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Despedidas e as lições de vida que perduram

blog Elenara elegante



De despedidas tem sido meus anos recentes. 

A morte, e tudo o que ela acarreta, não apenas para quem parte, mas para quem fica, vai mudando de significado a medida que o tempo passa. 
Pelo menos para mim mudou.

Quando pequena, não lembro a idade, comecei a compreender a imensidão do nunca mais, me parecia algo tão inimaginável como a infinitude do universo. Mas como era, em principio, algo muito distante, não me preocupei com ela na prática. Permaneceu junto às outras questões filosóficas que enchiam minha cabecinha curiosa.  

Até que chega a época em que as despedidas se sucedem, seja pela idade, seja por doenças, seja pela pandemia que ora nos aflige. De certa maneira já me encontra mais calejada, já achando que ter um prazo de validade até que não é uma coisa assim tão ruim. A gente vai se tornando obsoleta. As peças começam a falhar, a sombra da solidão se torna mais ameaçadora que nunca partir, naquele sonho de vida eterna, onde se reúnem Xangri-lá e vampiros. Zumbis que chama? 

Começo a entender que somos feitos de vida a toda instante, que levamos somente o que vivemos, o que fizemos. Que deixamos, não bens, mas exemplos. Que há que se compreender quando alguém desiste da luta. Que há enfim um tempo para cada um de nós.

E que isso não torna a vida menos bela. Ao contrário. Cada pedacinho de nossas almas são feitas de vidas que nos precederam. Gente que nem sabemos o nome, mas um dia pariram filhos, tinham sonhos e trabalharam. Cada um com sua sina. E sorte.

A amiga que parte tão cedo, deixando uma família tão linda, me deixa exemplos de muito saber amar. A tia que parte perto dos cem anos, com uma vida aparentemente tão pacata, deixa legados de doação e muitas viagens. O pai que tanto amo, que sofreu em um hospital deixa em mim o significado da luta com objetivos. Os primos que foram juntos, lembram a dedicação à família. A tia que foi além do limite na batalha contra o câncer, lembra que a vida deve ser celebrada em cada momento. E as lágrimas fazem parte da trajetória. A gente chora, e toca em frente.

Muitas mais lições deixaram. A principal delas: a busca pela sua felicidade. Não de maneira egoísta, dos que só enxergam o próprio umbigo como parâmetro, mas a do olho brilhante por fazer o que acreditavam. Nem sempre acertavam, mas tentavam. Da sua maneira, do melhor jeito possível, com a sua verdade generosa e ética.

De despedidas tem sido feitos meus momentos. Também em mim. De sentimentos que já não me servem. De consolidação e amadurecimento dos que me são essenciais. De compreensões e paciências com a vida que não me eram comuns. 

Sim, a vida me renasce, ávida como diz o poeta. Que caiba inteira em mim.   

Comentários

  1. Tão tocante. Tão nossos primeiros e últimos dias.

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    1. Mesmos as palavras me fogem nesse luto contínuo. Por mim, pelos tantos que se foram, pelos que ficaram, por tudo. Sobram os amigos, o amor, as sementes, a nossa luta por uma boa energia...Beijos

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