A vingança nossa de cada dia

 

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Acabei de ver uma série coreana chamada A lição (The Glory) que trata sobre a vingança de uma jovem, motivada pelo bullying escolar sofrido pela protagonista. Li que este é um problema muito sério na sociedade coreana e na série ele é realmente muito pesado, chocante em sua crueldade e traumas que levam a jovem a dedicar a sua vida a um desejo de vingança. Este passa a ser o foco de sua vida e para isto ela traça uma meta que cumpre friamente.

O enredo envolve o telespectador para que o desejo de vingança passe a não apenas ser aceito como normal, mas até motivando que seja desejável naquela motivação humana de resposta às ofensas e injustiças que a personagem sofreu. É compreenssível sentir que as pessoas querem vingança porque sentem que foram feridas e querem que a pessoa que as feriu sinta o mesmo tipo de dor.

Confesso que para mim, por mais terríveis que tenham sido os sofrimentos inflingidos, é dificil entender como uma pessoa possa fazer deste desejo de vingança uma meta de vida. Compreendo que a raiva possa ser uma excelente motivadora para se conseguir vitórias e conquistas na vida. Mas deixar que o ódio seja maior que a alegria de vencer, me parede deveras patológico. Acho que podem existir maneiras mais saudáveis de lidar com as emoções e resolver conflitos de uma forma mais positiva.

No entando, fiquei pensando sobre como a vingança é um tema comum em muitas obras de arte e literatura ao longo da história. Podemos citar duas obras célebres:

  • "Hamlet", de William Shakespeare: onde o personagem principal, Hamlet, busca vingança pelo assassinato de seu pai.

  • "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas: neste livro o protagonista, Edmond Dantès, busca vingança contra aqueles que conspiraram para incriminá-lo falsamente e roubar sua vida.

O mito da vingança divina é um também tema comum em muitas tradições religiosas e mitológicas. Os deuses ou divindades são responsáveis por punir aqueles que violam as leis divinas ou que cometem atos injustos. A vingança divina é geralmente retratada como uma forma de restaurar o equilíbrio e a ordem na sociedade e no mundo.

Na mitologia grega, por exemplo, os deuses eram conhecidos por se vingarem daqueles que os desafiavam ou os ofendiam. No cristianismo, Deus é descrito como justo e santo, e é dito que ele castiga os pecadores e recompensa os justos. Na mitologia japonesa, os deuses do xintoísmo são responsáveis por punir aqueles que violam os mandamentos divinos.

Em algumas tradições, a vingança divina é retratada como sendo imediata, enquanto em outras, ela é retratada como sendo diferida para o momento da morte ou da vida após a morte. Independentemente da forma como é retratada, o mito da vingança divina pode ser visto como uma forma de promover o comportamento ético e a obediência às leis divinas.

Então é bastante plausível supor que a vingança seja uma reação bastante natural dos seres humanos. Desde uma pequena ação pontual às mais maquiavélicas tramas para fazer outros pagarem pelo nosso sofrimento. Mas ainda assim, a vingança é um sentimento infantil de reparação de fora por algo que sofremos. O que adianta fazer alguém sofrer por nossa causa porque julgamos que ele merece uma lição bem dada? Ajuda o nosso sofrimento interno, traz um alívio imediato, mas compensa toda a gama de sentimentos negativos que nos intoxicam?

Não vou ser hipocrita e dizer que transcendi toda a mesquinharia interna e que não desejo muitas vezes que as pessoas paguem pelo que sinto que fizeram. Ou deixaram de fazer. Sou humana. É obvio que quero ver muita gente pagando – e bem – pelo mal que fizeram. Mas cada vez menos quero ser um instrumento de vingança. Cada vez menos quero que este desejo tome conta de maneira descomunal o meu viver. Prefiro fomentar um lado mais ameno e me abastecer de coisas agradáveis, fazendo de minha vida um deleite onde eu possa me sentir cada vez mais harmônica e saudável.

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