Quando me tornei mãe de minha mãe

O processo natural da vida é que a gente se sinta acolhida e protegida no colo da mãe. 

Este colo pode assumir variadas formas à medida que nos tornamos mais maduros. Mas nos parece sempre uma relação de alguém que busca e alguém que dá. A filha que busca respostas e amparo. A mãe que dá amor e proteção.

Ledo engano. Há os momentos em que os pais se tornam frágeis e os papéis se invertem. 


No começo parece que vai ser temporário. Eu até brincava com meus pais. Dizia que estava em desvio de função e logo íamos voltar ao normal. Eu até acreditava no que dizia. Ou fazia força para acreditar. 

Mas os anos passaram e a fragilidade aumentou.

Aprendi a ser eu quem decidia e amparava. Os Natais, os aniversários e datas especiais já não tinham a surpresa dos presentes deles. As letras nos cartões foram ficando tremidas até que esqueceram os dias especiais. Eu que virei Papai Noel. 

Passei a comandar a casa dela. Cuidar de seus remédios, ralhar quando teimava em esconde-los na mão para não tomar. Virei a mãe má que conta histórias para dizer que isso deve ou não ser feito. 

Deixei de dormir a noite para velar seu sono. Deixei de ter comidas especiais para que ela comesse a última fatia do doce. Passei a cuidar em vez de ser cuidada.

Mas foi e é dentro de mim que o turbilhão se faz mais presente. Não é de todo fácil vivenciar essa transformação de heroína em ser frágil. De ver o brilho ir se apagando, cada dia mais. De confrontar a finitude, o caminho de todos nós, sem se deixar levar por uma amargura que questiona o sentido da vida.

E aí me apego às lembranças. As dela fugidias. Não mais nomes, datas e memórias recentes. As minhas cada vez mais também focadas na jovem que me dava banho, fazendo bolinhas de sabão e cantando sempre músicas para cada momento do dia. 

Me pego rezando com ela o Santo Anjo do Senhor, como ela fazia comigo. cantando as cantigas de adormecer e amanhecer que ela cantava, cheia de alegria. 

Constato com alguma culpa que não tenho lá muita paciência, que as vezes me pego ralhando e que este ralho é no fundo, uma cobrança de como ela se deixou envelhecer, como se fosse possível parar o tempo. E mais me sinto mal quando ela me olha com olhar de puro amor e me diz que me ama muito.

Sinto seu olhar que me procura, que me quer ao seu lado, como uma tábua de contato com um mundo que já não faz muito sentido. As vezes brinco dizendo que ela gostaria que eu voltasse de novo para dentro de sua barriga. E ela ri, concordando. E nessas horas nós duas apenas gostaríamos que o tempo voltasse.

Sei que não tem volta. Me tornei a mãe dela. E como toda mãe só tenho uma escolha possível. Amar o melhor que puder.    

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