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Das Páscoas sem isolamento

Imagem de Alexas_Fotos por Pixabay

Coelhinho da Páscoa, que trazes prá mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim...

A guria loirinha, de grandes olhos escuros, morava em uma casa grande, com janelas muito altas, onde as paredes cresciam na medida de sua escala. Tudo era bonito. Morava com seus pais e irmãos em uma cidade ainda pequena do interior gaúcho. Novo Hamburgo.

Sua casa era palco de muitas festas e encontros. Até banda de música tinha entrado em um Natal ou Carnaval, não lembrava direito que aos quatro ou cinco anos, a noção de tempo é muito diferente.

Bem que o primo mais velho, servindo no exército, tinha lhe dito um dia: não queira crescer rápido. Um dia, quando fores mais velha, vais entender que vives agora os melhores momentos de tua vida. E vais lembrar do que te digo. Lembro sim, primo. Mesmo que os calores dos debates de ideias que vivemos mais tarde tenham nos afastado.

Naqueles dias não havia afastamento. Nem isolamento.

Os muros serviam apenas para delimitar os terrenos, porque havia porteiras entre os vizinhos, que ficavam sempre abertas.

As portas também. 

As crianças passavam de casa em casa e eram recebidas como se suas fossem.

Na Páscoa, nossa vizinha de lado, D. Myriam e sua família, escondiam pequenos ninhos de guloseimas e a gurizada fazia a maior farra tentando descobrir em qual canteiro estavam.
Imagino a alegria dos mais velhos olhando aquela cena.

Em casa, a busca se repetia.

Nossos ninhos eram feitos um pouco antes. Minha irmã adolescente se encarregava de pegar as caixas de sapatos, recortar papeis coloridos que podiam até ser páginas de revistas, o que tivesse, já que reciclagem já se praticava em casa desde sempre. Os pais chamavam de não desperdiçar.

Os dois, órfãos cedo, passaram muitas dificuldades para fazer suas vidas, mas carregavam nos olhos a chama da alegria.
E acho que por isso, os rituais eram tão importantes lá em casa.

A "feitura" da festa.

Das festas que lembro, a que mais gostava era justamente a Páscoa.  

Minha avó sempre vinha do interior e fazia uma deliciosa maionese de bacalhau. Interessante que só eu lembro disso. Então não sei se era real, ou uma memória que não posso explicar, que a vida tem desses mistérios.

Não lembro da sexta santa, só mais tarde que eram dias mais sombrios, mais de recolhimento. Embora nossa família não fosse praticante, éramos católicos. Lembro do pai contando que uma das tradições de quando era pequeno era colher macela na sexta feira santa. Ele contava rindo que por anos acreditara que a macela só florescia naquele dia e considerava isso um milagre divino. Então acho que a gente também subia a serra de carro para colher macela. 

As tradições bacanas sempre foram feitas lá em casa. Mas sempre de uma maneira leve e alegre. 

No sábado se falava que era o dia de malhar judas, de desopilar as raivas e bater nos bonecos que representassem o que não se gostava. De políticos a seres maléficos. Assim como a vara de marmelo do Papai Noel, também as crianças eram meio que ameaçadas com a malhação do Judas, se não fossem obedientes. Lá em casa não. Não me lembro de ter sido assustada com punições ou noções de pecados atrozes. Eles nos ensinavam responsabilidade e livre arbítrio de maneira real. A democracia sempre foi vivida em nossa casa de maneira muito prática e não apenas na teoria.

No domingo havia o ritual de procurar o ninho. Agora um pouco maior, aquele que tínhamos feito e deixado para o coelhinho encher de guloseimas. Nunca entendi porque o danado do bichinho tinha que esconder chocolates. Devia ser meio sádico, gostava de ver a ansiedade dos pequenos. Era um tal de olhar embaixo de cadeiras, atrás das cortinas, dentro de móveis...cada ano num lugar diferente. Danado de bom de memória que nunca repetia o esconderijo!

Dentro do ninho, que era preenchido com palhas ou jornal recortado vinham poucas coisas compradas. Não existiam ovos enormes de chocolate. Apenas ovinhos de açúcar, duros para testar se os nossos dentinhos eram bons. Alguma barra de chocolate, balas. E ovos recheados de amendoim!

Mas não eram os doces que mais me marcavam. Era a ideia do recomeço, um sonho que carrego desde sempre. Uma coisa de superação de maus momentos, de ressurreição de Vida. 

Ressurreição de Esperança.  

Acho que herdei de meus pais essa coisa mágica de olhar a vida com positividade. De meu pai solar, a ação de saber transformar os momentos em algo bonito e construtivo. De minha mãe virginiana, o brilho e a poesia de contar histórias e fazer as coisas práticas com uma pitadona de humor. 

Por isso, nessa Páscoa em tudo diferente para muitos, não importa se não terá chocolates ou festas em família. A esperança reside em nós. Saber busca-la e mante-la viva deve ser nossa contribuição para que a comunhão se faça! 

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