Tempo aos 65 do segundo tempo

Elenara Elegante

Tempo do passado

Nasci em um século que se imaginava próspero. Herdava uma pandemia, duas grandes guerras, uma outra que não usava armas abertamente e por isso era chamada de fria. Um século que se ousava desbravar o espaço e imaginava o futuro com um ar de esperança onde a tecnologia livraria a humanidade do trabalho pesado e enfim, viveríamos para aproveitar a vida em divertimentos e enriquecimento cultural.

Cresci em uma família emergente. Empobrecidos por circunstâncias da vida, meus pais tinham uma bagagem cultural que os impulsionava para sonhar com um futuro mais promissor. E amigos em um país que se vendia como acolhedor e aberto para quem tivesse as peças certas. No caso deles até podemos falar em meritocracia pessoal. 

Fui a caçula de três filhos. Fui um projeto, na medida em que fui pedida por meus irmãos e pais até que minha mãe se rendesse à nova gravidez em já provecta idade. Tinha 32 anos e foi um escândalo que engravidasse naquela cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. Mas foi um parto tranquilo, com música calma, meia luz, meu pai junto e a parteira no hospital da cidade. Brinco dizendo que já nasci em um método Leboyer. Teoricamente, talvez explique meu aparente equilíbrio emocional.

Embora, é verdade, tenha sido uma criança precocemente fóbica social. O que já mostra que nem toda teoria se revela realidade, na prática. 

Em seis décadas e meia, morei em quatro cidades, passei por dez mudanças de casa e estudei em sete instituições de ensino. Tinha traumas de ter deixado cadernos e lembranças pelo caminho, o que talvez explique meu lado acumulador. Também nunca tive turmas, daquelas  de iniciar um época de vida e continuar pela vida. Tenho agora resgates em redes sociais de pessoas que me marcaram de forma indelével.

Me fiz arquiteta, trabalho, fiz uma pós depois de velha (segundo os professores da minha instituição de ensino). Tinha pouco mais de 35 anos. Tenho, como diria a celebre frase, que já nem sei se é de Clarice: Tenho medos insanos e coragens absurdas

Tempo do presente

Chego aos 65. Pensei em marcar de alguma maneira. Primeira ideia seria uma viagem, ainda sem rumo. Mas se antes da pandemia, já era complicado fazer planos em função da saúde frágil de minha mãe, depois de três anos de vai e vem de variantes, a perspectiva de viajar não me anima muito. A bem da verdade, nunca fui de viver a vida para fora como a vivo para dentro. 

Quando tinha 50 fiz um projeto chamado idosa gostosa. Não consegui implementar como gostaria, mas um pouco sim. Aos 60 fiz uma série de escritas sobre mim. Aos 65 ainda estou elaborando. Talvez as águas de abril já me cheguem com alguma porta se abrindo e me mostrem que o tempo de hoje se faz ao caminhar, alma anarquista que namoro desde sempre.

Tempo do futuro

Que mundo me espera, oficialmente idosa? Daquele mundo cor de rosa dos Jetsons da minha infância, restam a tecnologia mas aliada à uma perspectiva mais sombria de um retrocesso humanista em um mundo que se expande em forma virtual ao mesmo tempo que se retrai no real.

Não pari filhos, não tenho netos para renovar as esperanças do cuidar as sementes do amanhã. Meus cuidados são os do ontem, os que fenecem a cada dia. A velhice dos que me geraram me acompanha como escolha do amor que aprendo a cada dia. É uma luta inglória porque a derrota se encontra ali perto. Mas ao mesmo tempo, reserva um aprendizado pessoal que poucas terapias teriam conseguido.

Sou hoje uma mulher de meia idade, burguesa que não deu certo, avessa às ruas e procedimentos estéticos. Com uma acidez crítica cada dia mais presente. Com uma urgência premente de aprender, ao mesmo tempo que me desaprendo ao caminhar.


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