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Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar


As tradições. De onde vem os rituais que repetimos anos após ano, aprendemos em nossa infância, levamos para a vida adulta. Por vezes mesclamos com os rituais de pessoas que vamos somando na vida.

Lá em casa os Natais eram festas grandes. O pinheirinho nunca podia ter este nome porque eram, em geral, arvores de quase três metros, cortadas especialmente para a ocasião. Lembro de ir comprar e ver aquela fila de pinheiros, uns maiores, outros menores, esperando para serem levados às casas, enfeitados, saudados, festejados como símbolos de fé e renovação. E depois jogados fora, já despidos dos verdes e transformados em lixos secos. E os coitados que nem escolhidos eram, ficavam ali mofando, em uma morte inglória porque nem serviram para algo. Tipo muita gente que passa pela vida sem sentido e morre sem mais ainda.

Filosofias à parte, o pinheiro era engalanado na sala. Apoiado por uma estrutura de caixas com pedras para que ficasse bem firme. Era a hora mágica de trazer os enfeites bem guardados. As finas e delicadas bolas de natal, todas diferentes e ainda guardando as linhas que as ligavam aos natais passados. Tinham as vermelhas, azuis, amarelas. As com carinhas de Noeis e anjinhos. Depois vinham suportes para velas que eram acesas na noite de Natal. Nunca entendi como não causavam incêndios gigantescos. Vi um começar na árvore de minha irmã, certa feita. Logo debelado. Deviam ser os anjos guardiões que estavam de plantão nas noites de festas.

O algodão não podia faltar. Simbolizava a neve e devia ser lembrança do avô alemão e dos natais da infância de minha mãe. Do meu pai acho que vinha a tradição do presépio. Não sei bem porque acho isso, lembro dele falando que sentia uma grande mágoa de nunca receber presentes como as outras crianças. Minha avó, viúva, era pobre. Ele lembrava com emoção de quando ela arrumou um carrinho usado para que ele tivesse um presente no Natal. Talvez por isso cantar  

"Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel"

fizesse tanto sentindo como uma lembrança melancólica e bela. E talvez até por isso, meu pai, que não teve tantas tradições de Natal quando criança, curtisse tanto festejar e presentear. Ele que não recebeu muito as visitas do bom velhinho, se transformou nele quando adulto, mantendo o espírito de brincadeiras. Não, ele nunca se fantasiou. Uma vez contratou um Noel de aluguel. Feio coitado, magro e com uma máscara horrível. E vinha com uma varinha de marmelo ameaçando as crianças com ela. Corri de medo e estraguei a boa intenção do meu pai (desculpa, querido). Nunca mais se repetiu. Não se precisava disso. A festa se fazia com a família.

Começava com a árvore, a expectativa da festa, o presépio! A hora mais esperada. Apesar de não sermos religiosos, nunca se esquecia o motivo da comemoração. O nascimento de um menino em uma manjedoura que trouxe uma mensagem linda de amor e generosidade. As caixas da estrutura da árvore eram recobertas com papel e musgos que a gente buscava na estrada. Tinha areia, água em pratos que imitavam lagos, era imenso e eu olhava fascinada a construção. Era pequena para fazer, mas me deixavam colocar uns bichinhos. Os três Reis Magos vinham no caminho e a cada dia que nos separava da véspera de Natal, eles avançavam um pouco.

Eram tempos bonitos em que estávamos todos juntos. Hoje vejo minha mãe perguntar sempre: onde foram todos? E sinto que quando ela pede para ir para casa, é um pouco das casas que viveu que restaram em sua mente. Na minha também. Cada pedacinho de vida que vivi ficou de alguma maneira bonita como presente de Natal, retido dentro da alma e do coração.

"Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem "
  

A música já preparava para o anoitecer. 

Não com isso que não reste alegria e esperança. Há e muita. Mas a ingenuidade talvez seja o brinquedo que não tem mais. 

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