Uma semana, uma vida

Segunda feira de manhã 

Um corpo que voa no ar. 

Não fora estar na janela, assim meio a toa, não saberia o que de fato acontecera. Foi tudo muito rápido, mais que o seu olho conseguira acompanhar. Quando se deu por conta, o barulho do baque mostrou o garoto caído ao lado da quadra de esportes. Ele se levantou e deu uns passos antes que o horror se fizesse completo. Caiu de novo. Agora não fez barulho. Logo seria apenas estatística de suicidios de jovens na capital. 

Nunca conseguiu entender jovens que optam por acabar com a vida. Os velhos até podia entender. Solidão, decrepitude, doenças, falta de esperança. Tudo o oposto de quem nasce para a vida. Mas vá lá se saber o que passa na cabeça das pessoas. 

Ela também era jovem. Quase da mesma idade do garoto que voou da vida. Talvez ele fosse um dos olhava com mais interesse. Talvez fosse ser seu amigo. Seu namorado. 

E se fosse sua alma gêmea? 

Não, a vida não ia lhe pregar esta peça. Ainda muita coisa estava reservado de bom para ela. Seus voos seriam mais certeiros. 

Talvez.

Terça-feira ao meio dia


Fazia décadas que tinha saído da capital. Nem lembrava mais quanto tempo. Sua juventude tinha ficado guardada em fotos antigas, esquecidas em álbuns de retratos, desses que a gente guarda no armário para nunca mais olhar. Não fosse ser fissurada em pesquisas, jamais lembraria do garoto que um dia voou em direção à morte. 

Nunca se perguntara como era seu nome. Até saber algo mais sobre ele.

Foi numa viagem qualquer, uma conversa de banco com desconhecido. Falavam de tudo e nada, naquele emaranhado de palavras para sair do vazio, até acharem um ponto em comum: a cidade onde moraram um dia e por coincidência quase vizinhos. E com uma lembrança em comum. Um corpo no chão. 

Não, ele não vira o rapaz levantar e dar uns passos. Quando chegou ele já tinha morrido. Era apenas um monte de ossos e sangue. Era seu colega de classe. Não, não lembrava direito o nome, só recordava que ele tocava numa banda e queria ser músico. E tocava bem o danado, isso ele lembrava. Não, não sabia porque tinha feito aquilo. Era um cara aparentemente normal, aparentemente tranquilo. Tinha um olhar de mar de agosto.

Quarta-feira no começo da tarde


Riram juntos da lembrança do olhar de mar de agosto. Foi quando os olhares se cruzaram em um reconhecimento de almas. Quem ia ter essas associações esquisitas senão eles? Descobriram na mesma hora que tinham que se saber mais. 

Não, não pensaram em almas gêmeas ou em flechadas de cupido, que já tinham passado da idade dessas coisas. Apenas sentiram uma comodidade de alma. E sorriram, cada um para dentro do outro.

E continuaram rindo e se descobrindo. Descortinaram desejos, tiraram máscaras e quando se deram por conta, estavam se amando. Com gosto de mar de verão. 

Quinta-feira no lusco-fusco


Eram quase 18:00 horas. E ele não tinha voltado. Esperou mais uns minutos antes de ligar para o celular que não era dessas de desesperar por pouco. Mas ele nunca atrasava. Era previsível. Gostava disso nele.

Arrumou os livros. Pensou em tomar um banho, mas uma inquietude não deixava que fizesse outra coisa que não fosse se preocupar. E se.

E se ele tivesse sido assaltado. E se ele tivesse se acidentado. E se ele não voltasse...

As horas passavam e ela muda. Muda como o celular que tocava e tocava e ninguém atendia. 

Pensou em ligar para os amigos quando a chave girou na porta...

Sexta feira de noite


-Lembra daquela vez em que você me traiu? 

-Lembro nada, tu que não entendeu que a reunião terminou tarde. Esqueci o celular no carro, só fui ver as chamadas depois. Deixa de ser tonta, tanto tempo e tu não me esquece dessa história.

Esquecer até tinha esquecido. Gostava de lembrar quando queria que ele se sentisse culpado. Já nem importava o real motivo do atraso. Já tinham feito as pazes, já tinham viajado no tempo. Já tinham um gosto de mar de outono. 

Sábado quase meia noite


Olhar de mar de agosto. Sabia agora o que significava. Ambos sabiam.

Olharam o mundo com destemor e alçaram voo. Deles era o mundo. Deles a escolha. Deles a temeridade. Algum sentido devia haver. Talvez descobrissem.

Domingo de madrugada


Uma janela distante se abriu em luz. Um olhar atônito olhou a noite e a calçada.  



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