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Esmeralda, a filha esquecida


Aquela mulher pequena e forte que conheci como Vó Virgínia, a tia que criou minha vó Estelita desde que nasceu, escondia pedaços de informações que nunca ouvi falar. A história tem disso. Tanto a que se lê em livros, como a das pessoas anônimas, como nós.

A versão que sempre ouvi é que ela era irmã mais nova da bisavó que tinha morrido no parto. Criou a menina nascida tão pequena em seu regaço. Tinha se casado e separado porque o marido bebia. Se mais sabiam, nunca ninguém falou. Era como se a autoridade que ela sempre nos inspirou, fizesse com que a versão de sua vida fosse a que ela queria contar. 

Não fosse por uma sobrinha bisneta, metida a pesquisadora, que adora fuçar na história, juntar caquinhos e retalhos, tentando assim formar um quebra cabeças que mostre um pouco mais quem foram as mulheres que me antecederam, talvez a memória que tivesse ficado seria a que narrei antes. Refleti muito se devia reescrever as histórias que tinha contado antes. Cheguei a conclusão que a narrativa que conhecemos também fez parte de nossa história familiar. Se a vó Virgínia era assim ou assado, ou mais que tudo alguém com uma complexidade que não alcançaremos de todo, não nos cabe julgar. Olhemos os fatos, que cada um fique com a sua versão.  

Descobri afinal que existiam mais retalhos na história da Virgínia que podia sonhar minha vã filosofia.

Aos 16 dias do mês de setembro de 1876, na cidade de Candelária, no RS, nascia Vergina da Cunha. Era filha de Vasco Xavier e Maria Carolina da Cunha. Não sei se realmente foi registrada assim, ou se foi erro de grafia do velho vigário que assinalou o batismo na Matriz Nossa Senhora do Rosário em Rio Pardo, RS. A sua letra no registro mostra que a mão já era trêmula naquele 22 de janeiro de 1877, uma segunda feira. A majestosa igreja ainda não tinha sua segunda torre, mas era considerada das mais belas e imponentes do estado, tendo sido mencionada por visitantes ilustres como o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire e o barão Homem de Mello. Os padrinhos da pequena Vergina foram Joaquim José de Brito e Domiciana de Brito, um casal de amigos dos pais. 

Vergina era uma das filhas caçulas do casal. Quase dez anos a separavam de Ana Júlia, a irmã que teria um papel fundamental em sua vida. Ela, com apenas 21 anos, viu sua irmã mais velha não resistir ao parto em janeiro de 1898. E tomou para si a pequena Estelita, a partir dali, criada como se fosse sua filha. 

Um ano mais tarde, em 17 de outubro de 1899, a agora Virgínia Ambrozina da Cunha se casa com Jorge Leopoldo Wernz. Ela com 23 e ele 26 anos. No cartório de Candelária, às 17:00 de uma terça feira, tendo como testemunhas Cassiano Pinto Porto e José Ignácio da Silva, o jovem curtidor e a jovem de prendas domésticas assumem o compromisso matrimonial. 

Dez meses depois nasce, sem vida, a pequena que se chamaria Esmeralda. Era 8 de agosto de 1900, três horas da tarde. Jamais saberei a dor que isso significou para ela. Talvez tamanha que o nome e a existência da pequena foi calado para sempre. Talvez em suas orações ela rezasse pela menina que nunca viveu. Talvez a sobrinha, que criava como filha, a chamasse para a vida. Talvez ela já tenha nascido com o pragmatismo das virginianas que levam a vida adiante, seja como for, venha como vier.

Isso talvez explique porque ela nunca foi particularmente carinhosa com os sobrinhos bisnetos. Não era má nem cruel, era apenas distante. Empenhada em criar os netos emprestados na vida dura que se seguiu. Sempre altiva e sempre cheia de personalidade.

Foi ela que, aos 37 anos, compareceu ao cartório do distrito de Costa da Serra, nome antigo do futuro município de Candelária, para comunicar o falecimento de Jorge Leopoldo em 25 de julho de 1914. Tinha vivido quarenta anos, oito meses e doze dias. Não deixou filhos. A causa da morte foi hidropisia. Foi sepultado no cemitério católico na povoação. Foi se juntar à Esmeralda. 

Talvez tenha sido o motivo da Virgínia da Cunha Wernz ter se mudado para Cachoeira do Sul com sua sobrinha. Nunca vou saber o que se passava em sua alma. Consigo juntar pedaços de dados de sua vida, imaginar o quanto a impactaram. Nunca perdeu a altivez e sempre foi uma das poucas pessoas que meu pai obedecia sem questionar.

Viveu bastante. Costurou para sobreviver. Rezou, era mulher de fé. De sua vida pessoal, sabia que o marido bebia, talvez tivesse vontade de deixa-lo, mas as circunstâncias a impediram. Talvez gostasse dele. Talvez tenha sufocado o amor que seria de Esmeralda. 

O pesquisar o passado e a história da família, mais que achar ligações com pessoas ilustres ou possibilitar acesso à passaportes, me traz uma satisfação interna de resgate, por pequeno que seja, da história dessas pessoas. Umas que conheci pouco, outras que amei muito. Outras ainda que só sabia o nome. Todas elas pedaços de uma teia que se constrói ainda hoje em cada nova criança que nasce nessa família. Todas elas partes de um todo muito maior.

Meu carinho por Esmeralda. Por todas as crianças que já pesquisei, que pouco viveram, mas que fazem parte de nossa memória agora, com identidade e respeito. 

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