Pensamento flexível, a chuva e o olhar

Meu pensar anda rastreando entre o passado das séries que mostram viagens no tempo às recentes descobertas de como o cérebro funciona e como interage entre seus lados esquerdo e direito. Acabei de ler o Elástico, livro de Leonard Mlodinow e sobre "como o pensamento flexível pode mudar nossas vidas".

Assim dito parece mais um livro de auto ajuda. E não colocaria minha mão no fogo que não é. Acostumada a ler sobre criatividade e vivendo no Brasil que entrava e saía de crises com mais frequência que hoje se impicha presidentes, ai de quem não tivesse jogo de cintura. Havia até um dito popular de que os executivos brasileiros eram altamente valorizados no mundo exatamente porque pensavam fora da caixa. Ou a popular maneira de dar um jeito de fazer acontecer. E sobre isso tem uma frase deliciosa no livro, que teria sido dita pela mãe do autor e que, se nada mais tivesse de bom, já teria valido a pena a leitura: 
"Quando existe vontade, sempre se dá um jeito"
 
O que difere a leitura é que o autor apresenta pesquisas científicas que corroboram as funções de cada lado do cérebro e como os pesquisadores estão chegando aos locais onde essas conexões entre os lados se fazem. 

Pensar que milênios de civilização dependeram de cérebros pensantes e cozinheiros, onde pudemos não apenas sobreviver, nos reproduzir, como produzir obras e pensamentos maravilhosos que nos encantam até hoje.

Nosso pensamento de piloto automático, aquilo que fazemos sem pensar porque automatizamos, é responsável pela sobrevivência imediata. Desde dirigir até comer. Já o pensamento analítico nos leva a conceber objetos e escolhas mais complexas, selecionando a melhor (ou menos pior) de uma variante de possibilidades. Mas é a capacidade de criar uma nova solução que corresponde ao que o autor chama de pensamento flexível ou elástico. Olhar de novos ângulos, achar novas saídas.

E no mesmo domingo que terminei o livro, me deliciei com um programa sobre competição em fotografia de nu artístico. Seis ou sete fotógrafos, em um estúdio, usando um celular e tendo dois modelos, um homem e uma mulher despidos. A visão de cada artista, a maneira como cada um enfrentou o desafio, as concepções sobre a nudez, o corpo e o entorno foram complementadas pelo julgamento de três fotógrafos profissionais apontando as qualidades e defeitos de cada trabalho. O olhar humano que aliado à técnica faz de cada proposta uma criação nova. A arte se abastece disso.  

A alma humana se abastece das proposições que apontam outros rumos que não os óbvios e mais cômodos.  Ou talvez nem tão cheios de comodidade, mas apenas na rota pré estabelecida até que venha alguém e diga: por que assim e não assado? 

Vivo muito isso na arquitetura. O projeto se reveste de escolhas pessoais de cada profissional. Muitas vezes essas escolhas se cristalizam e passam a ser automáticas. Deixam de ser originais. Se tornam quase mecânicas. É como o autor de livros que encontra uma fórmula rendosa e repete ad eternum a mesma história, com outros nomes e outras fantasias. E o cliente do arquiteto ou o leitor do autor, de repente se dão conta que já viram aquele projeto que devia ser novo, ou já leram o livro que devia ser original.

Acho que foi Amos Oz que disse que se um livro se torna cômodo, se ele domina a escrita do personagem, deixa de lado e pensa em outra coisa. O desafio da inovação vem do embate por soluções que não se pensou antes. Não significando que se deva ser arrojado sempre ou por dever. O insight de algo necessário vem quando menos esperamos, quando saturados do problema, ou problemas, acessamos sei lá como o botão da lâmpada que traz luz e destravamos algo transformador. 

Talvez nossa alma necessite de uma grande chuva limpante de vez em quando, que lave nossas convicções arraigadas e alargue nossa mente para novos e ousados horizontes, onde possamos voltar a ter o olhar brilhante de quem se fez professor Pardal de seus sonhos. 

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