Estelita dos grandes olhos meigos

O século dezenove ia quase se terminando e tudo corria calmo naquela pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul chamada Candelária. Menos na casa do Chico Bello. Mais um parto se aproximava, desta vez bem antes da hora esperada. Ele e sua querida Anna Julia aguardavam mais uma criança para se unir às outras que faziam a festa de suas vidas. 

Francisco já era um homem feito quando conhecera aquela jovem que lhe roubara o coração. Já não tinham mais os arroubos da juventude, é bem verdade, mas sua esposa ainda era jovem. Sorriu ao pensar em quantas noites ainda teria que esperar para te-la novamente nos braços. Foi quando ouviu os gritos da sua jovem cunhada. 

Misturado aos choros de um bebê recém-nascido, ouviu as mulheres gritando e correndo apressadas, mostrando que algo não corria bem. Mas nem em seus piores presságios poderia imaginar que aquele parto prematuro fosse terminar de maneira tão trágica. 

O dia terminava e com ele a sua vida ao lado de Anna Julia. 

O Chico Bello não chorou. Não conseguiu. Nem quis olhar aquele bebê que ficou ali, mirrado como toda criança que chega antes da hora. Não fosse pela esperteza da sua tia, talvez tivesse acompanhado a mãe em sua viagem ao eterno.

A tia era recém casada. Já podia, portanto, participar dos afazeres do parto. Sentiu uma ponta de angústia, achou que era pela responsabilidade. Mal sabia que era o cheiro da morte assoprando. Foi para ela que Anna Julia implorou em olhar mudo: "cuida do bebê". Antes mesmo de saber que era uma menina. Nunca soube.

Virginia era jovem e pequena, mas já revelava a personalidade que teria em toda a sua vida. Segurou a tristeza, enxugou as lágrimas e pegou a menininha do tamanho de uma boneca pequena com ternura. Trouxe o bebê ao local mais quente que encontrou, seu peito. Ali se fez uma mãe. Ali as suas almas se encontraram. Nunca mais se separariam. 

Ninguém pareceu reparar que a recém nascida não estava mais ali. As crianças choravam pela mãe, o viúvo ficava mau-humorado pelos cantos, preparando o enterro. 

Maria, pensou Virginia, olhando para aquela boneca viva, tão frágil, que agora era sua. Ela, que tinha sido criada pela irmã, dez anos mais velha, repetia a sina de criar sua filha. Maria Estellita! Estava batizada a menina. "Estilita", cantou alto e a guria por encanto parou de chorar. Seria sua Estilita para sempre. 

Seu marido nem ligou porque andava pelas ruas. Dera para beber. Não tinha mais nada do rapaz meio sem jeito com quem casara. Esperava que ela lhe desse filhos para a lida. Não tinham vindo, quem sabe se a maternidade de ocasião não lhe abrisse o útero, pensava consigo enquanto tragava mais uma lisa no bar. 

Do jeito que deu, Virginia alimentou sua Estilita. Não faltavam amas de leite que tivessem peito para dar. A menina foi ganhando corpo, ficou mais rosada. Olhos grandes e meigos como a mãe. Ia ser generosa a guria, dava para ver. Era quietinha, como se não quisesse dar trabalho. Nunca quis. Nunca deu. 

Suas vidas seguiam juntas. Um dia o marido de Virginia se excedeu, tentou levantar a mão e foi o quanto bastou para que a menina frágil se transformasse numa leoa. Tomou uma atitude rara naqueles tempos em que o século vinte iniciava e onde as mulheres mais calavam que falavam. Se separou. 

Foi um escândalo. A cidade não perdoou. De tal forma que o tio de Virginia achasse por bem leva-la para uma cidade maior. Quem sabe se em Cachoeira não iam levar uma vida mais feliz? Foram as duas. 



Estelita tinha se tornado uma mocinha bonita, de uma beleza triste, daquelas melancolias que encantam sem que a própria pessoa se dê conta. Era discreta como cabia às meninas que não tinham muitas posses. Seu pai, Francisco, tinha casado novamente e logo depois morreu. Os irmãos tinham seguido seu rumo. Ela e sua tia moravam na casa de parentes abastados. Eram bem tratadas, mas sabiam ser gratas. Ajudavam nas lides da casa, sem reclamar. Era sua sina. Era destino das duas. Deus devia saber o que fazia.

Era discreta também nos namoros. Olhava um que outro rapaz mais bem apessoado, mas sua tia lhe alertava que o amor podia ter riscos, melhor não apostar muito nele. Já ia se conformando quando aquele dia marcou para sempre a sua vida. 

Estava limpando as janelas enormes do casarão onde moravam, quando entrou um homem, meio aparentado com o seu tio, marido da tia de sua mãe. Era bonito de dar nos nervos. Olhar de águia, voz firme, um homem daqueles valeria a pena correr todos os riscos, pensou meio envergonhada. Por via das dúvidas, não olhou muito. Aquele tipo de homem, que poderia ter a mulher que quisesse, jamais demoraria um olhar para ela. Tentou esquecer e voltar à rotina. 

Não demorou uma semana e seu tio, que agora exercia o papel de seu tutor legal, desde a morte do pai, veio lhe falar em particular. O tal homem do olhar de águia queria permissão para lhe fazer a corte. Fábio era seu nome. 

Pouco tempo depois estavam casados. Para seu espanto, ele conquistara também sua tia Virginia. Ambos tinham ideias políticas semelhantes e passavam longas noites em debates acalorados. Ela, Estelita, não. Ela olhava e admirava. Ele com olhos de águia de quem caça o que quer. Ela com seus grandes olhos meigos de que se sabe esteio para repouso dos que guerreiam. 

Nas noites de paixão se descobriu mulher. Ele todo ternura, era feito daquela têmpera de homens que sabem ser ternos e guerreiros. Sua sina de mulher das sombras parecia ter terminado enfim. Se tornou mulher mais forte. Sua tia apenas olhava e sorria. Sua filha postiça tinha enfim uma sorte melhor que a dela. 

Os filhos foram chegando. Um atrás do outro. E seu Fábio não esquecia seus ideais. Lutava nas revoluções, deixava seus negócios para exercer seu ofício de jornalista partidário. Suas palavras impressas valiam como armas potentes. Os tiros na madrugada que marcavam as paredes da tipografia revelavam toda a guerra que iria marcar suas vidas. 

A pequena Nelly tinha cinco anos, o inquieto Paulo quatro. A pequena Virginia tinha dois e seu ventre ainda guardava sinais do parto recente do pequeno João, com cinco meses, quando o quartel do exército se rebelou. Iam seguir um jovem militar que, por coincidência, tinha nascido quase junto com a pequena Estelita. Luís Carlos Prestes, dois dias mais velho que ela. Ainda não sabiam, mas ele iria reunir uma série de revoltosos e subir o Brasil na marcha que se tornaria internacionalmente famosa, a Coluna Prestes.

Fábio não ouviu as súplicas de sua jovem esposa. Foi atrás de sua sina. Não voltou vivo. Se tornou história. 

Deixou Estelita e Virginia, mais uma vez abandonadas. Sem casa, sem meios de viver. Não fossem os amigos da maçonaria iriam depender da ajuda do tutor novamente. Isso não queriam mais. Se olharam com resolução, se o caminho era esse, que percorressem juntas. As crianças começaram a chorar e elas se deram as mãos. Iam fazer sua história. A sina das mulheres que não deixam seu nome marcado, que não são lembradas pelos grandes feitos, mas pelas ações de vida, de renúncia, de coragem e de sobrevivência. 

Maria Estelitta que sobreviveu no parto prematuro, com seis meses. Virginia que a tomou no peito e a criou como se sua filha fosse. Juntas iam criar seus filhos e netos. A máquina de costura ia ranger madrugada a dentro. Suas carnes iam murchar sem palavras nem atos de amor. Seus colos iam se tornar grandes e bondosos. Iam viver e fazer viver a outros.

(Em homenagem à minha avó, uma mulher excepcional, que eu chamava de velha, brincando no seu colo e ela rindo da minha fala infantil. Velha quando ela tinha a idade que tenho hoje. A vó que tenho em meu coração e sinto ao meu lado enquanto escrevo. Não sei o quanto disse aqui era real ou foi fruto da minha imaginação. Prefiro acreditar que ela me ditou. E que me diz que a vida se faz vivendo, que sempre vale a pena e que sim, foi muito amada pelo seu Fábio de olhos de águia.) 

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