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Coisas da Coisa


Sou uma pessoa lógica. Dito isso já explico que nem tanto. Mas no conjunto sim. 

Meu pensamento tende a encaixar padrões em semelhanças e diferenças, estabeleço relações de nexo, obviamente baseadas no meu viés de vida, e teço conclusões. 

Procuro não ser exageradamente sectária e para tanto tenho me afastado das certezas absolutas. Elas já me guiaram rumos em tempos de mais mocidade. Agora posso me dar ao luxo de ser mais cética e mais perplexa com a vida e as pessoas.

Mas sempre tem as coisas da coisa.

Ficou curioso?

Siga o fio do grande pensador Raulzito a seguir:   

Logica e razão são coisas da terra. Eu divido as coisas da terra, coisas do universo e coisas da coisa. E as coisas da coisa, minha filha, essas é que são o negócio, entende? Quem é que pode explicá-las? Raul Seixas

Nesses tempos pandêmicos de pós verdades e sem verdades, onde versões valem mais que fatos, e a coerência tomou chá de sumiço, tento ainda estabelecer padrões mais ou menos lógicos para os acontecimentos. Mas falho.

Miseravelmente falho.

Minha mente já não acompanha a velocidade das redes que formam opiniões arraigadas com a força de tsunamis. Ontem João pensava que bolsa família era coisa de vagabundo que dependia de um estado cada dia mais opressor. Hoje o mesmo João aplaude as "conquistas liberais" que salvam os mais desfavorecidos, entre eles, a bolsa família que criticava tempos atrás. E aqui já nem importa se o viés é de esquerda, direita ou odara total. Me parece, na minha vã compreensão do mundo, que andamos em círculos, cada um na sua tribo, cada um com as suas verdades, jogando pedras no que pensa diferente.

E a coisa da coisa, o que realmente importa, fica de lado. Sem explicação. Apenas inquieta.

É como se cada relógio passasse a ditar horas diferentes. Tem gente vivendo ontem como se hoje fosse. Tem gente vivendo de noite e jura que é dia. 

E a lógica? Essa deu reviravoltas, virou quem grita mais alto, quem aceita uma outra visão, quem delira em outra versão.

E os fatos? Saudades de um fato comprovado, né, minha gente? Quem comprova o que, também depende da visão particular de cada um. De repente a opinião de um influenciador digital versado em astrologia pode valer mais que a de um cientista infectologista em questões de saúde. 

Coisas da coisa.

Comprovação científica vale para umas coisas. Para outras, não. Depende da conveniência.

E gente desmemoriada ou se fazendo de salame, faz discursos usando argumentos que desqualificava tempos atrás. Não muito tempo atrás. E nem ficam vermelhos.

Coisas da coisa.

Não diga que a vitória está perdida se é de batalhas que se vive a vida. Raul Seixas

Mas de coerência vivem os tolos. Os sábios se transformam. Argumento da hora de quem cita sem se aprofundar. 

Fatos continuam fatos. Não importa a versão que se queira dar. Estrelas brilham no céu, pessoas morrem, o amor permanece, a vida continua.

Cancelar pessoas que não concordam comigo pode ser cômodo. Mas é também infantil. Divergência gera crescimento. Dialogo gera pensamento. Pensamento muda a vida.

Evolução.

Talvez a coisa da coisa que não se explica seja apenas conviver e viver. E cantar. E ser maluco de quando em vez.    

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