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Mostrando postagens com o rótulo pessoa idosa

Entre o cuidado e o excesso

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Eu costumava dizer brincando que devia existir um manual para fazer mães obedecerem às filhas. E vejo que é um sentimento bem comum aos filhos e filhas que cuidam de seus pais. Ou que se preocupam com eles quando ficam mais velhos.  Fico imaginando aqui um diálogo imaginário entre mãe e filha. O cenário: mãe já com mais de oitenta anos, fazendo birra porque não quer tomar os seus remédios. A filha com cinquenta, atarefada entre o trabalho, o marido e os filhos tentando que ela siga as orientações médicas.   A mãe fazendo uma careta quando a filha estende os comprimidos: Não vou tomar isso agora. Diz a mãe com ar de fim de papo. -Vai, mãe. -Depois. Ela olhando a filha com aquele olhar matreiro de sempre. -Depois quando, mãe? A mãe cruza os braços. E a filha reconhece o gesto na mesma hora. Afinal, tinha passado boa parte da adolescência fazendo exatamente isso. -Estou pensando no teu bem, diz a filha já com aquela voz condescendende. A mãe sorri de lado. E dispara: -E...

Pequenas concessões

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Uma história nem tão ficcional porque bem comum de acontecer... Marina olhou seu reflexo cansado no espelho e tentou entender em que momento havia chegado ali. A mulher que a encarava parecia uma versão desbotada daquela profissional admirada de poucos anos antes. Os cabelos já não recebiam o mesmo cuidado. As roupas eram escolhidas mais pela praticidade do que pelo prazer. A autoestima parecia ter se recolhido para algum canto da casa, junto das coisas que deixamos para depois. Mas nem sempre fora assim. Durante décadas tinha construído uma carreira sólida, um casamento feliz com o primeiro namorado e uma família que lhe dava orgulho. Os três filhos já seguiam seus próprios caminhos. Os netos começavam a ocupar o lugar das antigas preocupações maternas. Então a vida mudou de direção. O marido adoeceu. A doença foi rápida, mas o sofrimento parecia que nunca ia acabar. Foram meses de hospitais, consultas e noites mal dormidas que consumiram uma energia que Marina jamais recuperou comple...

O custo do cuidar: uma conta que ninguém fecha por inteiro

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Nunca esqueci o dia em que fiz meu primeiro exame MAPA. Aquele que mede a pressão de quinze em quinze minutos, dia e noite. Planejei tudo para que o dia fosse tranquilo. Não foi. De repente me vi em em uma ambulância a mil por hora com seu pai com uma hemorragia gastro esofágica, entrando numa UTI e a gente passando a primeira noite em claro, rezando para o telefone não tocar. Com um aparelho no braço apertando meu próprio sangue enquanto aparelhos monitoravam o dele. Essa é a imagem que me ficou gravada como emblema do que é cuidar de pais que envelhecem. A gente cuida dos outros enquanto esquece o próprio corpo. Literalmente. Meu pai foi um homem que planejou o futuro com a seriedade de quem aprendeu cedo que a vida não deve nada. Filho de uma viúva de 24 anos com quatro crianças, ele sabia que estabilidade não cai do céu. Concurso, previdência, seguros de vida, saúde cuidada. Genética boa, cuidados corretos. Eu quase acreditei que seria quase imortal. A gente sempre acha isso dos pa...

Terceirizar o cuidado, mas não o afeto

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Vivemos tempos estranhos. Somos criados para ter valor e propósito em uma sociedade que nos premia pelo que produzimos. Mas que também nos cobra quando nos julga inúteis para o sistema. O que fazer com os velhos que estão lentos demais, caros demais, dão trabalho demais? Coloca-los em nichos de vitalidade onde vão consumir no que se chama de economia prateada. E/ou terceirizar o cuidado dos que exigem mais atenção. O senão de tudo isso é que vamos dando uma lição amarga para as crianças e jovens: o ensinamento de que ficar velho é ruim. Que depender de cuidados é vergonha. E com isso há uma hiper valorização de uma juventude de aparência e adultos que têm pavor do futuro. O que vemos são muitas pessoas que crescem com competência profissional, mas emocionalmente despreparadas para lidar com fragilidade. E quando a velhice chega, tanto a deles como a dos outros, muitas pessoas acabam fugindo, não por maldade, mas porque não sabem lidar com o cuidado do que não produz. As pessoas raciona...

Repensando o que aprendemos sobre ser idoso

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  Um amigo compartilhou comigo esta postagem em uma rede social que mostrava u ma campanha que redesenha o símbolo das vagas para idosos. Sabe aquelas que antigamente mostravam a clássica figura curvada, de bengala? E que hoje já mostram um 60+? Pois a campanha foi além e mostra pessoas cheias de vitalidade em diversas atividades. O objetivo era simples: provocar reflexão sobre o envelhecimento. Mas bastou abrir os comentários para perceber o tamanho do nó que ainda existe quando o assunto é envelhecer. Entre os comentários, dois pontos de vista chamaram minha atenção. Um, mais raro, onde uma usuária dizia: “Estar ativo não elimina limitações. As vagas preferenciais são reconhecimento da vivência, não prêmio por fragilidade. Mostrar idosos ativos valoriza a vitalidade sem deslegitimar direitos”. E outros, que simbolizava a maioria, retrucava: “A vaga é por dificuldade de mobilidade. Não é prêmio por vivência.”  Parece um detalhe pequeno, mas é, de certa maneira, um ...

Museu dos velhos - repensando conceitos

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O envelhecer em nossa sociedade vem acompanhado de uma série de ideias e imagens que vão sendo ensinados desde a infância. Sabe aquela imagem fofa das crianças aprendendo a ter empatia com os vovôs e vovós? Pois é, como eles representam estes bons velhinhos? Com cabelinhos brancos, coques, bobies nos cabelos, bengalas e todo um aparato de fragilidade que apenas reforça o conceito de que envelhecer é enfraquecer.  Existem pessoas idosas frágeis? Obvio que sim. Assim como existem crianças, jovens e adultos frágeis. Doenças, fraquezas, imobilidade acometem pessoas de todas as idades. Se olharmos muitos de nossos velhos na sociedade de hoje vamos ver gente fazendo exercícios, trabalhando, viajando, cuidando de outras pessoas, inclusive de crianças. A longevidade vem se tornando uma conquista em quase todas as classes sociais.  Também é obvio que quando falamos de pessoas idosas, existem diferenças econômicas, genéticas e de oportunidades. É preciso que se repense a sociedade para ...

Manifesto pela Ética do Cuidado Intergeracional

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  “Encontrar o possível dentro do impossível”  Sonho Manifesto – Sidarta Ribeiro Leio um novo manifesto utopista, como já li tantos outros em minha vida. Vibro igualmente com eles, relembrando que não estamos sós em sonhar tempos de união e generosidade. Sempre entendi o ato de amar (que é uma bússola como define o mesmo livro) extremamente revolucionário. Tanto que as pessoas que advogam sua implantação entre os seres, acabam mortas de forma violenta. O ódio não tolera o amor porque este lhe é superior, já dizia a música Língua em outro sentido "E sei que a poesia está para a prosa Assim como o amor está para a amizade E quem há de negar que esta lhe é superior?" O Cuidado Como Atitude Revolucionária "O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado.  Cuidar é mais que um ato; é uma atitude.  Portanto, abrange mais que um momento de atenção.  Representa uma atitude de ocupação, preocupação,  de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro."...

O peso dos olhos que se desviam

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    "Vivemos submersos no fundo de um oceano de ar" Evangelista Torricelli “Eu era olhada quando jovem. Hoje, mais velha, sou ignorada. “ Ouço isso e penso: o olhar que se desvia talvez seja mais violento do que o que julga. Porque o julgamento, ao menos, reconhece existência. A indiferença nos torna fantasmas antes da hora. Estamos em uma roda de conversas sobre o filme norueguês Sex ( da trilogia Sex, Love, Dreams ). Pessoas de classe média em uma casa de cultura. Pessoas privilegiadas por terem acesso à cultura em um país onde tantos carecem de comida e abrigo. Duas pessoas tinham morrido de frio porque dormiam na rua em uma semana particularmente fria. Faz frio neste país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Nem sempre. No filme Sex um dos personagens narra algo que lhe marcou e lhe fez agir de forma inusitada. Ele fala sobre a maneira como outro personagem tinha interagido com ele, o olhar que o tinha marcado tanto: “Nunca me senti olhado daquela maneira” ...

Três Marias – Destinos Desiguais, Fardo Comum

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  Maria, Maria, é um dom, uma certa magia Uma força que nos alerta Uma mulher que merece viver e amar Como outra qualquer do planeta 1 Década de 1960 Em uma casa humilde, no interior do Brasil, nasce Maria dos Milagres. A primeira filha de muitos. Cresce em casa de barro, com muitos irmãos em escadinha e pouca comida. Aprende a cuidar dos menores e da casa ainda criança. Escola? Só até o 2º ano. Foi quando uma patroa de sua tia acenou com estudo na capital e lá se foi ela, cheia de esperanças. Perdeu-as no trabalho diário entre louças e mais crianças para cuidar. Os filhos da patroa. Em uma maternidade, nasce Maria de Fátima. Filha de um bancário e de uma professora, mora num bairro de classe média. Tem acesso a livros, brinquedos e estuda em colégio público de referência. Gosta de matemática e piano. Sonha com um futuro melhor enquanto brinca de casinha com bonecas e ajuda a mãe nas tarefas da casa. Em um bairro rico de uma capital, nasce Maria Antonieta. Tem um sobrenom...

De Woodstock ao WhatsApp da família: onde foram parar os rebeldes com mais de 30?

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  “Não confie em ninguém com mais de 30.” Frase curta, direta, quase um refrão. Imortalizada pela contracultura dos anos 60 e 70, ela ecoava nas rodas de violão, nas passeatas, nos pôsteres psicodélicos e nas faixas de protesto. Originalmente dita pelo ativista Jack Weinberg em 1964, durante o Free Speech Movement em Berkeley, a máxima expressava a desconfiança dos jovens em relação à geração mais velha, vista como cúmplice do poder, do conservadorismo e da opressão. A frase foi rapidamente adotada pelos movimentos de contra cultura mundo afora e, no Brasil, virou verso irônico e provocador na música Com Mais de 30 , de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Uma canção que zombava da autoridade, ironizava os valores tradicionais e escancarava a vontade de autonomia, autenticidade e liberdade da juventude. Criticava não só os mais velhos, mas também a alienação urbana, a caretice institucional, o tédio existencial. Era um convite à invenção de novos caminhos, longe das fórmulas prontas. Mas...

Crônica sobre o Diálogo Entre Gerações

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Era um sábado qualquer quando a família se reuniu para um festival de música. Tanto podia ser no Rock in Rio como em um outro qualquer que vemos pelo país. O cenário era uma loucura: palcos gigantes, gente eufórica, e um som tão alto que fazia o coração bater no ritmo da música. Ana, uma jovem de 20 anos, estava em seu paraíso pessoal. Fones de ouvido, os dedos voando no celular, compartilhando stories no seu Instagram daily, pensando em possíveis vídeos para o Tik Tok e vibrando com o set de uma DJ eletrônica. Para ela, aquilo era "hype". Já seu pai, Pedro, de 55 anos, de calças e camiseta preta do IRA, olhava em volta e só conseguia pensar: "Esses jovens, hein? Onde foi parar o bom e velho rock'n'roll?" Ao lado deles estava Maria, uma mulher vibrante, roupas indianas e cabelos brancos bem tratados, a avó de 73 anos. Ela balançava a cabeça lentamente, lembrando de quando assistiu a Janis Joplin no Monterey Pop Festival. Era o auge de sua juventude. "Ah...