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Das Páscoas sem isolamento

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Coelhinho da Páscoa, que trazes prá mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim... A guria loirinha, de grandes olhos escuros, morava em uma casa grande, com janelas muito altas, onde as paredes cresciam na medida de sua escala. Tudo era bonito. Morava com seus pais e irmãos em uma cidade ainda pequena do interior gaúcho. Novo Hamburgo. Sua casa era palco de muitas festas e encontros. Até banda de música tinha entrado em um Natal ou Carnaval, não lembrava direito que aos quatro ou cinco anos, a noção de tempo é muito diferente. Bem que o primo mais velho, servindo no exército, tinha lhe dito um dia: não queira crescer rápido. Um dia, quando fores mais velha, vais entender que vives agora os melhores momentos de tua vida. E vais lembrar do que te digo. Lembro sim, primo. Mesmo que os calores dos debates de ideias que vivemos mais tarde tenham nos afastado. Naqueles dias não havia afastamento. Nem isolamento. Os muros serviam apenas para delimitar os terrenos, porq...

Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar

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As tradições. De onde vem os rituais que repetimos anos após ano, aprendemos em nossa infância, levamos para a vida adulta. Por vezes mesclamos com os rituais de pessoas que vamos somando na vida. Lá em casa os Natais eram festas grandes. O pinheirinho nunca podia ter este nome porque eram, em geral, arvores de quase três metros, cortadas especialmente para a ocasião. Lembro de ir comprar e ver aquela fila de pinheiros, uns maiores, outros menores, esperando para serem levados às casas, enfeitados, saudados, festejados como símbolos de fé e renovação. E depois jogados fora, já despidos dos verdes e transformados em lixos secos. E os coitados que nem escolhidos eram, ficavam ali mofando, em uma morte inglória porque nem serviram para algo. Tipo muita gente que passa pela vida sem sentido e morre sem mais ainda. Filosofias à parte, o pinheiro era engalanado na sala. Apoiado por uma estrutura de caixas com pedras para que ficasse bem firme. Era a hora mágica de trazer os enfeit...

Estelita dos grandes olhos meigos

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O século dezenove ia quase se terminando e tudo corria calmo naquela pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul chamada Candelária. Menos na casa do Chico Bello. Mais um parto se aproximava, desta vez bem antes da hora esperada.  Ele e sua querida Anna Julia aguardavam mais uma criança para se unir às outras que faziam a festa de suas vidas.  Francisco já era um homem feito quando conhecera aquela jovem que lhe roubara o coração. Já não tinham mais os arroubos da juventude, é bem verdade, mas sua esposa ainda era jovem. Sorriu ao pensar em quantas noites ainda teria que esperar para te-la novamente nos braços. Foi quando ouviu os gritos da sua jovem cunhada.  Misturado aos choros de um bebê recém-nascido, ouviu as mulheres gritando e correndo apressadas, mostrando que algo não corria bem. Mas nem em seus piores presságios poderia imaginar que aquele parto prematuro fosse terminar de maneira tão trágica.  O dia terminava e com ele a sua vida ao lado...

Olhos tristes de Dora

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"minha mãe era triste, tinha um olhar melancólico, perdido ao longe"  Assim aprendi a conhecer a Dora. Apesar de tão próxima, minha vó, a mulher que pariu minha mãe e mais sete filhos, sua figura era empalidecida pela imagem do avô. Médico, alemão, mistura de autoridade com ternura, um ser solar que encheu de luz a vida de seus filhos. Mas não a da Dora. Dos retalhos que fui catando pela vida para traçar a sua personalidade, poucos, muito poucos, me mostram uma mocinha séria, recatada. Uma mulher de olhar duro, quase nada lembrando aquela adolescente quando as maternidades marcaram seu corpo e a lida no campo também. O olhar altivo quando já viúva, trouxe os filhos à uma exposição famosa e se metamorfoseou de novo naquela mulher urbana com quem o Doutor casou. Doutor. Assim chamava seu marido. -O Doutor está brincando? quando viu a casa de chão batido onde iria morar no interior. Ela que usava raposas para ir ao teatro. Ela que usava colares de pérolas e and...

Pratos especialmente memoráveis da infância

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Retomando o projeto 52 perguntas, 52 respostas que andava adormecido.  Tenho essa mania de revirar o passado e anotar o que vou descobrindo, além de gostar de ouvir os tios e tias mais velhos. Foi assim que descobri muita coisa de minha família e atualmente estou reunindo essas informações em dois blogs para que mais pessoas possam também usufruir dessas descobertas. Lembrei especialmente deste projeto que achei na internet tempos atrás lendo para minha mãe as recordações que ela e suas irmãs escreveram sobre as suas infâncias. Se não fossem por elas muitas das coisas que sei sobre meus antepassados teriam se perdido no limbo da história. E porque acho importante preservar a memória dos que me antecederam? Uma que é uma forma de homenagem. Outra que me mostra de onde vim e quais são os valores e heranças afetivas e comportamentais que deles herdei. Algumas das recordações mais importantes de nossas vidas estão relacionadas aos sentidos. As músicas e sons que ouvimos. Os ...

20 coisas interessantes que já experimentei na vida

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Lembranças. Quem não as tem? A medida que os anos vão rolando na estrada de nossa vida, nossa memória vai embolando a ordem de quando e como as coisas aconteceram. Já se disse (quem mesmo?) que o que fica é mais a versão que a experiência real. Primeiro conceito: o que é interessante? O que é para mim, pessoa física, pode não ser para você, que me lê agora. Aliás o meu conceito de interessante é muito amplo. Vai desde um arrepio de descoberta até um sentimento que descubro em mim ou no outro. Dito isso, não espere aqui nada sobre esportes radicais. Meus prazeres não passam por esse tipo de adrenalina.  Monica Crema Mas por onde será que passam mesmo???? Vou tentar separar por décadas para tornar mais fácil e mais real o panorama de auto lembrança.   Fonte Descer a serra comendo bergamota com o vidro do carro aberto. Era super raro acontecer porque minha irmã usava penteados elaborados e cheios de laquê (anos 60) e proibia que o vidro ficasse aberto. A sensa...

1957 - Grande safra e grandes memórias - (minha visão)

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Hospital Bruno Born- Lajeado -RS Nasci no Hospital Bruno Born em Lajeado , no estado do Rio Grande do Sul.  É uma das poucas coisas que sei sobre a cidade onde nasci. Minha família se mudou para lá, em função do trabalho de meu pai. Acho que já moravam na cidade há uns seis anos quando me encomendaram.  Assim vou tentar continuar com o desafio das 52 perguntas em 52 semanas falando o pouco que sei sobre Quando e onde você nasceu? Descreva sua casa, sua vizinhança e a cidade onde cresceu . Minha casa. Minha primeira casa. Meus pais construíram essa casinha simpática para a sua família de quatro pessoas. Eles e meus dois irmãos. E mais os primos que iam morar ali para estudar. As histórias da minha cidade natal conheço pelas lembranças deles. Nossa casa, hoje uma imobiliária (veja foto acima), em quase tudo permanece igual. Talvez sem a horta que minha mãe sempre fazia em suas casas. E cujas sobras, minha irmã mais velha vendia de porta em porta, já antevendo ...