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Me sinto na Idade Média


Sempre adorei História. Devorava livros da biblioteca de meu pai, que também gostava de história. Via filmes de época e corria para ler sobre aquele período para saber o que era verdade e o que não era. Um hábito bem salutar que me fez aprender mais. Ou ver mais versões.

Lembro de uma série de amava ver nos anos 60. Passava na França, no que a gente chama de Idade Média. Thierry La Fronde era, para mim, uma espécie de Robin Hood gaulês. 

Gostava também das histórias do Rei Arthur e sua Távola Redonda. Anos mais tarde devorei os livros das Brumas de Avalon, misturando magia e simbolismos.

Mas quando me perguntavam em que época da humanidade gostaria de ter vivido, juro que nunca minha escolha seria por essa época. 

Imaginava mulheres reclusas em seus castelos, sem muitos direitos, gente ignorante, muita miséria e vassalagem. Locais onde a ciência era vista como magia, onde se colocavam pessoas nas fogueiras pelos autos de fé. Um período que atacou conhecimentos antigos e calou séculos de humanismo e descobertas. Sim, havia beleza nas construções de catedrais, templos para acalmar um Deus que estava acima de todos. E tinha seus reis que o serviam, com obvias recompensas terrenas. Havia brechas onde o conhecimento podia prosseguir. Às vezes restrito à poucos. Havia mulheres medievais intelectuais. Sempre há a resistência.  

Mas havia miséria e peste. Pessoas se refugiavam em castelos ou cidades muradas e só saiam com muita proteção. Cientistas eram queimados por ousar questionar os mitos da época. Se louvava a tortura e algumas pessoas se consideravam acima do bem e do mal. 

Havia fanatismo que levava caças às bruxas (as mulheres que dominavam ervas e algo incipiente de curas). O objetivo era arrematar almas para um Deus, sem atentar que esse Deus tinha sido objeto ele mesmo de torturas porque viera falar de amor e generosidade. Era como se as palavras dele tivessem soado no deserto. Homens de pouca fé mas muita lábia se diziam arautos de suas palavras. Guerreavam em nome de um Deus de Amor que era simbolizado martirizado, mas de belos olhos azuis. Coisa que um semita muito provavelmente não teria. Mais valia a versão que os fatos. Povos foram dizimados, pela espada ou pela peste, por seres que se achavam civilizados. Civilizações inteiras foram destruídas por conquistadores que usavam a espada como forma de convencimento. Como se armas e religião pudessem ter algum ponto de contato compreensível. 

Não foi um período bonito, por mais que as séries de TV me fascinassem. Não foi uma época tão romântica que me chamasse a querer viver nela. 

Mas por incrível que pareça, em pleno século XXI, depois de tantas descobertas, do mundo estar conectado digitalmente, de se ter ido à Lua, começo a me sentir vivendo em plena Idade Média. Com algum conforto, é claro. Mas com os mesmos desafios de tentar compreender o mundo sem fanatismos e com alguma racionalidade.

Só espero que uma outra Renascença nos aguarde. E breve!     

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