice. Sua irmã, já em idade de casar, andava de namoros firmes com um jovem que não poderia lhe proporcionar um futuro seguro, em seu entendimento. A solução vem na figura de um médico alemão, conhecido de seu marido. Viúvo, já com dois filhos, poderia proporcionar a segurança que sua irmã necessitava. Bartholomeu Stein era seu nome. Em 1915, celebra-se o casamento de Doralice e Bartholomeu na capela da Arquidiocese de Porto Alegre, na presença do grande amigo do noivo, Dom João Becker, arcebispo metropolitano de Porto Alegre. Tito, marido de Julieta, foi uma das testemunhas da cerimônia religiosa.

Era casamenteira a Julieta. Tinha a preocupação de encaminhar para o que achava ser futuro feminino: casamento com um bom provedor. Talvez hoje isso fosse motivo de caras torcidas, mas naquela época era a realidade para que mulheres pudessem sobreviver. Eram tempos em que se precisava lutar para pedir o direito ao voto que ainda era negado às mulheres. Ele só se tornaria realidade para as mulheres brasileiras em 1932.

Com três filhos no colégio militar e o marido abastado, a vida parecia tranquila para Julieta, até que Tito fica enfermo e permanece acamado por longos cinco anos, até falecer em 30 de novembro de 1925, com 67 anos.

Julieta se tornou viúva aos 43. Como era uma pessoa inocente e boa, confiou na boa fé das pessoas. No inventário do marido, em meio às papeladas, termina por assinar documentos que transferiam muitos dos negócios de Tito para outras pessoas. Ela e os filhos ficaram com a posse apenas do palacete onde residiam e alguns imóveis que no decorrer de sua vida, foram sendo vendidos não apenas para a subsistência da família, mas também para ajudar sobrinhos e demais pessoas que dela necessitassem.

Em 1931, Carlos, o filho mais velho, resolve abandonar a escola militar e estudar paleontologia, assunto que o tinha fascinado durante seus estudos de geografia na escola. Seus irmãos e amigos ficaram escandalizados, mas a mãe Julieta bancou o sonho de seu filho mais velho de estudar aqueles bichões esquisitos, como a família se referia aos fósseis achados pelo cientista. Não apenas apoiou que não seguisse a carreira militar como o auxiliou financeiramente até que se tornasse um pesquisador renomado. Em 1980, Carlos foi condecorado pela rainha da Dinamarca com a Cruz de Cavaleiro da Ordem Real de Danebrog, em reconhecimento à continuidade que deu às pesquisas de Peter W. Lund, paleontólogo daquele país escandinavo.

Em 1934, acompanha os filhos Adolpho e Ruy, que foram estudar na Escola Militar do Realengo no  Rio de Janeiro, onde o ensino era gratuito, mas não a vida na Capital Federal. Para arcar com os custos de manutenção de sua família naquela cidade, é obrigada a vender tudo o que havia em sua casa em Porto Alegre.

Julieta tinha para todos uma palavra de afeto e carinho. Os filhos a chamavam de mãezinha até o final de suas longas vidas. Dois deles, Adolpho e Rui, morreram quase centenários. Às sobrinhas chamava de minha filhinha.

A Tia Julieta era muito querida e me dava atenção e carinho. Com ela e seus filhos, meus primos queridos, vivi dias maravilhosos. Ela me vestia com lindos vestidos, que eu nunca havia tido, sapatos novos. Me levavam ao cinema e até em bailes de gala, com vestido longo e tudo o que me deixava toda bonita. Tia Julieta querida, jamais te esquecerei, de tua bondade, de teu sorriso, de tua alegria, de teu amor por mim. Ela me chamava de minha filhinha.”(Helena Stein, sobrinha).

Saída de seu amplo palacete em Porto Alegre, Julieta chegou a morar em uma pensão na Tijuca, em 1936, conforme relata a sobrinha Lia, batizada Julieta em sua homenagem. Não se demoraram muito ali e logo se mudaram para o apartamento 1 na Rua Sampaio Vianna número 8. Era um imóvel novo e a sobrinha Lia relata, em carta de novembro de 1936, que parecia um “ovinho” mas era “muito engraçadinho”. Tinha “dois quartinhos, uma sala de jantar com varandinha, um quartinho de banho de boneca e uma cozinha lindinha com fogão a gaz e armários embutidos. E uma linda areazinha com tanquesinho. A mobília é lindinha, de linha simples e moderna”.

Da Tia Julieta me ficam de herança as palavras de minha mãe que também morou no Rio de Janeiro, em sua companhia. Ela, sempre pronta para sair e aproveitar a vida, devia ser uma pessoa muito positiva. A mãe sorria ao lembrar que ela lhe assoprava: “Filhinha, escreve para o teu namorado no Sul (meu pai) que é muito bom rapaz, mas não esquece de dar umas olhadas para os tenentes porque a gente nunca desilude ninguém...” Foi ela também quem deu o vestido de noiva com que a mãe, órfã de pai e mãe, se casou em 1944.

Viajou mundos e voltou aos pagos. Em sua cadeira de balanço, viu os filhos progredirem em suas vidas. Um cientista, dois militares. Os três expoentes em suas carreiras. Cuidou dos netos, dos sobrinhos e amigos. Com a mesma faceirice com que se arrumava para sair, tecia colchas de retalhos para aquecer os seus. Não descuidava de fazer sua fezinha nas loterias e de manter seus olhos brilhantes e sorridentes, cara de vó da gente.

Finalmente, descansou aos três dias de fevereiro de 1960, em Porto Alegre. A pneumonia, uremia e arteriosclerose generalizada venceram seu corpo, aos 77 anos.

Julieta, doce e firme matriarca das Silva, mãezinha do Carlos, Adolpho e Ruy, tiazinha amada das sobrinhas, jovem viúva do Tito. Se a conhecesse, sei que iriamos nos dar bem. Com ela, sua risada gostosa e sua imensa alegria de viver, poderia aprender muita coisa. Talvez até dar umas piscadelas para agora nem tão jovens rapazes, já que a gente nunca deve desiludir a vida.

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