Vera, a buscadora

Conheci a Vera quando tinha uns 12 anos. Era a tia bonita que tinha casado com meu tio Cláudio, o caçula querido de cinco irmãs. Bonito que nem galã de cinema, bom de papo e de olhar sapeca. Não foi sem alívio que as manas saudaram a professorinha de sotaque gaúcho, morena como Ana Terra, que vinha fazer companhia para o tio estrabulega.

Nos conhecemos de fato lá no Planalto Central onde eles vieram morar conosco, trazendo seu jovem pacotinho, meu primo Cássio, então com meses de idade. Foram morar na nossa casa. Naquela altura já estávamos instalados em um magnifico apartamento do governo, naquelas mordomias da época da ditadura, que quando conto hoje ainda tem gente ingênua que arregala os olhos, achando que nada daquilo acontecia. 

A gente fervia no Planalto Central. Até de carro andamos com a Vera na direção. Sim, porque essa mulher desbravadora e lutadora, nunca levou adiante esse gesto de liberdade. Parou ali sua aventura de motorista. Mas nós fomos testemunhas.

Sempre sorridente, tipica mulher ariana, dessas que nascem em abril e não negam o signo. Cheia de verdades e buscas. Vera é desde sempre uma buscadora.

Busca na vida o que ela tem de belo e generoso a oferecer. E se não acha, ela mesma faz. Já a vi sair de enrascadas de saúde para festas. E como gosta de festas! Costumo dizer que a sua família festeja tudo, desde aquilo que a gente comum celebra, até os acontecimentos comuns do dia a dia. Saiu da quimio, lá vai ela colocar foto toda linda em alguma confeitaria. Quebrou o braço em um acidente vindo de uma roda de canastra, lá está ela em seguida, de tutor no braço, em Portugal. Está se recuperando de cirurgia? Já tem duas festas marcadas esperando por ela!

Mas não é apenas a viajante e festeira que admiro. Dentro da mulher bonita que cativou meu tio, se encontra uma lutadora. Alguém que foi presa por estar no movimento estudantil em uma hora que o país se fechava para a liberdade. O que ela fez para merecer os socos que levou e nunca revelou? Participava. Atuava. Não era omissa. Nunca foi.

Trabalhou na profissão mais nobre do mundo: ensinando. Quando se aposentou, continuou ensinando. Do presídio ao hospício. Lá estava ela, bem linda, cheia de sotaque da fronteira, encarando o que viesse.

Aos seus três filhos, meus jovens primos, Cássio, Cristiano e Karine, ensinou a ser gente. Cada um mais querido que o outro. Todos estudiosos, talentosos, bem sucedidos e seres humanos especiais de primeira.

Nas suas bodas de ouro, com meu tio já beirando os noventa, entraram lépidos e faceiros, dançando tango, fazendo com que os sobrinhos e netos babassem de bocas abertas.

Vera, a tia que sempre chamei pelo nome, por ser uma irmã do coração. Aquelas pessoas que a gente sabe ter convivido desde sempre, se tocado em outras vidas, se existiram. E que nessa nossas energias se enxergam e se gostam.

Nas horas mais especiais, aquelas que poucos estão junto, a Vera sempre esteve. Sempre pronta para ajudar. Sempre de sorriso largo e alma aberta. Sempre de opinião firme e coração generoso. 

Tenho uma baita sorte na vida de ter uma amiga como ela. Tenho o privilégio de ter uma tia assim especial, servindo de farol e exemplo. Cada dia eu a descubro mais e mais a admiro. Uma guerreira de coração pleno.

Uma mulher que busca e vai além.   

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