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Virgínia, que sonhava viajar


Enquanto arrumava as malas para ir à casa da cunhada em uma cidade perto, Virgínia lembrou dos trilhos do trem. 
Poucos anos antes, ela e o recém namorado passeavam de mãos dadas pelas linhas férreas da cidade. Embora uma pequena metrópole para os padrões da época, em pleno estopim da Segunda Guerra Mundial, a estação da cidade não era muito movimentada. Os trens partiam em horários certos. Por isso os trilhos eram escolhidos pelos jovens enamorados para as primeiras escapadas a sós. Os trilhos e o cinema. 
O único cinema da cidade tinha filmes emocionantes. Quando ela  conseguia um dinheiro extra, sobrando da ajuda em casa, gostava de sentar nas poltronas não muito confortáveis e sonhar com uma vida diferente. Viajar para outros locais: conhecer não apenas as capitais, mas os lugares históricos. Viajar já a fascinava desde jovem.
Órfã muito cedo, nunca teve uma vida abastada. Sua mãe e tia vó costuravam para fora. Não conseguiu estudar muito e logo teve que arrumar um emprego para ajudar nas despesas da casa. Um bazar com magníficos presentes que as pessoas ricas da cidade frequentavam para comprar belezas para suas mansões. Ali também aprendeu  a reconhecer a qualidade dos objetos.
Adolescente cheia de personalidade, mal dominava o gênio forte que herdara de seu pai. Não levava desaforo para casa e não tinha papas na língua, para desespero de sua mãe e sob o sorriso complacente de sua irmã mais velha. 
Eram seis na pequena casa que tinha sido comprada pelos amigos e  companheiros de seu pai. Irmãos maçons que, em respeito à morte heroica do jovem amigo revolucionário, se comprometeram em ajudar sua viúva e quatro filhos menores. Assim cresceu, sem reclamar. Suas vidas, apesar dos parcos recursos, era feliz e divertida.
Quando o jovem começou a lhe fazer a corte, aceitou coquete. Era o destino de toda jovem. Casar, ter filhos. Seguiria sua irmã que já tinha saído de casa para casar com um dos filhos de um rico criador da região.
Não sentiu os sinos tocando como lera em vários romances. Mas pensou que isso viria com o tempo. Talvez...Gostava do moço, era gentil, parecia gostar dela pelo empenho que fazia em lhe  conquistar. Gostava também dos passeios nos trilhos. Não iria negar. Era jovem, saudável e a natureza se fazia presente nas vontades.
Não entendia o porquê da implicância que seu irmão mais velho tinha com o moço. No começo achou que fosse pelas línguas fofoqueiras da cidade que sempre espiavam o enlevo dos apaixonados. Umas beatas, pensava consigo. Espero nunca me tornar uma delas. 
O tempo passava, os danados dos sinos não tocavam, e o moço, agora seu noivo, se tornava mais insistente com os avanços. A inquietação dela entre o que imaginava ser seu caminho natural e o que o corpo lhe dizia, aumentava.
Enxoval pronto, a data se aproximando, ela cada dia mais inquieta. Conversava com as amigas, desabafava sua pouca paixão pelo moço, quando uma prima, mais ousada, desatou a rir e  dizer: imagina depois de casada! E descreveu as delícias (ou agruras) da vida matrimonial. A decisão cristalizou neste instante. Não queria fazer aquelas coisas. Muito menos com o noivo! 
Na primeira oportunidade,  conversou  o moço e decidida, mas delicada, disse que não ia levar adiante o relacionamento. Que o gosto não era de casar, que ele se sentisse livre para ser feliz com outra. Essas desculpas que se dá para não magoar, mas já se sentindo sem uma tonelada por  cima. 

Não imaginou a reação dele. Enlouqueceu. Disse que ia lhe matar e se matar se ela continuasse com aquela loucura. Revelou um lado que ela não tinha querido ver até o momento. Assustada disse que ia pensar e correu para casa.


Sua mãe e tia vó se mobilizaram rapidamente. Ela que fosse ficar uns tempos com o irmão que recém tinha mudado para outra cidade. Perto, mas longe o suficiente para se sentir segura. O mesmo irmão que tinha lhe alertado com a má vontade com o noivo. Ex noivo, agora.


Arrumou as malas pensando que alguns carinhos nos trilhos até que tinham sido bons, mas não mais que isso. Hora de partir para novos rumos. Quem sabe na volta não arranjaria um emprego melhor? Sua prima tinha conseguido uma vaga na Fazenda Nacional com um político da cidade. Quem sabe não conseguiria guardar um dinheiro a mais, poderia levar sua vida, sem necessidade de um marido para lhe dizer o que fazer.  Quem sabe ainda conseguiria conhecer a Grécia e o Egito...iria mais à Igreja, rezar pelo Deus de sua mãe que com fé a vida se torna mais palatável. Talvez até se tornasse uma beata. Mas nunca fofoqueira e nunca com alguém mandando nela.    

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